Sem-terra exigem apuração rápida
de chacina
(Marcelo Portela/Estado de Minas)
Integrantes do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST) fecharam três rodovias no Estado,
no domingo, em protesto contra a chacina de cinco sem-terra ocorrida
sábado, em Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha. A manifestação
foi realizada enquanto os corpos das vítimas eram velados
e as três estradas foram liberadas pelos manifestantes no
final da tarde. Ao todo, segundo levantamentos das polícias
Militar (PM) e Rodoviária Federal (PRF), aproximadamente
500 trabalhadores rurais participaram dos três protestos.
O maior bloqueio
foi feito no quilômetro 370 da BR-116, mais conhecida como
Rio-Bahia, próximo a Frei Inocêncio, no Vale do Rio
Doce. De acordo com a PRF, por volta das 14h30, aproximadamente
300 integrantes do MST atearam fogo em pneus e fecharam a pista
nos dois sentidos. O protesto foi acompanhado pela PRF e pela
PM, mas não houve confronto e a pista foi liberada no início
da noite. O mesmo ocorreu no quilômetro 520 da BR-251, no
trecho que liga Montes Claros a Salinas, no Norte do Estado. Cerca
de 50 trabalhadores rurais sem-terra também fecharam a
rodovia.
GRANDE BH Os protestos
não ocorreram apenas nos acampamentos do MST próximos
à região da chacina. Sem-terra acampados em ocupações
perto da capital usaram troncos de árvores em chamas para
fechar a MG-050, que liga Juatuba a Betim, na Região Metropolitana
de Belo Horizonte. Segundo estimativa da PM, aproximadamente 150
integrantes do movimento, que vivem nos acampamentos Olga Benário,
2 de Julho e Roseli Nunes, todos na Grande BH, participaram do
bloqueio, montado no Km 54 da rodovia, em frente à fazenda
Santa Helena, ocupada pelos sem-terra na quinta-feira.
Segundo um dos coordenadores
do MST em Minas, Ademar Suptitz, as manifestações
no Estado vão continuar “enquanto todos os jagunços
que mataram os trabalhadores e os mandantes do chacina não
forem presos”. Ele afirma que, entre os protestos, está
prevista uma vigília em frente ao Tribunal de Justiça,
em Belo Horizonte. “Queremos a prisão imediata dos
assassinos. Não houve enfrentamento e os trabalhadores
foram surpreendidos no acampamento”, diz. “A chacina
abre um precedente para a morte de outros trabalhadores”,
completa Mauro Lemes, também da coordenação
estadual do MST.
O assessor da Comissão
Pastoral da Terra, frei Gilvander Luís Moreira, afirma
temer um aumento na tensão entre trabalhadores rurais sem-terra
e fazendeiros já que somente este ano foram determinadas
a reintegração de posse de 11 propriedades invadidas,
apenas na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Sem
a agilização da reforma agrária, outros problemas
vão ocorrer. Houve vários tentativas de matar sem-terra
no último ano. As manifestações podem ser
um incômodo para outros trabalhadores, mas é a única
forma deles (sem-terra) serem ouvidos”, alerta.
Providências
Segundo o coordenador
nacional do MST, João Pedro Stédile, os trabalhadores
rurais atacados no sábado sofriam pressão há
mais dois anos: carros passavam em alta velocidade em frente ao
acampamento e alguns adolescentes chegaram a ser seqüestrados.
Diante da chacina, Stédile exige do governo mineiro todas
as providências para que os responsáveis pelo atentado
sejam presos. “Acabamos de sair do julgamento de um massacre,
agora vamos entrar em outro. Isso é o retrato do atraso
dos fazendeiros, que tentam manter uma terra grilada”, afirmou
Stédile, que esteve no domingo no velório do economista
Celso Furtado, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.
Também da
coordenação nacional do MST, Ênio Bonemberger,
que está em Felisburgo, classifica os homicídios
no acampamento “Terra Prometida” como uma “tragédia
anunciada”. “Há mais de dois anos foi comunicado
às autoridades que os ocupantes da Fazenda Nova Alegria/Aliança
vinham sofrendo ameaças de morte. Nada foi feito”,
lamenta, anunciando que nos próximos dias, os trabalhadores
que escaparam do ataque do último sábado vão
reconstruir um novo acampamento na área.
www.uai.com.br, 22 de novembro de 2004