CARTA DA IX ROMARIA DAS ÁGUAS E
DA TERRA
Terra nossa mãe,
água nossa Vida!
Cuidar das nascentes, veredas e riachos, veias vivas da Terra!
“Bendita
e louvada seja esta Romaria das Águas do São Francisco,
da Terra de Minas Gerais”.
Envolvidos neste
canto de louvor, junto ao murmúrio das águas do
Rio São Francisco - chamado de “Opará”
pelos nativos, os índios Caetés, que quer dizer
“ Rio- Mar” pelo seu tamanho, pela riqueza e diversidade
de peixes - nós milhares de romeiros e romeiras das Minas
e das Gerais, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, de
Goiás e do Entorno, da roça e da cidade viemos denunciar,
anunciar, comungar e celebrar o sonho de ver a Terra - nossa mãe
- e a Água - nossa vida - LIVRES.
Viemos de todos os cantos celebrar e contemplar a resistência
dos povos do Rio São Francisco, fomos acolhidos de braços
abertos pela arquidiocese de Diamantina através do povo
de PIRAPORA - quer dizer “o salto do peixe” que acontecia
durante a piracema e que hoje só ficou na memória
– e de BURITIZEIRO - terra dos coqueiros buritis que forravam
as veredas e brejos desta região, hoje só existem
alguns.
Ouvimos o triste
lamento das águas do Rio São Francisco que grita
pelo direito de continuar a ser fonte de vida para os seres vivos
e para os povos ribeirinhos, pescadores, vazanteiros, catingueiros,
lavradores, artesãos, bóias frias, rendeiros, assentados
e acampados, quilombolas, lavadeiras, e povos indígenas,
que vivem nas inúmeras comunidades e cidades, que ele serve
há mais de 60 milhões de anos, desde o tempo que
Deus o criou. O rio clama pela vida que sempre generosamente distribui
pelo sertão.
Os projetos de desenvolvimento
econômico que têm explorado a Mãe Terra e a
Irmã Água visam o lucro e o proveito para uns poucos
e deixam degradação e morte. As monoculturas: eucalipto,
soja, cana e braqueária agridem a biodiversidade do cerrado,
expulsam trabalhadores e enriquecem os donos das plantações.
As terras dos latifundiários de ontem, arcaicos, recebem
hoje a maquiagem do novo, o agronegócio – seus grãos
são para a exportação, não alimentam
a nação. O sagrado esforço dos trabalhadores
e trabalhadoras rurais, nestas terras continua trabalho escravo,
degradante e ultrapassado. O Agronegócio tem face de contemporâneo,
mas é cruel - homem e mulheres estão nus de seus
direitos e dignidade, feito sacrifício para os deuses do
mercado. A Reforma Agrária só no papel! A lei do
mercado manda e impera! Esquecido e explorado, sem terra - o povo
segue sua marcha, rompendo as cercas. A ocupação
é expressão legítima na luta por um direito
constitucional – A REFORMA AGRÁRIA – direito
de um povo que quer um pedaço de chão para tirar
o sustento e comer em paz o seu pão. E com a agricultura
familiar produzir o alimento necessário a nação,
que chega à mesa do povo sem agredir a terra e saúde
das pessoas, preservando a natureza.
Viemos denunciar
que as águas sofrem ameaças de morte! Querem comprar
e vender, usar e seqüestrar o que de mais puro existe neste
mundo: as águas, sangue das veias da Mãe Terra!
As barragens hidrelétricas e outras servem aos interesses
de seus donos matam os nossos rios e expulsam milhares de famílias
de suas terras, só em Minas Gerais são mais de 100
projetos de barragens que expulsarão 30000 pessoas de suas
terras. Os resíduos de mineração, agrotóxicos
e insumos químicos, somados às queimadas e desmatamento
nos tiram o direito de viver sossegado porque até das minas
e nascentes já não jorra mais água de confiança
– metade das nossas doenças, hoje, são relacionadas
ao uso de água contaminada. Denunciamos que a água
não é mercadoria, anunciamos e reafirmamos que ÁGUA
É PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE e anunciamos que nós
romeiros e romeiras continuaremos a luta e mobilização
pela preservação, proteção e gestão
popular dos recursos hídricos.
Nós romeiros
e romeiras ecoamos, em alto tom, um forte grito:
NÃO AO DESVIO DO RIO SÃO FRANCISCO, NÃO À
TRANSPOSIÇÃO DE SUAS ÁGUAS, RESPEITO À
CRIAÇÃO DIVINA.
Espalhem as carrancas,
escutem o som tambores, das violas, dos poetas e das folias, pois
é momento de celebração. Frente a todos os
desafios e ameaças, somos povo de Deus em caminhada, integrados
com o universo, renovamos aqui na margem do Rio São Francisco
o nosso compromisso com a Terra e as Águas livres, contra
qualquer forma de exploração e acumulação;
e lutaremos para promoção da justiça social.
Voltaremos para
nossas comunidades, animaremos outros companheiros e companheiras
para esta luta divina, e juntos vamos construindo um mundo melhor
para nós e nossos filhos. Eis a nossa missão: cuidar
das nascentes, veredas e riachos, veias vivas da Terra.
Viva a Romaria,
viva o Rio São Francisco, viva a festa do povo que com
a mesma força do rio segue a vencer os obstáculos.
Até a X Romaria das Águas e da Terra.
Pirapora –
Buritizeiro, dia 1º de agosto de 2004.
Romeiros e Romeiras
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caminhada.
