DOAR A VIDA
Testemunho de Dom Flávio Cappio
----------Padre,
bispo, papa, religiosos simbolizam, na Igreja Católica,
os quem se dispõem a doar a vida por uma boa causa –
O Reino de Deus. Será que se doa a vida por uma promessa-voto,
um cargo, uma liderança, uma fatia de poder, um absolutismo
monárquico? Tudo indica que doar a vida é investir,
abnegada e saudavelmente, na qualidade de relações,
na libertação sistêmica, na dignidade das
pessoas, na preservação da natureza. Não
há doação sem abdicação. “Torna-se
fator de acréscimo quem se dispõe a perder”.
“Quem morre há de viver”,
----------Quanto
“fazer-de-conta” pode haver em pretensos doadores
da vida! Tantas vezes nossa doação é camuflada
por medo, vaidade, ânsia de poder, busca de prestígio,
moralismo, prepotência, alienação. A verdade
na doação da vida se cultiva graças a formas
de morte, a modalidades de perda e, sobretudo, graças ao
dom de si a favor de terceiros ou de uma boa causa que beneficia
um sem número de pessoas. Não raro, os que mais
gritam pela defesa da vida se fazem assassinos. A história
nos presenteia tantos e tristes exemplos (Inquisição,
Cruzadas, Absolutismo...).
----------O
apóstolo Pedro pretendia salvar a vida de Jesus. “Ter
de doar sua vida? Isto não lhe vai acontecer!” Teve
de ouvir: “Seu modo de pensar nada tem a ver com a sabedoria
de Deus. Deixe-me em paz, seu covarde e mentiroso!” Seria
tão fácil para Jesus uma retirada, uma fuga inteligente,
preservando sua vida. “Mas quem não perde, como há
de ganhar?” Todos, sem mais, têm de perder, por uma
doação radical, sua vida? Uma coisa é o ideal,
bem outra a capacidade e a missão de cada um. Em uma situação
de resistência, nem todos têm de se engajar igualmente.
----------Nem
todos são pai ou mãe de família; nem todos
se fazem líderes religiosos; nem todos se fazem próximos
de vítimas de cataclismos ou de totalitarismos. Se, antes
de Jesus, houve tantos profetas, nem todos deram a própria
vida como, depois dele, nem todos que o representam, deixam de
usar vestígios do poder. Oxalá... Porém,
somos frágeis. Agora, criticar e difamar quem se dispõe
a doar a vida em situações de calamidade pública,
como é a do Brasil atual, tal pessoa chama sobre si a reação
de Jesus frente a Pedro.
----------Feliz
o povo, feliz a instituição que produzem pessoas
tão dignas a ponto de se disporem à doação
da própria vida para que a vida de tantos seja salva. Maldito
o povo e maldita a instituição que repudia um filho
seu que, de tanto amor, abdica de si para que vida de qualidade
se torne herança de todos. Bendito o povo, bendita a instituição
que alimentam em seus filhos a capacidade de, esquecendo-se de
si, priorizar a vida de seus irmãos. Repudiável
o povo e execrável a instituição que avaliam
a doação de um filho seu como um gesto idolátrico.
----------Estimado
dom Luiz Flávio CAPPIO, sentimo-nos orgulhosos pelo fato
de havê-lo como irmão, capaz de um gesto fraterno
de extrema importância com grande valor histórico.
Sentimo-nos um tanto acanhados por não ter a mesma ousadia.
Oxalá seu testemunho nos interpele e inspire na luta pela
vida do povo sofrido. Irmão, muito obrigado por sua autenticidade
frente a seus colegas bispos e a nós cidadãos. Por
graça divina, um dia, possamos todos enxergar o valor de
seu gesto
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Em nome de cristãos e movimentos eclesiais
da Comunidade Carmo-Sion – Belo Horizonte
Frei Cláudio vann Balen
Frei Gilvander Moreira
Belo Horizonte, 03/12/2007