Correio da Paraíba - João Pessoa
- Publicado em 25/11/2007
A SECA DO
NORDESTE TEM SOLUÇÃO
Águas subterrâneas
são apontadas como alternativa e estiagem não seria
problema
---------São
Paulo (Agência Fapesp) - Em 1962, um quarto de século
antes de a Organização das Nações
Unidas publicar o relatório Bruntland - o primeiro documento
a sugerir a inclusão do tema sustentabilidade na agenda
de desenvolvimento dos países -, Aldo da Cunha Rebouças,
um jovem geólogo formado pela Universidade Federal de Pernambuco,
já alertava os órgãos públicos para
o fato de que a má gestão e o uso inadequado da
água comprometeriam a qualidade da oferta do produto. Ao
longo de mais de 40 anos de pesquisa, ele defendeu obsessivamente
a premissa de que "o conceito de água abundante, inesgotável
e gratuita, uma dádiva de Deus ou de qualquer outra figura
cósmica, da igreja ou de políticos, dos coronéis
ou do homem, da natureza", era uma ficção obsoleta.
---------Necessidade
de tratamento especial
---------Brandiu
esse alerta diante de vários governos. No final dos anos
1960 e início de 1970, foi diretor da Bacia Escola de Hidrologia
da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
---------"Constatei
que o problema do Nordeste não é de seca, mas de
cerca", lembra.
A região tem uma importante fonte de recursos hídricos:
a água subterrânea. Boa parte dessa água está
protegida da evaporação e poderia abastecer o dobro
da população do Polígono das Secas, que compreende
nove estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais. "A água
subterrânea está presente nos terrenos sedimentares
e não precisa de nenhum tratamento especial, exceto a cloração",
explicou em entrevista à Radiobrás, em 1999. Esse
potencial, no entanto, é subaproveitado, apesar de as tecnologias
de retirada dessa água serem relativamente simples e de
baixo custo: basta uma bomba manual ou cata-ventos movidos a energia
eólica que custam entre R$ 200 e R$ 400. Um inventário
recente dos poços já perfurados revelou, no entanto,
que cerca de 30 mil deles não estavam equipados para a
extração de água.
---------Aldo
Rebouças é uma referência mundial no estudo
das águas
---------Tese
de pós-doutorado
---------A
água foi objeto de suas teses de mestrado e doutorado,
na Universidade de Strasbourg, na França; e de pós-doutorado,
na Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Assistiu ao primeiro
seminário patrocinado pela Unesco, em 1965, em Washington,
que resultou num programa mundial de estudos sobre as águas
subterrâneas. "Foi feito um balanço hidrológico
e constatou-se que 30% da água do planeta era subterrânea.
O homem já tinha pisado na Lua e ainda não sabia
o que havia sob os seus pés...". No início
dos anos 1970, a nova descoberta fez a geologia "explodir"
como a ciência do futuro, tendo como Meca a França.
Rebouças estava lá, desenvolvendo a tese de doutorado
sobre a bacia Potiguar. "Mostrei que o projeto de desenvolvimento
patrocinado pelo Banco Mundial estava instalado na região
mais cara da bacia, sem nenhuma importância do ponto de
vista hidrológico. A região correta, e mais barata,
era a Serra do Mel e de Serra Azul, onde estavam os minifúndios",
lembra. Em meados de 1970 o Nordeste "não lhe
coube mais". Já casado com dona Suzana e com
três filhos, Rebouças transferiu-se para a USP, onde
fez oque considera sua maior contribuição para a
hidrologia: descreveu oaqüífero Guarani, um manancial
de água doce subterrânea de proporções
gigantescas, localizado na região centro-leste da América
do Sul, que se estende pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina.
"Descobri que o cristalino tem muita água",
resume, modesto. Até então a ciência descrevia
só parte dessa imensa formação, o aqüífero
Botucatu. A descoberta de Rebouças foi batizada pelo uruguaio
Danilo Anton, em memória dos povos indígenas da
região.
---------Poços
com inclinação
---------Uma
das soluções para o Nordeste, na sua avaliação,
estaria na construção de poços artesianos
inclinados, já que a região está localizada
sobre uma fratura de rochas antigas, pré-cambrianas, de
muito movimento. A outra, e a regra vale para todo o país,
está na educação. "O cidadão
brasileiro precisa ser informado ao máximo para utilizar,
de forma cada vez mais eficiente, cada gota d`água disponível,
reduzindo-se os desperdícios nas grandes cidades onde ainda
se utilizam bacias sanitárias que necessitam de descargas
que consomem de 18 a 20 litros, quando se tem modelos no comércio
que necessitam de apenas 6 litros", afirmou.
---------Transposição:
"um absurdo"
---------Hoje
Rebouças assiste perplexo ao debate sobre a transposição
do rio São Francisco. "Um absurdo",
como ele qualifica o projeto, movido por interesses políticos
e pela velha rixa entre engenheiros - "que só
se preocupam com a água que está acima do solo"
- e geólogos - "que só se preocupam com
a água subterrânea". Sugere reiteradamente
que é preciso investir mais no homem e menos em obras:
"Não adianta construir barragens se os homens não
sabem usa-las", argumenta. Cita o exemplo de regiões
em Israel e nos Estados Unidos, com o mesmo clima, e que são
bastante prósperas. Para ele, a seca do Nordeste deveria
ser encarada como uma oportunidade. "Tudo que se planta
no Semi-árido dá, ele não é um solo
pior para o cultivo que os outros".
---------História
da humanidade
---------Rebouças
tem fundamentado suas teses sobre hidrologia na história
da humanidade. Em 2003 recorreu a esses dois argumentos para criticar
o governo de Luiz Inácio Lula da Silva que elegeu o programa
Fome Zero como política prioritária de governo,
em detrimento de ações de democratizaçãodo
saneamento e acesso à água potável. "Há
25 mil anos a.C., já se sabia que o uso cada vez mais eficiente
da gota d`água disponível era a alternativa mais
barata de combate à fome. Parece, todavia, que esta lição
não foi aprendida até agora, à medida que
ainda se procura combater a fome com a distribuição
de alimentos, como fez a Coroa portuguesa nas suas
tentativas iniciais de colonização do Brasil",
escreveu na época.
CONTATOS:
www.umavidapelavida.com.br
www.cptmg.org