CARTA DA 10ª ROMARIA DAS ÁGUAS E DA TERRA
50 ANOS DA CÁRITAS BRASILEIRA

Terra e água, força de vida.
Vida em abundância para toda a criação!

----------Janaúba - Norte de Minas, 20 de agosto de 2006.

----------Nós, romeiros e romeiras, celebramos nas margens do Rio Gurutuba, em Janaúba - região da caatinga e dos gerais, a 10ª Romaria das Águas e da Terra e os 50 anos da CÁRITAS Brasileira. Ecoamos o choro dos rios, dos riachos e das veredas. Oh, minas das Minas Gerais! Olhos d’água aqui secou, riacho não corre mais, são lágrimas da mãe terra com saudades dos gerais. Ecoamos o clamor da caatinga e do cerrado. O lamento dos sem terras, quilombolas, vazanteiros, geraizeiros, pescadores, atingidos por barragem, lavadeiras, indígenas, trabalhadores (as) e agricultores (as). Anunciamos nosso projeto de vida num grande mutirão por um novo Brasil.
----------A água é fonte de vida! Não é mercadoria! Os capitalistas expandiram seus domínios sobre os bens da criação. Agora ameaçam de morte as águas, apropriam, vendem e a envenenam. Fazem isso através dos grandes projetos de irrigação, das hidrelétricas e das barragens, da cobrança de água, do uso industrial, da mineração e das parcerias público-privadas nos serviços de saneamento básico. O perímetro irrigado do Gurutuba, da Jaíba, do Jequitaí; as barragens de Berizal, Aimorés, Fumaça, Irapé; a poluição da Votorantin em Três Marias; e a transposição do Rio São Francisco são algumas das ameaças concretas da morte das nossas águas. Afirmamos que a água é direito humano e bem ambiental de uso comum do povo e da natureza!
----------A terra é dom de Deus (Lev. 25,23). Toda a vida provem da terra. Terra, água, plantas e animais formam um só corpo vivo. Somos terra e somos água. Do barro viemos: homens e mulheres. Viemos da terra pela mão do criador. Infelizmente a terra, mãe da vida, é tratada como terra de negócio, pelos grandes latifundiários e as grandes empresas multinacionais, que a dominam, maltratam e exploram.
----------O agronegócio, calcado no latifúndio, oculta a agressão ao meio ambiente, a dependência econômica, a superexploração dos trabalhadores e o trabalho escravo. As monoculturas do eucalipto, da soja, dos pastos e da cana concentram o poder nas mãos de poucos, não geram empregos e não produzem alimentos para a população. Muitos camponeses têm como única alternativa a migração e a exploração do seu trabalho nas colheitas de café, cana e na produção de carvão.
----------A questão da terra não afeta somente o campo, é uma questão nacional e planetária. A acelerada e violenta agressão ao meio ambiente e aos povos da terra revelam a crise de um modelo de desenvolvimento, alicerçado no mito do progresso, que se resume nos resultados econômicos e esquece as pessoas, sobretudo os mais pobres, e todas as demais formas de vida.
----------Esse mesmo modelo de desenvolvimento, explorador e concentrador, geram a violência nas grandes cidades e no campo. Os despejos praticados por ordens judiciais e por milícias armadas - a mando do latifúndio, violam os direitos humanos. O poder judiciário tem-se mostrado, quase sempre, um dos grandes aliados do agronegócio. Ao mesmo tempo em que é lento para julgar os crimes contra os camponeses, é extremamente ágil para atender as demandas da elite. A maioria dos mandantes e dos assassinos da Chacina de Unai e do massacre de Felisburgo está livre ou foragido. Queremos a prisão, o julgamento e punição dos acusados, clamamos por justiça.
----------Esse caminho de morte é apoiado e incentivado pelas políticas agrícolas e agrárias dos governos. Os subsídios, os créditos, as prorrogações das dívidas, o crédito fundiário, incentivos fiscais e implantação de infra-estrutura para exportação, são políticas subservientes ao agronegócio. A prometida reforma agrária não acontece! Os governos não têm tomado medidas suficientes para reaver as terras publicas, da união e devolutas, como não demarcam os territórios das populações tradicionais.
----------Ecoamos o clamor das águas e da terra! Os movimentos sociais e populares reafirmam, em romaria, sua luta por uma reforma agrária constitucional, camponesa, que respeite as diversas culturas e ambientes, que garanta condições de vida e produção de alimentos. Lutamos pela regularização das terras quilombolas, indígenas e vazanteiras.
----------Queremos um novo modelo energético, com novas formas de geração de energia, cancelamento dos projetos de barragens, isenção e redução das tarifas de energia elétrica. É nosso anseio: a soberania e segurança alimentar; políticas públicas para atender as necessidades dos trabalhadores e das trabalhadoras; dos jovens; das mulheres camponesas, das lavadeiras e dos indígenas; com políticas de educação, saúde, moradia e previdência social.
----------Defendemos: a agricultura camponesa, responsável pela maioria dos empregos no campo e pela produção de alimentos; os projetos e reservas agroextrativistas do cerrado e da caatinga; o uso das sementes e de animais nativos; a agroecologia; e o fortalecimento da economia popular e solidária.
----------Reafirmamos nosso não a transposição das águas do rio São Francisco, que ao contrário de saciar a sede dos nordestinos, visa saciar a sede dos políticos, das empreiteiras, dos irrigantes e criadores de camarão. Defendemos uma ampla política publica para a região do semi-árido, baseada na convivência com esse bioma, na participação e na experiência popular, com iniciativas simples e eficazes como a captação da água de chuva, as barragens subterrâneas e o programa uma terra e duas águas.
----------Venham, vamos juntos recriar a vida! Transformemos a política e os políticos, para que suas ações sejam serviços ao bem comum. Somos co-responsáveis pela escolha dos governantes e dos legisladores. Digamos não à corrupção e sim para a ética no exercício de nossa plena cidadania.
Chegou a hora de irmos embora, de seguirmos em caminhada para a terra sem males. Levamos na sacola a alegria de romeiros e de romeiras. Levamos grudados em nosso corpo as prioridades e os desafios de continuar nossa luta pela libertação das águas e da terra, para homens, mulheres e criaturas livres. É hora de destruir o capitalismo e suas mordaças. Vamos juntos remover pedras, construir poesias e práticas emancipatórias e revolucionárias.
----------Salve o Rio Gurutuba, o Verde Grande, o Rio Pardo! Salve o Rio São Francisco! Salve os olhos d’águas, as veredas e as chapadas! Salve o povo Gurutubano e o povo brasileiro!

----------Romeiros e romeiras da 10ª Romaria das Águas e da Terra.

 
 
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