Acampamento
Dênis Gonçalves,
uma estrela vermelha brilhando na Zona da Mata mineira
Gilvander
Luís Moreira, frei
----------Dia
26 de agosto de 2010, nós, dezenas de participantes
das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs –
e agentes da Comissão Pastoral da Terra –
CPT/MG -, visitamos um Acampamento do MST, no município
de Goianá, Zona da Mata de Minas Gerais. São
102 famílias Sem Terra registradas, em 70 barracos
de lona preta. A ocupação da Fazenda Fortaleza
de Santanna aconteceu dia 25 de março de 2010.
As famílias acampadas resolveram batizar o Acampamento
com o nome de Dênis Gonçalves, que foi uma
criança sem-terrinha do Assentamento Olga Benário,
em Visconde do Rio Branco, MG. Após ouvir os apelos
do pai para abraçar a luta no assentamento e estar
participando ativamente da ciranda infantil, um dia, ao
ir à cidade, Dênis morreu em um acidente
automobilístico. O Assentamento Dênis Gonçalves
é sinal de que Dênis está ressuscitado,
presente na luta da família Sem Terra.
----------A
Fazenda Fortaleza de Santanna, latifúndio ocupado,
tem 4.865 hectares e é improdutiva, segundo laudo
do INCRA, de novembro de 2009. Tem apenas 1.400 cabeças
de gado em uma imensa monocultura do capim. Uma acampada
diz: “Sem reforma agrária, querem que
o povo aprenda a refogar capim e comer.” A
sede da fazenda foi destruída em um incêndio
em 2004. Tratava-se de um monumental patrimônio
histórico cultural. Foi criminoso o incêndio?
Foi para evitar o tombamento da sede da Fazenda?
----------A
Fazenda já foi da baronesa de Santanna, mãe
de Mariano Procópio, o construtor da estrada de
Juiz de Fora a Rio Novo, município vizinho. Hoje,
o empresário Fábio Tostes e herdeiros, família
tradicional da região de Juiz de Fora, MG, são
os proprietários da fazenda. Moram no Rio de Janeiro.
Dizem que há na fazenda 28 famílias agregadas,
entre os quais há trabalhadores desrespeitados
em seus direitos trabalhistas. A Fazenda já foi
multada pelo Ministério do Trabalho por não
pagar insalubridade aos vaqueiros que trabalham nos currais.
----------O
juiz da Vara Agrária não concedeu liminar
de reintegração de posse aos pretensos proprietários,
mas restringiu os acampados em uma pequeníssima
faixa de terra, proibindo os Sem Terra de gozar a posse
da fazenda e plantar suas lavouras. Assim, muitos são
obrigados a deixar o acampamento e ir trabalhar como diaristas
em fazendas vizinhas ou nas cidades próximas. Houve
patrões, como os da Fazenda HD, que demitiram trabalhadores,
porque estavam participando do Acampamento Dênis
Gonçalves. Os proprietários da Fazenda Fortaleza
de Santanna mandaram cortar a energia que uma família
de agregados tinha cedido ao Acampamento. Assim, várias
pessoas que tinham que fazer inalação tiveram
que abandonar o acampamento e voltar para a periferia
da cidade.
----------Um
tailandês, o sr. Harém, esteve durante várias
semanas no acampamento e, como expressão de solidariedade
internacional, ajudou a construir um barraco comunitário-cultural.
No Acampamento há uma grande horta comunitária
que produz para o consumo da família Sem Terra
e a sobra é vendida na cidade de Goianá.
Há também várias hortas em volta
dos barracos de lona preta, inclusive com ervas medicinais.
Um acampado desabafou: “Me juntei ao MST, porque
me cansei de trabalhar das 3 horas da madrugada até
às seis da tarde, de segunda a segunda, sem descanso,
ganhando só um salário mínimo. Meu
irmão e eu tirávamos 500 litros de leite
de manhã e 350 litros, à tarde. Basta de
escravidão! Agora, luto por um pedaço de
terra para fazer a minha hora e não mais fazer
hora para o patrão.” Na celebração
ecumênica que fizemos no acampamento, um apoiador
recordou Gabriel O Pensador, que diz: “Quem trabalha
e mata fome não come o pão de ninguém.
Mas quem come e não trabalha está comendo
o pão de alguém.”
Clic nos
links, abaixo, e assista reportagem sobre o Acampamento
Dênis Gonçalves:
Parte 1
= http://www.youtube.com/watch?v=BHddAknGpBY
Parte 2 = http://www.youtube.com/watch?v=yG7ilkw3TWs