Mensagem – Compromisso
DA 5ª ROMARIA DAS ÁGUAS
E DA TERRA DE MINAS GERAIS
PARA: O povo de Deus das Comunidades
TERRA E ÁGUA CONQUISTADAS, VIDA RESGATADA!
----------No
Assentamento Formosa Urupuca, no município de São
José de Safira/MG, dia 06/08/2000, aconteceu a
5a ROMARIA DAS ÁGUAS E DA TERRA DE MINAS GERAIS.
Participaram milhares de pessoas, vindas das mais diversas
partes de Minas e de outros lugares; entusiasmadas reforçaram
o clamor: TERRA E ÁGUA CONQUISTADAS, VIDA RESGATADA!
A Terra é o “nosso corpo” e as águas
são o “nosso sangue”. Terra e água
não se mendigam, conquistam-se. Terra e água
seqüestradas clamam para serem libertadas, resgatadas.
----------O
assentamento Formosa Urupuca, com área de 2.600
hectares de terra, banhada pelos rios Suassuí e
Urupuca, está situado no município de São
José de Safira/MG. Este assentamento é hoje
o palco de vida de 65 famílias que conquistaram
a terra e se transformaram em uma imensa estrela humana
que irradia luz e aquece com esperança os corações
de milhares de comunidades de Sem Terras de Minas e do
Brasil que estão na luta por uma Reforma Agrária
autêntica. O dia 29 de março de 1996 é
um dia inesquecível para o corajoso povo de Formosa
Urupuca, pois foi o dia em que o Governo Federal, pressionado
por eles, desapropriou aquelas terras do “rio sem
dono” para fins de Reforma Agrária.
----------Manoel,
um membro do povo indígena Xacriabá, nos
recorda: “a nossa Mãe Terra está
seqüestrada nas mãos de poucas pessoas e/ou
empresas, está clamando para ser libertada.”
Sussurrando nos nossos ouvidos, nossa Mãe Terra,
com lágrimas nos olhos desabafa: “Somente
no Brasil eu tenho mais de 100 milhões de filhos/as
passando fome. Liberte-me para que eu possa alimentar
meus filhos que são todos vocês.”
Núbia, uma indígena Tupinambás, no
10° INTERECLESIAL das CEBs em Ilhéus, emocionada
nos interpelava a contemplar os rios dizendo: “Olhe
com os olhos do coração os rios, que são
as veias e artérias da nossa Mãe Terra;
estão correndo risco de vida, porque as águas
estão cada vez mais poluídas e diminuindo.
O corpo da Mãe Terra está intoxicado, porque
capitalistas inescrupulosos desmatam as nascentes dos
rios e insistem na estupidez da monocultura do eucalipto,
que resseca a terra, expulsa os Pequenos da Terra para
as periferias urbanas e os pássaros e animais são
extintos dia-a-dia”. Como se não bastasse
as empresas mineradoras com sua fúria por lucro
destroem a terra, desencadeiam processos erosivos, etc.
Quantas indústrias jogam quotidianamente nas águas
(= “sangue da mãe terra”) lixo, esgotos,
produtos químicos, óleo, etc asfixiando
até a morte a vida da Mãe Terra e a vida
de tantos filhos/as dela?! “No seio da Mãe
Terra o sangue de milhares de mártires lateja e
clama por Justiça” (cf. Gen 4,10). Como
bons/boas mineiros/as desconfiamos que a nossa Mãe
Terra, nos interpela com ternura e nos questiona: “Escute
o clamor dos meus filhos atingidos por barragens, que
assombrados com as inundações dos lagos
artificiais têm que sair correndo para não
serem afogados; são transplantados para longe das
suas raízes e forçados a deixarem seus sonhos,
não têm nem o direito de serem enterrados
próximo dos seus antepassados”. Infelizmente
acontece como nos diz dona Marta desabafando: “Nossa
casinha, herança do nosso pai, nosso quintal, o
cemitério aonde estão nossos avós
e etc, tudo está inundado.”
----------É
tempo de recordarmos que NÓS SOMOS ÁGUA.
Nosso corpo, como o planeta terra, é 70% água.
8% da água doce do mundo está em território
brasileiro. A população mundial está
crescendo, enquanto os mananciais de água estão
sendo destruídos e contaminados. Faltará
água potável no próximo milênio
para 40% da humanidade. Vão acontecer guerras pela
água e a água será um bem mais precioso
que pedras raras (ou o petróleo). O Planeta Terra
é um (talvez o)
grande “Empobrecido” hoje. O futuro da terra
e da humanidade está seriamente ameaçado.
Portanto, toda defesa das águas e da Mãe
Terra é uma luta sábia, justa e santa. A
luta por uma Reforma Agrária autêntica é
parte necessária do processo de salvação
da Mãe Terra e dos seus filhos deserdados, os Sem
Terra.
----------Estamos
celebrando o Jubileu da Terra nos 25
anos da CPT (Comissão Pastoral da Terra), dentro
do Grande Jubileu dos 2000 anos do nascimento de Jesus
Cristo. O berrante do Jubileu e os atabaques dos últimos
500 anos de Brasil nos convocam a refazer a História
e a Evangelização renovando a Sociedade
e as Igrejas na vivência de uma Eucaristia de partilha
da Fé, da Terra, do Pão e da Vida.
----------No
Primeiro Testamento com o toque do berrante se anunciava
o jubileu, tempo de: a) Re-estruturação
geral da sociedade; b) Conversão pessoal e social;
c) Perdoar as dívidas internas e e(x)ternas; d)
Resgate ecológico da Comunidade de Vida; e) Realizar
Reforma Agrária autêntica; f) Re-criar a
Vida, etc.
----------Da
Bíblia continua ecoando que Deus criou
a Terra e as águas (Gen 1,9-10) e
viu que tudo era “uma beleza”, muito bom,
um paraíso terrestre (Gen 1, 31). Com o passar
do tempo os profetas tiveram que re-cor-dar que
“a terra pertence a Deus” (Lev
25,23) e que nós pertencemos à Terra. Logo,
ninguém tem o direito de considerar-se dono da
terra. Somos apenas arrendatários da terra. A Terra
é de todos/as como herança, não pode
ser considerada mercadoria, não deve ser vendida.
O Planeta Terra é a única casa onde todos
nós devemos viver como irmãos/ãs,
filhos/as de Deus nosso Pai, terno e misericordioso. A
terra é um bem planetário, não pode
ser privilégio de ninguém, é um bem
social e não privado, como também um patrimônio
da humanidade e não arma do egoísmo particular
de ninguém. A Terra é para produzir, gerar
alimentos, empregos, fazer viver; enfim ela é um
bem de todos para todos. É esse o único
destino possível para a terra. Que continue ressoando
em nossos corações e mentes a sábia
música JUBILEU DA TERRA do cantor Gogó:
“Jubileu da Terra/ é repartir o chão/
é pôr os pés no chão/ é
resgatar a terra/ que é de cada irmão/ porque
a Terra é do Senhor...”
----------Nesta
5ª Romaria da Terra e das Águas “trouxemos
a vida vivida na terra, tão dura parece um pedaço
de pedra; trouxemos na lágrima um resto de água,
também a esperança guardada dentro de nós.”
Mais que restaurar, queremos recriar a nossa Mãe
Terra para que se realize a profecia de Amós 9,15:
“Eu vou plantá-los na sua própria
terra e jamais serão novamente arrancados dessa
terra.” Que da Mãe Terra brote o pão
pelo trabalho humano, que sustenta a dignidade do povo
com cidadania! É hora de resgatar os valores humanos
no humano.
----------No
rastro devastador dos últimos 500 anos do Brasil,
nós, os filhos da Mãe Terra, queremos gritar
com nossos irmãos guaranis: “Queremos
uma Terra Sem Males, e não os males na terra!”
É tempo de ecoarmos o primeiro grito de resistência
dado no sul do Brasil pelos nossos irmãos indígenas,
na voz de Sepé Tiaraju: “Alto-lá!
Esta terra tem dono!” Queremos denunciar
o atual Governo Federal, que submisso ao FMI (Fundo Monetário(“de
morte”) Internacional) e à elite opressora
expulsou nos últimos 5 anos cerca de 4,2 milhões
de pessoas do campo. A estrutura diabólica do latifúndio
não foi minimamente arranhada ainda.
----------Neste
ano de eleições queremos recordar que é
hora de: a) Distinguir claramente candidatos
e partidos ligados à base de sustentação
do atual governo, que estão precipitando o País
ladeira a baixo; b) Formar os Comitês 9840 para
denunciarmos os candidatos que compram votos e fazer cumprir
a Lei 9840; c) Saber que voto não
tem preço, tem conseqüências. Quem vende
o voto vende também a própria vida.
----------De
02 a 07 de setembro, na Semana da Pátria e no Grito
dos Excluídos, acontecerá o Plebiscito da
Dívida E(x)terna. É hora de gritar: “Já
pagamos demais, queremos dignidade e paz!”
Em nome do pagamento da Dívida E(x)terna, o sangue,
criminosamente tirado das veias do nosso corpo, o dinheiro
produzido pelo esforço dos brasileiros, sobretudo
dos trabalhadores, está saindo da Nação
e deixa de ser aplicado em obras e programas sociais que
são direito do povo e obrigação dos
governos. É hora de dizer um basta a esta injustiça
que clama aos céus (cf. Tg 5,4).
----------Com
a esperança de nos re-encontrarmos (e com mais
irmãos/ãs) na 6ª Romaria
da Terra e das Águas em 2001 em Salinas,
no Norte de Minas, diocese de Montes Claros, nos despedimos
pedindo a Bênção da Santíssima
Trindade, a melhor comunidade, Pai que tem coração
de mãe, Filho que nos salva e liberta na sua memória
perigosa e o Espírito Santo que nos dá força
e coragem para a resistência e entusiasmo e liberdade
para sermos verdadeiros/as filhos/as da nossa Mãe
Terra, Pachamama (= dom de Deus).
São
José de Safira, Diocese de Guanhães/MG,
06 de agosto de 2000
Participantes da 5ª Romaria das Águas e da
Terra de Minas Gerais