Carta da VIII ROMARIA ESTADUAL
DAS ÁGUAS E DA TERRA
e 25ª Romaria do Triângulo
Mineiro
Tema: Terra e água para viver e conviver.
Lema: "Na terra da Mãe de Deus os povos do
cerrado clamam por água boa e frutos de vida"
Tupaciguara, Diocese de Uberlândia,
Triângulo Mineiro, dia 20 de julho de 2003
“Vejam! A felicidade
do homem está em comer e beber, desfrutando do
seu próprio trabalho” (Ecl 2,24)
----------1-
Os valores que nos orientam para viver e conviver
----------Para
viver e conviver, todo ser humano tem sua escala de valores.
Nem sempre esses valores coincidem de uma geração
para outra ou de um povo para outro. Nós, cristãos
e cristãs comprometidos com a construção
de uma nova sociedade, sabemos onde encontrar os valores
que nos servem: no Evangelho de Jesus Cristo que é
Boa Notícia para os pobres e, muitas vezes, péssima
notícia para os exploradores dos pobres. Para Jesus,
a vida - das pessoas, da Mãe Terra e do universo
- está ligada a um projeto histórico: construir
o Reino de Deus. O Reino é dom de Deus que, acolhido
em nossas vidas, faz com que participemos de sua construção.
----------Este
é o sonho de Jesus: "Que todos e tudo
tenham vida e vida em abundância" (Jo
10,10). Deus quer que sejamos uma só família
humana (e ecológica), onde todos tenham igual acesso
à comida e à bebida, “à
água boa e aos frutos de vida” e a todos
os bens necessários à manutenção
e conservação desta vida, como simboliza
e anuncia a Mesa Eucarística,
que é sacramento da partilha dos bens essenciais
à vida - comida e bebida. Porém, unidade
com pleno respeito às diferentes identidades, como
acontece na comunhão trinitária entre o
Pai, o Filho e o Espírito Santo.
----------2-
O plano do Criador: a convivência feliz no Paraíso
----------Como
mostra a primeira página do Gênesis, Deus
nos criou para vivermos e convivermos num paraíso,
que começa na Terra. Todo o mundo é morada
divina. Devemos ter uma relação de complementação
com a Criação, da qual dependemos para viver
e ser felizes. “Irmão sol, irmã lua,
irmã água ...”,como nos ensina São
Francisco de Assis. Ora, não existe separação
entre a Criação e os seres humanos. Somos
seres naturais, porém humanos porque dotados de
consciência e inteligência. E espirituais,
porque abertos à comunhão de amor com o
próximo e com Deus. Antes do surgimento do homem
e da mulher, o Universo era belo, porém cego. Um
cego não pode contemplar sua própria beleza.
Quando surgimos, o Universo ganhou, em nós, mente
e olhos para se olhar no espelho. E viu que é belo.
Daí ser chamado de Cosmo, aquilo que torna belo.
----------Hoje,
nos comprometemos, mais uma vez, em refazer o projeto
de Deus na história humana - "um novo
céu e uma nova Terra. (...) Esta é a tenda
de Deus com os homens. Ele vai morar com eles. Eles serão
o Seu povo e ele, o Deus-com-eles, será o seu Deus"
(Apocalipse 21, 1-3). Jesus nos mobiliza na luta a favor
da vida - dos outros, da natureza, do Planeta e do Universo.
A mística evangélica nos convida a contemplar
toda a Criação como obra divina.
----------"Ele
não está longe de cada um de nós.
Pois Nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da raça
do próprio Deus" (At 17, 28).
----------3-
O mundo global e o desemprego
----------O
mundo de hoje transformou-se numa pequena aldeia global.
Neste século 21, nós, os 6,1 bilhões
de habitantes do planeta Terra, estamos tão próximos
uns dos outros que não é mais permitido
a alguém poder estar só. Mas o que vemos
é 1 bilhão e 200 milhões de pessoas
sobrevivendo no mundo em situação de extrema
pobreza. Se incluirmos os que vivem no limite da subsistência,
tendo apenas as necessidades básicas satisfeitas,
o número cresce para 2,8 bilhões. Estes
são simplesmente apelidados de excluídos.
Excluídos são todos aqueles que estão
fora dos setores dinâmicos da economia e sem acesso
às inovações tecnológicas:
pequenos agricultores, assalariados sem-terra, trabalhadores
e trabalhadoras informais, subempregados, jovens sem formação
qualificada e idosos desamparados. E o planeta Terra,
nossa única casa comum, é hoje o grande
empobrecido que clama para ser salvo.
----------Outrora,
valorizava-se o trabalho como fator que trazia ao ser
humano dignidade e prosperidade. Os pobres não
têm como potencializar seus talentos. E entre aqueles
que dispõem de capital há os que mergulham
de tal modo na ciranda financeira, ávidos por expandir
seus negócios, que nisso consomem a saúde,
a vida familiar, a alegria de viver e o dom de criar e
se esquecem dos seus irmãos. Muitos tornam-se fiéis
adoradores do ídolo capital e do mercado.
----------Para
o Evangelho, o trabalho torna digno um ser humano. É
a nossa maneira de completar a Criação divina
e tornar mais humana a sociedade. Jesus trabalhou com
as próprias mãos, seja na carpintaria, seja
na pesca, ou quem sabe na roça “no cabo da
enxada”.
----------O
trabalho, em condições humanas e dignas,
é o que nos dá a alegria e viver e conviver
e nos possibilita uma identidade social. Hoje, pela participação
na grande rede de solidariedade e de luta por justiça
muitas pessoas se realizam e fazem muita gente feliz.
Quem se doa no mutirão de resgate de todos (e tudo)
se torna mais humano e mais feliz.
----------4
- A ganância de ter e o grito da Mãe Terra
----------Todas
essas mudanças mexem com a nossa cabeça,
com os nossos valores, com os nossos hábitos e
costumes. Corremos o risco de abandonar os valores que
queremos, para assumir modos de pensar e de agir que não
nos conduz à felicidade verdadeira.
----------Não
há maior acumulação no Brasil que
a da terra. Temos um território de dimensões
continentais e, no entanto, há muita terra sem
gente e muita gente sem terra. Num país que abriga
15 milhões de trabalhadores sem-terra, vale até
hoje o alerta profético que o papa João
Paulo II disse ao presidente Sarney, em 1986: “A
reforma agrária é condição
indispensável para a democratização
da sociedade brasileira".
----------Só
é nova a sociedade que liberta os oprimidos, ou
seja, aquela na qual "os cegos recuperam a vista,
os paralíticos andam, os leprosos são purificados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é
anunciada aos pobres" (Lc 7, 22-23).
----------5-
Salvar a Mãe Terra, salvar a vida
----------"Quando
a última árvore for derrubada, o último
rio for envenenado e a último peixe for pescado,
então vamos nos dar conta de que não podemos
comer dinheiro" (profecia de um índio
dos EUA) .
----------O
maior problema ambiental hoje não é só
o ar poluído ou os mares sujos e as árvores
cortadas. É a ameaça real de extinção
da espécie humana, por causa da pobreza e da violência
e da destruição do nosso planeta. Salvar
a Mãe Terra, nossa única casa comum, é
libertar as pessoas de todas as situações
de injustiça e opressão. A injustiça
social produz desequilibro ambiental e o desequilíbrio
ambiental gera injustiça social. Bem alertava Chico
Mendes para a economia sustentável e solidária
(isto é, capaz de não prejudicar as futuras
gerações) e a ecologia centrada na vida
digna dos povos da floresta. ----------A
Terra hoje está poluída. E nós sofremos,
pois tudo que fazemos se reflete na Terra, e tudo que
se passa na Mãe Terra se reflete em nós.
----------Como
dizia Gandhi, "a Terra satisfaz as necessidades
de todos, menos a voracidade dos consumistas".
Diante de tanta terra escravizada e tanta vida negada,
torna-se urgente o nosso grito: "Democratizar
a propriedade do solo é criar oportunidades de
vida, repartindo, ao mesmo tempo, renda e poder".
(Brasil: Alternativas e Protagonistas CNBB)
----------6-
Os valores do Evangelho e da nova sociedade
----------Para
o Evangelho, toda vida é sagrada. Jesus se coloca
no lugar dos que têm seus direitos violados, ao
dizer que teve fome, teve sede, que esteve oprimido (cf.
Mt 25,31-46).
----------É
a mística do compromisso e amor à Vida de
todos e de tudo que nos motiva e imprime sentido à
nossa vida individual e ao nosso esforço comunitário
ou coletivo. A mística cristã se nutre nas
fontes da oração, da meditação
da Bíblia, do exemplo de Jesus, mas também
no exemplo dos grandes militantes da utopia como Gandhi,
Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Margarida
Alves, Che Guevara, Zumbi, Chico Mendes, Dorcelina Folador
e tantos outros romeiros e romeiras desta caminhada.
----------A
mística faz com que abracemos os novos valores
- solidariedade, participação, partilha
e fraternidade - que forjam em nós o homem e a
mulher novos. A sociedade se faz nova quando nos fazemos
novos. E ao nos fazermos novos, transformamos a velha
sociedade em nova sociedade. Uma coisa depende e está
ligada a outra. Nossos valores devem estar enraizados
no coração. Para o Evangelho, toda pessoa
vale por si mesma. É sagrada. É templo vivo
e morada de Deus (Jo14,17 e 23).
----------Nenhuma
vida pode ser sacrificada para que se defenda uma propriedade.
Porém, uma propriedade pode ser sacrificada se
disso depender a salvação de vidas humanas.
Por
isso exigimos: TERRA E ÁGUA PARA VIVER E CONVIVER.
E clamamos: "Na terra da Mãe de Deus os povos
do cerrado clamam por água boa e frutos de vida"