CARTA DA 11ª ROMARIA DAS ÁGUAS
E DA TERRA DE MINAS GERAIS
Terra e Água, no campo e na cidade, a vida
em primeiro lugar.
Belo Horizonte, 19 de agosto de 2007.
------------“A
terra geme e seus filhos desfalecem; ... até peixes
do mar estão desaparecendo.” (Os 4,3).
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“Olhei as montanhas: elas tremiam, e todas as
colinas se abalavam.” (Jr 4,24).
------------Em
romaria, somos homens e mulheres do campo e da cidade,
caminhamos na capital – centro das decisões
políticas de Minas Gerais -, com um só desejo,
de proclamar que terra e águas são sagradas.
A vida deve estar em primeiro lugar. Queremos construir
o projeto de Jesus Cristo:“vida em abundância
para todos e tudo”. (Jo 10,10).
------------A
vida se manifesta no chão das Minas Gerais de múltiplas
culturas e de biodiversidades, contrapõe com o
sistema neoliberal e nos atribui a missão de promover
a dignidade humana e a ecologia. O lucro, em detrimento
da pessoa humana, submete os filhos e filhas de Deus a
situações de exploração e
marginalização. Os pobres e a natureza,
em todos os lugares, são excluídos dos projetos
de desenvolvimento implementados pelos governantes que
agem a serviço da acumulação do capital
das grandes empresas e corporações transnacionais.
A vida germinal, em todo canto, nos impulsiona à
ruptura com as estruturas capitalistas. A mãe terra,
seus filhos/as e a irmã água clamam pela
construção de uma sociedade sustentável.
------------Vidas
expulsas de seus territórios, camponeses e comunidades
tradicionais – povos indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, pescadores, vazanteiros. A Reforma Agrária
se faz necessária como caminho rumo à justiça
social e à preservação ambiental.
A concentração de terras, muitas dessas
terras públicas e griladas, apropriadas pelos latifundiários
e pelo agronegócio, de forma violenta e criminosa,
provocaram a destruição da natureza, dádiva
divina. Também o êxodo de milhões
de famílias camponesas para as periferias das cidades.
Encontramos na região metropolitana de Belo Horizonte
mais de 4,9 milhões de habitantes, onde 13,8% desta
população economicamente ativa estão
desempregados. Aqui o déficit habitacional é
de mais de 50 mil moradias para as famílias de
baixa renda, e contraditoriamente, na região existem
mais de 75 mil imóveis desocupados. Os recursos
públicos, ao invés de aplicados para resolver
problemas sociais e de infra-estrutura das comunidades
em risco, são usados para viabilizar a circulação
da riqueza. Entre essas obras, caminhamos na Linha Verde,
avenida que, apesar do nome, não foi capaz de conviver
com os pobres e devolver a vida ao ribeirão Arrudas.
Águas sucumbidas correm ao desalento junto aos
mais de 200 rios e córregos sepultados, ainda vivos
sob as estruturas de concreto. Os pobres são expulsos
do centro, aglomeram-se nas periferias em condições
degradantes, sem espaço na “cidade”
ou no campo, sem acesso às políticas públicas.
Os moradores de rua lutam aguerridos pelos seus direitos.
O lixo reciclado pelos catadores de papelão despertou
a cobiça dos empresários que querem ceifar
a autonomia daqueles que do lixo recriam a vida.
------------“O
Deus da vida enxugará toda lágrima dos nossos
olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto,
nem grito, nem dor. Sim! As coisas antigas desapareceram!”
(Ap 21,4). As comunidades se recriam, onde são
estabelecidas novas relações entre as pessoas
e a natureza emergem organizações populares
nos aglomerados. Vozes novas lutam por reforma agrária
também no ar, com democratização
da comunicação.
------------A
água, fonte de vida, está ameaçada
pelas mineradoras, barragens e monoculturas. Entre os
romeiros ouvimos o clamor dos atingidos pelas atividades
da MBR, da VOTORANTIN, Rio Pomba, MMX, CVRD, CEMIG, ALCAN
e tantas outras, que violam os direitos ambientais comprometendo
a quantidade e a qualidade das águas. Em época
de crise mundial de água, esses empreendimentos
causam danos até aos mananciais de água
de abastecimento público. A vida que jorra nas
bacias hidrográficas agoniza nas águas poluídas,
assoreadas e interrompidas por barragens. Anunciamos que
a luz e a força de Deus brilham em nós e
pedem a construção de uma sociedade sustentável.
------------O
Rio São Francisco e toda a bacia sanfranciscana
clamam por revitalização com terra, povo
e rio vivo. Não queremos a transposição
das águas do São Francisco, projeto insano,
faraônico, mentiroso, sofisticação
da indústria da seca. Os nordestinos precisam é
da democratização da água lá
existente, o que passa por um Projeto de Convivência
com o semi-árido, pela construção
de 1 milhão de cisternas, e mais 140 tipos de tecnologias
alternativas e 530 obras prescritas pela ANA – Agência
Nacional de Águas - no Atlas Nordeste. Transpor
o São Francisco é tratar a água como
mercadoria, é priorizar o hidronegócio em
detrimento da vida Á água é bem ambiental
– bem comum da humanidade e da biodiversidade. A
vida quer ressurgir contra as monoculturas do eucalipto,
da cana, do capim, da soja que geram conflitos e deixam
atrás de si uma grande sojeira social e ambiental.
------------Denunciamos
o modelo energético causador de irreparáveis
conflitos sociais e ambientais, que transfere nossas riquezas
às grandes empresas. Pagamos valor abusivo por
energia elétrica, até 6 vezes mais o valor
cobrado das empresas. A vida incomodada se mobiliza. Os
movimentos sociais apresentaram à Assembléia
Legislativa Projeto de Lei de Iniciativa Popular para
a isenção de 100 quilowatts de energia às
famílias de baixa renda.
------------As
lutas populares ecoam vida, entre essas somamos esforços
na campanha que repudia o programa de desestatização
das empresas nacionais com a apropriação
do patrimônio público pelo capital privado.
Situações escandalosas e ilegais exigem
a anulação do leilão que vendeu a
Companhia Vale do Rio Doce por preço insignificante.
“A Vale é nossa!”, clamam os romeiros.
------------Caminhamos
por uma nova Jerusalém, juntos na luta por uma
cidade mais justa e mais humana, e que todos, no campo
e na cidade, tenham acesso às políticas
públicas de saúde, moradia, educação,
lazer, assistência social e soberania alimentar.
Eis a glória de Deus caminhando conosco! Sentimos
a luz e a força de Deus nos acompanhando!
------------Fiel
ao projeto de Jesus Cristo libertador, em irmandade com
os mártires da caminhada de nossa América,
queremos nessa 11ª Romaria, renovar o nosso compromisso
de salvaguardar a vida da terra e das águas. Pois,
“enquanto a terra e água não forem
de todos - é um pecado da humanidade que clama
a Deus”. E assim veremos, então,
um novo céu e uma nova terra. Amém!
Aleluia! Axé! Auerê! Uai!.
------------Romeiros
e Romeiras da 11ª Romaria das águas e da terra
de Minas Gerais.