Ainda o caso da igreja do Carmo
Eugênio
Magno de oliveira (1)
(Publicado
no Jornal O Tempo, Opinião, 26/06/2010, p. 17.
- E-mail: opiniao@otempo.com.br)
-----------Em
todos os tempos, os poderosos insistem em perseguir e
querer calar as vozes proféticas. O recente episódio
envolvendo os freis carmelitas Cláudio Van Balen
e Gilvander Luís Moreira, da igreja Nossa Senhora
do Carmo, no bairro Sion, em Belo Horizonte, é
mais um episódio dessa natureza, envolvendo dois
profetas contemporâneos, próximos de nós,
no tempo e no espaço.
-----------É
justamente devido a essa proximidade que o caso carece,
no mínimo, de alguns esclarecimentos. Frei Gilvander,
e não frei Cláudio, como vem sendo divulgado,
é que era o pároco da Paróquia de
Nossa Senhora do Carmo - desde 1º de fevereiro de
2008. Estava em curso uma ação no sentido
de afastar da paróquia os dois sacerdotes. Mas
a comunidade paroquial se mobilizou e frei Cláudio
continuará no Carmo.
-----------Entretanto,
a transferência de frei Gilvander foi mantida. Ele
já integra a Comunidade Carmelitana Edith Stein,
no bairro Planalto, em Belo Horizonte, onde ficará
mais livre para continuar cumprindo sua missão.
-----------Gilvander,
que, além de lecionar no curso de teologia do Instituto
Santo Tomás de Aquino (ISTA), assessora a Comissão
Pastoral da Terra, o Centro Ecumênico de Estudos
Bíblicos e a Via Campesina, estava causando incômodo
a um certo grupo de paroquianos - próximos a frei
Cláudio - que não consegue compreender a
sua opção pastoral pelos pobres enquanto
sujeitos de suas lutas. Em consequência, desencadeou-se
um conflito interno na paróquia e o telefone sem
fio correu solto.
-----------Pessoas
deixaram de contribuir com o dízimo, alegando que
"frei Cláudio não é mais o pároco...",
"... frei Gilvander vai levar parte do dinheiro para
o MST", "não concordo com frei Gilvander
defender esses movimentos de sem-terra e essas invasões
de terra em Belo Horizonte", "frei Gilvander
trouxe sem-terra para vender verduras na porta da igreja
do Carmo..." etc. O fato é que o grupo de
paroquianos que não concordava com as posições
de frei Gilvander, em suas manifestações
de defesa de frei Cláudio, aproveitou a crise para
ignorar o primeiro e contribuir com o processo de sua
transferência.
-----------Entretanto,
paroquianos engajados e militantes dos movimentos e pastorais
sociais, apoiadores de frei Gilvander, embora reconheçam
que as manifestações em defesa de frei Cláudio
tenham sido uma bela manifestação de solidariedade,
estão perplexos com o maquiavelismo com que os
insatisfeitos trataram o sacerdote nesse episódio.
A afirmação corrente é a seguinte:
a Igreja do Carmo, que foi uma trincheira de luta contra
a ditadura militar, na defesa dos direitos humanos, deve
também ser uma trincheira na luta contra a ditadura
econômica, o que passa pelo apoio aos movimentos
populares.
-----------E,
se ela não for capaz de abraçar as lutas
populares, não estará sendo fiel à
sua história de evangelização libertadora.
Não basta a ação social, é
preciso a opção pelos pobres que os empodera
e os faz sujeitos das lutas libertárias.
(1)
Comunicólogo;
especialista em fé e política e educação;
e-mail: eumagno@hotmail.com