Beatriz e Esthefany,
duas crianças da Ocupação Dandara,
mártires da luta contra a injustiça social.
NOTA À
SOCIEDADE
----------Na
madrugada deste domingo (14/03/2010), duas crianças,
Beatriz (8 anos) e Esthefany (6 anos), morreram carbonizadas
pela queima de um barraco de madeira (2 X 3 metros) na
Ocupação Dandara, bairro Céu Azul,
Região Nova Pampulha, Belo Horizonte, MG. Conforme
laudo pericial no local do Corpo de Bombeiros, o incêndio
foi acidental.
----------Antes
de tudo, é manifestamos a imensa tristeza que recaiu
sobre toda a comunidade pelo ocorrido. Solidarizamo-nos
com a dor dos familiares e amigos. Sofrimento esse aumentado
pela forma como tem sido divulgada a notícia pelos
grandes meios de comunicação de Minas Gerais.
A imprensa mineira, de maneira irresponsável e
repugnante, tem publicado notícias com o intuito
de condenar Vera Lúcia, a mãe das crianças,
e sustentando que a mesma estava bebendo no bar enquanto
as crianças estavam sozinhas em casa.
----------Diante
disso, damos conhecimento à população
de detalhes do ocorrido. Ontem, por volta das 23:00 horas,
Vera Lúcia estava em seu barraco com Beatriz e
Esthefany, quando uma terceira criança, filho do
seu cunhado que mora no lote vizinho ao seu, começou
a chorar sentido a falta do pai, Alexandre. Vera Lúcia,
então, após ter deixado Beatriz e Esthefany
dormindo no barracão, acompanhou o filho de Alexandre
até um bar que fica próximo para encontrá-lo.
Vera Lúcia, assim que chegou ao bar para falar
com seu cunhado Alexandre, avistou o incêndio na
Ocupação Dandara e retornou às pressas
à comunidade. Quando Vera chegou ao local, não
havia mais nada a ser feito. Vem-nos à mente e
ao coração o lamento triste de Marta e Maria,
irmãs de Lázaro (Evangelho de João
11,32): “Senhor, se tivesses chegado antes,
nosso irmão não teria morrido.”
----------A
partir do exposto, pergunta-se: Vera poderia ter deixado
as crianças dormindo sozinhas? Não, mas
muitas mães e pais não têm outra alternativa.
O pai estava trabalhando no momento. Quantos pais e mães,
sem ter acesso a creche, têm que deixar seus filhos
sozinhos no barraco onde sobrevivem? Agora, cabe a reflexão:
Vera, uma mãe que, como tantas outras mães
e pais que, cotidianamente, agem espremidas por tantas
opressões, tendo infelizmente acarretado um grave
acidente que lhe custou a vida de duas lindas filhas,
merece ser criminalizada pelos veículos de comunicação
e pela Justiça Penal? E pior, Vera tem sido criminalizada
com a distorção da realidade, inclusive
relacionando sua conduta ao uso de bebida alcoólica
(o que não ocorreu), e com a omissão de
informações imprescindíveis à
compreensão dos fatos.
----------Lamentamos
profundamente a postura dos grandes Meios de comunicação
do Estado de Minas Gerais que lançam mão
do sensacionalismo em prejuízo da verdade e, pior,
em prejuízo da vida moral e social da companheira
Vera Lúcia. Tais veículos não divulgam,
por exemplo, que Vera Lúcia e seu marido, como
outras centenas de famílias de Dandara, ainda não
construíram sua casa de alvenaria temendo a ação
ilegal da Polícia Militar de Minas Gerais que,
arbitrariamente, de forma ilegal, impede a entrada de
material de construção na comunidade que
detém a posse legítima da área dada
pela Corte Superior do Tribunal de Justiça. Não
fosse essa ação ilegal da PM/MG, amplamente
denunciada pela Comissão Jurídica de apóio
à Ocupação Dandara nos órgãos
e instituições competentes, essa tragédia
provavelmente não teria ocorrido. A ação/omissão
do Estado causa um verdadeiro martírio e agrava
o doloroso compasso de espera de quase 900 famílias
sem-casa e sem-terra de Dandara.
----------O
prolongamento da situação de insegurança
da posse, as arbitrariedades da Polícia, a intransigência
da Prefeitura em negociar, enfim, as injustiças
que pesam sobre as famílias de Dandara são
as verdadeiras responsáveis pela tragédia
que transformou essas duas crianças em mártires.
É preciso compreender todo o conflito social que
envolve a ocupação Dandara antes de emitir
juízos precipitados sobre fatos como esse. Urge
buscar as causas mais profundas.
----------Assim,
solicitamos encarecidamente aos jornais e emissoras de
rádio e televisão que ainda guardam algum
compromisso com a verdade que corrijam as informações
divulgadas ainda neste domingo, de modo a diminuir a forte
dor que ora recai sobre a família das vítimas
e demonstrando quem são os verdadeiros responsáveis
pelo ocorrido. Tal postura, ainda, evitaria futuras ações
judiciais com objetivo de assegurar direito de resposta
e indenização por danos morais.
----------No
mais, reafirmamos nossa profunda solidariedade com a família,
especialmente com Vera Lúcia, mãe de Beatriz
e Esthefany, e com o pai Reginaldo. Nesse sentido, advogados
do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação
de Liberdade e da Frente Antiprisional das Brigadas Populares
estão empenhados na pronta soltura de Vera Lúcia
que até o momento se encontra encarcerada no CERESP
Centro-Sul.
----------Em
cada um de nós, fica do triste evento o grande
desafio para que nos empenhemos cada vez mais na busca
de uma solução justa para Dandara e suas
famílias. Hoje, a terra de Dandara foi banhada
pelo sangue de duas crianças. Que esse sangue possa
frutificar na construção do diálogo
e no fim da injustiça social que ainda assola a
comunidade de Dandara.
----------Beatriz
e Esthefany, Dandara jamais esquecerá de vocês!
Vocês são mártires da luta contra
a injustiça social!
Belo Horizonte,
14 de março de 2010.
Assinam:
BRIGADAS POPULARES e Coordenação
da Ocupação Dandara
Para mais
informações:
Com Joviano, cel.: 031 8815 4120.
Ou com Priscila: 031 9858 4683.
Ou com Irmã Rosário, cel.: 031 9241 9092.
Ou com Frei Gilvander Moreira, tel.: 031 3221 3055.