Mulheres
do início do século XXI
Delze
dos Santos Laureano (1)
-----------“Eu
sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida
removendo pedras e plantando flores.” Cora
Coralina
-----------A
primeira idéia que nos vem à mente quando
pensamos em mulheres neste início do século
XXI é a da mulher urbana, trabalhadora, realizada
e feliz porque agora se viu livre do domínio machista
que a condenava à inferioridade nas relações
de gênero mantida por tantos séculos, inclusive
a obrigação de gerar filhos. Todavia, não
podemos ser ingênuas acreditando existir um único
tipo “ideal” de mulher, como se ele representasse
de fato todas as mulheres de hoje, de idades variadas,
com os diversos problemas que enfrentam em suas comunidades
e territórios, e com todos os desafios que as fazem
lutar por mais dignidade, seja nas relações
afetivas, na família, no trabalho ou no meio político
e social em que vivem.
-----------Mesmo
considerando que são algumas mulheres urbanas,
esses seres que se fizeram autônomas por terem renda
própria e por se desvencilharem dos tabus e das
muitas armadilhas dos preconceitos morais, as que galgaram
altos cargos públicos e privados, assumindo as
mesmas profissões antes reservadas exclusivamente
aos homens, e que por isso são as que melhor representam,
ideologicamente, a emancipação feminina,
não podemos nos esquecer de outras tantas mulheres,
as que ainda hoje vivem sob o jugo dos pais, dos maridos(2)
, ou dos patrões nessa sociedade com resquícios
patriarcais e da exploração capitalista
desmedida, modo de vida que transformou tudo em mercadoria.
Penso nas mulheres que, mesmo tendo conquistado a emancipação
frente ao machismo, estão sobrecarregadas com o
ônus da própria emancipação
conquistada, como a dupla ou até a trilha jornada
de trabalho, com o sofrimento em face das doenças
antes quase exclusivas do mundo masculino, com o fardo
do provimento da prole, pelo simples fato de poderem agora
romper com as relações afetivas falidas.
-----------Foi
a partir dos anos 60 do século passado que o movimento
de libertação das mulheres desencadeou-se
como parte integrante de um movimento cultural da juventude.
No final do século XX, um número expressivo
de mulheres entrou no mercado de trabalho, chegando mesmo
a ser em número maior do que os homens em determinados
setores, como são exemplos as universidades. Em
algumas empresas, os quadros femininos passaram a atingir
o topo da carreira. A economia capitalista, baseada no
estímulo e na criação incessante
de novas necessidades, foi a que mais contribuiu para
o crescimento da participação das mulheres
no mercado de trabalho, de modo a que viessem a ser uma
fonte suplementar de rendimentos, necessária para
a realização dos sonhos da sociedade de
consumo. Todavia, olhando bem, antes disso, as mulheres
sempre trabalharam. Nas sociedades primitivas executavam
as tarefas agrícolas e domésticas. Às
mulheres devemos a criação da agricultura,
no neolítico, enquanto os homens incumbiam-se da
caça e da pesca. A partir da Revolução
Industrial trabalharam nas fábricas e nas situações
extremas, como no período das duas grandes guerras,
trabalharam fora do lar. É de se notar, todavia,
que as mulheres em todos esses momentos não deixaram
de assumir a difícil tarefa das obrigações
domésticas. Para justificar a dupla ou até
a tripla jornada, essa “realidade” foi mascarada
por uma cultura que valoriza a liberdade e o maior bem-estar
individual e que vê no trabalho doméstico
uma forma de submissão da mulher ao homem. A ideologia
hegemônica forjou o reconhecimento social do trabalho
feminino atrelado a ideias como o direito a uma “vida
autônoma” e à independência econômica.
Os próprios homens tiveram de reconhecer a legitimidade
do trabalho assalariado feminino como instrumento de autonomia
e realização pessoal, a despeito de muitas
vezes ser cristalino para todos que nem mesmo sob o aspecto
econômico é compensatório para as
famílias, e principalmente para a sociedade de
modo geral, o sacrifício da venda de toda a força
de trabalho de cada família no mercado. Quando
ambos os cônjuges estão fora do lar, e por
muitas horas de trabalho nas empresas, há irremediavelmente
uma perda na qualidade de vida dos pais e dos filhos,
que acabam sendo expostos à vulnerabilidade de
uma sociedade que não tem mais tempo para os laços
comunitários, para os momentos de mística,
de intimidade familiar e de luta social. Os maiores problemas,
normalmente, tornam-se mais visíveis nos territórios
de baixa renda, em vista de não disporem as famílias
de creches, de escolas e de serviços necessários
para compensar minimamente a falta da atenção
materna e paterna no lar. Deparamo-nos diariamente com
notícias de crianças e adolescentes entregues
ao narcotráfico, de adolescentes grávidas
e sem a mínima condição de ampararem
os filhos gerados, perpetuando, deste modo, o círculo
vicioso da pobreza e da exclusão, elas mesmas,
essas mulheres, desde tenra idade, desamparadas pela sociedade.
-----------E
por que muitas mulheres, mesmo neste século XXI
ainda estão longe das conquistas da emancipação
feminina? Penso que isso ocorre em vista da hegemonia
capitalista. Vivemos em uma sociedade que tem como fundamento
a competição em todos os níveis.
Assim, a primeira preocupação não
é um lugar para cada um na sociedade. O discurso
hegemônico faz acreditar que todos podem se dar
bem, desde que lutem isoladamente por isso. Cada um tenta
de todas as formas conquistar um lugar melhor, mas de
modo a se tornar um ser que consome mais. Todavia quem
embarca no consumismo se consome aos poucos. Na busca
de um sonho inatingível as pessoas empenham suas
forças sem ter muita consciência de que,
na prática, estão contribuindo é
para a manutenção de um sistema opressor,
que absolutiza o lucro e que desconsidera as mazelas sociais
e ambientais que provoca. Deste modo, o nosso agir em
sociedade, mesmo aparentemente emancipado, tem contribuído
para o aumento das intervenções irresponsáveis
no meio ambiente e para a destruição da
cultura e dos bens naturais das comunidades tradicionais,
nas quais ainda existem laços de fraternidade e
de cultura camponesa. A cada minuto deixamos os nossos
rastros na poluição do ambiente provocada
pelos nossos automóveis, pelo consumo excessivo
de mercadorias cada vez mais sofisticadas que exigem o
uso crescente de energia, de água, de produtos
de limpeza e de mais e mais embalagens. Exploramos trabalho
e biodiversidade quando excedemos no uso de cosméticos,
de produtos de higiene pessoal, de artigos de luxo, ou
com tanta parafernália para manter a aparência
e para nos manter em dia com as inovações
tecnológicas. Tudo o que resulta da manipulação
das necessidades humanas pelos meios de comunicação.
Vítimas deste modo de vida ocidental, construído
sob a lógica de um poder dominado por homens e
do qual participam inexoravelmente as mulheres urbanas
modernas e as suas porta-vozes, as mulheres que na televisão
e na mídia em geral são usadas para vender
tudo, desde os cosméticos e bebidas até
os automóveis e os imóveis de luxo. As mulheres
subservientes do consumismo e as que vendem a sua imagem
- escolhidas entre “as mais bonitas” - contribuem
para lançar no mundo da exclusão, este já
esquecido pelo capitalismo, outras mulheres que ainda
têm muito a conquistar. São as meninas, grávidas
ainda na adolescência, as mulheres marginalizadas
que não encontrando outra forma de renda não
podem realizar tarefa senão a venda do seu próprio
corpo de uma outra maneira, as mulheres operárias
que além da tripla jornada são as responsáveis
pelo provimento do lar, mesmo condenadas aos salários
mais baixos do que os dos homens.
-----------Não
quero com isso passar uma visão pessimista do ser
feminino deste início de século XXI. Apesar
de não terem as mulheres conseguido efetivamente
se emancipar neste sistema mundo, mantido nas e pelas
relações de competição e do
individualismo, são elas, emancipadas economicamente
ou não, as protagonistas de uma nova sociedade.
No mundo inteiro, nos chamados movimentos antissistêmicos
são as mulheres as que constroem na luta os caminhos
contra toda forma de opressão. Temos visto isso
nas Comunidades Eclesiais de Base, no Movimento dos trabalhadores
Rurais sem Terra – MST -, no Movimento dos Atingidos
por Barragens – MAB -, na Via Campesina e em tantos
movimentos populares sociais do Brasil e da América
Latina.
-----------No
Brasil, nos núcleos urbanos pobres são as
mulheres as que tomaram a decisão de construir
a casa própria através do mutirão(3)
, como consequência da falta de políticas
públicas adequadas e sob pena de verem as famílias
vulnerabilizadas ainda mais pela falta de moradia e após
se verem mais empobrecidas com o pagamento do aluguel
ao longo do tempo. Para essas mulheres faço reverência,
reconhecendo que sem elas correríamos o risco de
perder a esperança de vida melhor para todas as
nossas crianças. São as mulheres camponesas
as que descobriram que não basta a conquista da
terra, que é preciso conquistar a igualdade de
direitos também nas conquistas, inclusive o machismo
ainda existente na militância. São elas que
assumiram a liderança da luta pela reforma agrária
em muitos casos(4)
e nas denúncias da apropriação capitalista
dos bens naturais no campo, como foram exemplo as mil
mulheres que no Rio Grande do Sul destruíram diversas
mudas de eucalipto de uma empresa transnacional que impede
o fortalecimento da agricultura familiar para a produção
de alimentos e para a geração de renda para
os pequenos agricultores. Lembro-me também daquela
mulher indígena que teve a ousadia de num ato extremo
apontar um facão para o engenheiro da Eletrobrás
que usava diversas mentiras para justificar numa audiência
pública a construção ilegal da hidrelétrica
de Belo Monte no Rio Xingu.
-----------Por
tudo isso, parafraseando o grande poeta Drumond, digo
que olho as minhas companheiras mulheres neste início
de século XXI e vejo que estão muitas taciturnas,
mas nutrem grandes esperanças. Entre todas, considero
a enorme realidade. Porém, também como Drumond,
não serei a cantora de uma mulher, de uma história.
Proponho na diversidade a construção de
uma sociedade em que vivam mulheres, de todas as idades,
de todos os lugares, de todas as culturas, fazendo um
outro mundo possível, onde o poder seja somente
o do cuidado, na e da perspectiva feminina. Não
nos afastemos muito, vamos de mãos dadas em mais
um 8 de março, o de 2010!
(1)
Delze dos Santos Laureano é advogada e professora
universitária, mestre em Direito Constitucional
pela Faculdade de Direito da UFMG, doutoranda em Direito
Internacional em Direitos Humanos pela PUC-MINAS, Integrante
da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares;
e-mail: delzesantos@hotmail.com
(2) Para ilustrar
essa afirmação basta ver o grande número
de situações de violência doméstica
amparadas pela Lei Maria da Penha
(3)
Em Belo Horizonte são exemplos as Comunidades Camilo
Torres e Dandara, com mais de 1.000 famílias de
sem-teto e sem-terra” que estão conquistando
na luta e na garra moradia popular e cidadania. Nessas
duas ocupações as lideranças femininas
são fortes e decisivas.
Temos como exemplo o Assentamento Pastorinhas do MST em
Brumadinho, MG, liderado por mulheres camponesas que além
da conquista da terra tem contribuído para uma
educação em agroecologia em toda a região
metropolitana de Belo Horizonte, especialmente para estudantes
do ensino médio e superior. Cf. www.pastorinhas.blogspot.com