COMISSÃO PASTORAL DA TERRA
– MG 
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“JUNTOS COM OS POVOS DA TERRA E DAS ÁGUAS
NA DEFESA DA VIDA”.
Tensão no latifúndio da ex-Usina
Ariadnópolis em Campo do Meio, MG. Risco de massacre
de Sem Terra no Sul de Minas
NOTA DA CPT – Comissão Pastoral
da Terra – à Imprensa e à Sociedade.
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-----------Caso
o Presidente Lula não assine o quanto antes o Decreto
de Desapropriação da Fazenda Ariadnópolis,
no município de Campo do Meio, no Sul de Minas,
está na iminência de ocorrer mais uma grande
injustiça contra centenas trabalhadores rurais
sem-terra ou até mesmo uma tragédia anunciada.
Um conflito agrário que se arrasta há mais
de 10 anos, com risco de radicalização,
se acirra em Campo do Meio, município às
margens do lago de Furnas. De um lado, uma ex-usina de
açúcar falida com mais de seis mil
hectares de terras ociosas desde 1983. De outro,
280 famílias de trabalhadores rurais Sem Terra,
ligados ao MST, que instalaram nove acampamentos nas terras
da ex-usina Ariadnópolis a partir de 1998. Há
também outros dois acampamentos de sem-terra ligados
à FETAEMG e mais um outro Acampamento Bandeira
Branca, mais 100 famílias. As áreas foram
ocupadas em vista de o latifúndio, desde a falência
da empresa, não estar cumprindo a sua função
social.
-----------Existe
ainda o impasse jurídico em que a União
e o Estado de Minas reivindicam a área em pagamento
de dívidas fiscais da usina no valor de R$ 273
milhões, dívida parcelada em 180 prestações.
Tem de ser somada ainda as dívidas trabalhistas
que podem chegar a R$ 5 milhões. (Valores em 2005).
-----------Em
09 de novembro de 2005, foi realizada na Assembléia
Legislativa de Minas Gerais – ALMG - uma Audiência
Pública na Comissão de Política Agropecuária
e Agroindustrial, na qual já ficou constatado o
conflito e o risco de massacre diante da falta de decisão
política do Governo Lula de desapropriar a Fazenda
Ariadnópolis por interesse social. Somente essa
medida pode superar de forma positiva o conflito instalado
na região há muitos anos. Naquela data a
advogada Maria Ilka Fernandes Siqueira já alertava
as autoridades que “o direito de propriedade
deixa de existir quando a terra não cumpre sua
função social. Ela deve ser entregue aos
trabalhadores para a produção de alimentos".
-----------Para
compreender melhor a questão:
-----------Em
1975 a empresa Usina Ariadnópolis captou recursos
astronômicos em agências financeiras com lastro
em ativos supervalorizados. Há fortes indícios
de que os antigos donos eram políticos influentes
em Minas Gerais. Todavia, a reivindicação
da propriedade ocorreu por meio dos chamados “testas
de ferro” que exploram a massa falida, por meio
do arrendamento das terras e disseminam ameaças
freqüentes aos trabalhadores rurais que ocuparam
o latifúndio que não cumpria sua função
social.
-----------Desde
1997 o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra - organiza centenas de famílias Sem Terra
para reivindicar a reforma agrária nas terras da
ex-Usina Ariadnópolis. Os acampados já foram
vítimas de cinco reintegrações de
posse, mas, mesmo diante da truculência de gerentes
e jagunços, não aceitaram arrendar as terras.
Estão produzindo alimentos, produzindo a vida através
de práticas agroecológicas, educação
do campo e cultivando a solidariedade entre a família
Sem Terra e com a sociedade da região.
De vez em quando surgem boatos de reativação
da usina. Todavia, mesmo quando existia a monocultura
de cana-de-açúcar na área, essa atividade
somente gerou empobrecimento do povo e devastação
ambiental.
-----------Por
tudo isso, a CPT, os representantes do Ministério
Público que atuam na Vara de Conflitos Agrários
e todos os segmentos sociais que lutam pela democratização
da posse da terra entendem que a melhor solução
para a Fazenda Ariadnópolis é, sem dúvida,
o assentamento imediato das famílias Sem Terra,
que já cultivam a área há mais de
10 anos e que estão gerando mais de 1000 empregos
diretos, produzindo alimentos para toda a região
e recuperando o meio ambiente, devastado pelo plantio
de cana-de-açúcar.
-----------A
ordem expedida pelo Juiz da Comarca de Campos Gerais,
cumprindo a determinação precatória
do Juiz da Vara Agrária, exige a saída dos
acampados do Acampamento Tiradentes até o dia 17
de maio às 24h. Se não houver a saída
amigável, no dia 18, a retirada será pela
força policial, o que poderá resultar em
um massacre, pois as centenas de famílias Sem Terra
não têm para onde ir e estão dispostos
a resistir a uma 6ª reintegração de
posse. Está claro na precatória do Juiz
da Vara Agrária que a reintegração
de posse versa somente sobre o Acampamento Tiradentes
e não sobre os outros dez acampamentos. Mesmo sendo
assim, a polícia e jagunços disfarçados
de segurança particulares espalham a ameaça
que todos os onze acampamentos (380 famílias Sem
Terra) serão despejados.
-----------A
viabilidade da reforma agrária na Fazenda é
incontestável. A vizinha Fazenda Jatobá
foi desapropriada e recebeu 40 famílias de Sem
Terra que, hoje, além do direito de acesso à
terra e à dignidade, produzem 1600 sacas de café
por ano, 1200 litros de leite por dia, dão proteção
às matas e nascentes de água e geram mais
180 empregos diretos.
-----------A
ex-usina Ariadnópolis deve mais de 180 milhões
de reais ao Governo Federal, que mesmo perdoando parte
da dívida em um processo de renegociação,
poderá reduzir drasticamente o custo da implantação
do assentamento de reforma agrária. As terras estão
avaliadas em 25 milhões e a empresa já sinalizou
que não tem como pagar as dívidas fiscais
e trabalhistas.
-----------Exigimos
que o Presidente Lula assine sem mais tardar o necessário
Decreto de Desapropriação por interesse
social da Fazenda Ariadnópolis, nos termos da Lei
4132/62, em Campo do Meio, Sul de Minas Gerais. (Processo
número 54170005006/0644). Isso é o que suspenderá
definitivamente mais uma reintegração de
posse e a expulsão de centenas de famílias
de Sem Terra.
-----------A
situação do conflito na ex-Usina Ariadnópolis
se agravou muito depois que o poder Judiciário
concedeu mais uma liminar de reintegração
de posse. Os “testas de ferro” dos pretensos
possuidores (arrendatários) têm jagunços
(eufemisticamente chamados de seguranças particulares)
contratados, que vêm aterrorizando as famílias,
ao ponto de terem posto fogo em barracos e destruído
plantações.
-----------Reafirme,
precisamos de todo o apoio. A Comissão Pastoral
da Terra alerta a sociedade e as autoridades que, caso
o Presidente Lula não assine o Decreto de Desapropriação
da Fazenda Ariadnópolis por interesse social, estamos
na iminência de mais um massacre de trabalhadores
em terras mineiras.
-----------Em
tempo, Presidente Lula, até quando os Sem Terra
e a sociedade terão que esperar pela desapropriação
da Fazenda Nova Alegria, em Felizburgo, Minas Gerais,
por interesse social para reforma agrária?
-----------Lá
em Felizburgo, no Acampamento Terra Prometida, em 20/11/2004,
o fazendeiro Adriano Chafic e cerca de 15 jagunços
assassinaram cinco Sem Terra, massacre que continua impune.
Basta de tripudiar sobre os Sem Terra, enquanto premia
o agronegócio.
Belo Horizonte,
15 de maio de 2009.
Comissão Pastoral da Terra – Minas Gerais
– www.cptmg.org.br