A
Bíblia na vida, hoje.
A partir do Assentamento Pastorinhas e da Ocupação
Dandara
Delze
dos Santos Laureano (1)
1)
Para início de conversa
----------Nada
sei da Bíblia além do que aprendi nas interpretações
em celebrações eucarísticas na Igreja
do Carmo, em Belo Horizonte, ou nas leituras meditativas
que faço sozinha, ou em pequenos grupos nos momentos
de oração. O que me leva a uma busca incansável
da compreensão do sentido dos textos bíblicos
é a paixão pela interpretação
mesma e a mania de filosofar, talvez a melhor herança
que recebi do meu pai, um homem do campo com nome de profeta,
Joel. É certo que mesmo sabendo, conforme disse
Manoel de Barros, que “compreendo sempre o que faço,
depois que já fiz”, acompanha-me o desejo
de buscar algo para além da experiência concreta
e imediata dos fatos. Cultivo em mim uma sede de transcendência,
a certeza da presença de Deus/amor na nossa vida,
o que nos torna capazes de sermos mais do que a aparente
fragilidade humana. E isso, percebo, se dá exatamente
quando as pessoas agem coletivamente de forma organizada
a partir de uma fé libertadora. Essa a minha experiência
com a leitura da Bíblia.
----------Como
advogada de movimentos sociais por diversas vezes tive
a sensação de estar vivendo a experiência
já vivida e contada nos textos bíblicos.
Esta percepção me ajuda a descobrir novos
modos para a conquista de direitos sociais e a esperança
de dias melhores para a nossa sociedade com os marginalizados
na nossa sociedade e a partir deles.
2)
Um dia o sol não se pôs no Município
de Brumadinho
----------A
primeira experiência que tive do texto vivo da Bíblia
foi no Assentamento Pastorinhas, em Brumadinho, na região
metropolitana de Belo Horizonte, MG. A área está
hoje destinada ao assentamento de trabalhadoras/res da
reforma agrária pelo INCRA. Conhecendo a história
daquelas famílias e a sua luta obstinada por um
pedaço de terra descobri o sentido de certa passagem
do livro de Josué (Capítulo 10,12-14)(2)
. Após várias tentativas infrutíferas
de conseguir, via burocrática, uma área
para o assentamento, mais de 100 famílias de trabalhadores
rurais sem-terra resolveram ocupar propriedades rurais
abandonadas na região. Todavia, as famílias
eram sempre retiradas da terra ocupada, após o
pedido de reintegração de posse na justiça.
Às vezes, antes mesmo de entrar na área
eram impedidas pela polícia que, de alguma forma,
tomava conhecimento das suas intenções.
Aprendendo com essas experiências, as lideranças
descobriram que era preciso manter sigilo absoluto acerca
da gleba a ser ocupada, até mesmo de algumas pessoas
que estavam acampadas com elas na beira da rodovia. Era
também primordial escolher bem o dia da ocupação,
de modo a retardar ao máximo a chegada da decisão
judicial de reintegração de posse.
----------E
foi dessa forma, “sendo simples como as pombas,
mas espertos como as serpentes”, com muita ousadia
e organização que os trabalhadores conseguiram
enfim ocupar na madrugada de véspera do feriado
de Carnaval de 2001 uma fazenda de 158 hectares, há
muito abandonada pelo antigo proprietário. A primeira
parte do plano já tinha um bom resultado: a polícia
não teve conhecimento prévio da ocupação.
A segunda parte era dar efetividade à ocupação
da terra antes que o proprietário pudesse obter
na justiça a liminar de reintegração
de posse. Deste modo, na mesma madrugada, as famílias,
após acomodarem as crianças nos carros velhos
que conseguiram para fazer o trajeto até a ocupação,
empenharam-se, todas, no trabalho de aração
e de semeadura dos 14 hectares de terra que encontraram
apenas com monocultura do capim. Em apenas três
dias, trabalhando dia e noite, conseguiram arar e plantar
os 14 hectares de terra com verduras e legumes.(3)
Foi deste modo que o milagre aconteceu. Após o
feriado, quando o juiz da Vara Agrária visitou
o local para verificar a situação do imóvel
ficou emocionado com o que viu. Verduras e legumes já
estavam brotando por todos os lados. A terra já
estava cultivada e o imóvel cumprindo a sua função
social. A decisão do juiz culminou com a compra
da área pelo INCRA.
----------Tudo
ocorreu conforme o livro de Josué, só que
desta vez em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais.
“O sol se deteve e a lua ficou parada, até
que o povo se vingou dos seus inimigos.”
Vingaram mesmo foram as plantas, semeadas ligeiras por
aquelas/es trabalhador/res. Vingar para as plantas não
significa matar, fazer o mal, significa viver, sobreviver,
superar as forças da morte. Vingar dos seus inimigos
para aquelas/es trabalhadoras/res Sem Terra significou
fazer da terra o que o antigo proprietário não
foi capaz ou não quis fazer. E como prossegue o
texto do livro de Josué, “nem antes,
nem depois, houve um dia como esse, quando Javé
obedeceu a voz de um homem.” Naquele dia,
o Deus da vida ouviu foi o clamor das mulheres, as lideranças
do Assentamento Pastorinhas, que cansadas de ver faltar
o alimento na mesa, mandaram o sol se deter no céu
para que a noite (que seria a expulsão daquela
terra que não cumpria sua função
social) não viesse antes de ser toda a terra plantada.
Com a luz do dia, e sendo luz de Deus, as pastorinhas,
em mutirão, prepararam a terra e semearam não
apenas sementes de verduras, mas sementes de uma vida
com mais luz, dignidade. Assim, impediram que a noite
da opressão anterior se repetisse. Enquanto milhares
buscavam alegria e luz no Carnaval, 22 famílias,
na luta, plantaram na terra sementes que tem lhes dado
dignidade, alegria e luz para todos.
3)
Haverá um novo céu e uma nova terra de Dandara
----------Dandara,
a mulher, ontem foi uma guerreira companheira do líder
Zumbi dos Palmares. Como Zumbi preferiu a morte à
escravidão. Vivendo livre em uma terra com os seus
irmãos ex-escravos não se submeteu aos interesses
dos grandes proprietários de terra, que dos negros
só queriam a força de trabalho, o suor e
o sangue. Desapareceu deste mundo quando desapareceu Palmares,
a república negra da Serra da Barriga em Alagoas,
nas terras Brasil.
----------A
Dandara de hoje, uma comunidade, é a ocupação
de famílias de trabalhadores urbanos e rurais ocorrida
neste ano de 2009, na Quinta-feira Santa, no bairro Céu
Azul,região da Pampulha, em Belo Horizonte. No
primeiro momento, aqueles trabalhadores, cansados de serem
enxotados que nem cão vadio, de um lado para outro,
só tendo a moradia de favor ou de aluguel em barracos
de favelas e áreas de risco, entenderam que somente
se organizando seriam capazes de conquistar o direito
à moradia e o direito a uma vida digna.
----------Naquela
madrugada, aproximadamente 130 famílias de sem-casa
e Sem Terra cortaram a cerca e entraram em um imóvel
de 400.000 metros quadrados – 40 hectares -, completamente
abandonado há mais de 3 décadas. Uma área
de terreno já urbanizada na região metropolitana
de Belo Horizonte. Pensavam estar entrando em uma área
pública, reconhecidamente devoluta, e que, portanto,
nos termos da lei, pertenceria ao Estado de Minas Gerais.
Somente após raiar o sol ficaram sabendo que a
área é reivindicada pela Construtora Modelo,
que quer fazer no local mais um grande empreendimento
imobiliário na capital mineira.
----------Mas
o equívoco, em nada atrapalhou o intento daquelas
famílias de trabalhadores marginalizados. A disposição
de luta e a legitimidade de suas reivindicações
mobilizaram diversas forças sociais de apoio e
abrigou centenas de novas famílias que, atualmente,
já somam mais de mil acampadas e mais 500 famílias
em uma lista de espera. Todas essas pessoas descobriram
uma unidade de luta que os identifica. E foi a partir
desses acontecimentos que percebi a riqueza de outro texto
bíblico: o livro do profeta Isaías (Capítulo
65,17-25), que narra a construção de um
novo céu e de uma nova terra. O autor deste texto
nos apresenta a realização do projeto de
Deus: vida em abundância para todos e tudo, um mundo
de paz, harmonia e alegria. Quem esteve lá e não
sentiu esse projeto de Deus na Ocupação
Dandara?
----------Aquelas
famílias com coragem e disposição
para a luta e para o trabalho mostraram na prática
que é possível criar esse novo céu
e essa nova terra. Já na Quinta-feira Santa, dezenas
de lideranças das Brigadas Populares, do MST(4)
e do Fórum de Moradia do Barreiro “lavaram”
os pés de centenas de famílias crucificadas
na falta de reformas agrária e urbana. Partilharam
o pão do sonho da casa própria conquistada
na luta. Beberam o vinho amargo de resistir à truculência
da tropa de choque que aterrorizou todos no acampamento,
enquanto mundo afora nas igrejas cristãs celebrava-se
a missa do lava-pés. Antes da Sexta-feira Santa,
na comunidade Dandara, Jesus já havia ressuscitado.
Ali brilhava, como no Natal, a estrela que guiou os magos
para o encontro com Jesus de Nazaré.
----------O
projeto revolucionário de Jesus não morreu
na cruz. Ele está vivo em cada um/a dos que acreditam
ser possível viver melhor. E viver melhor é
caminhar junto nesta vida, com coragem e determinação,
conspirando a construção de “outra
terra e de outro céu’. Conforme já
anunciou a irmã Rosário: estão todos
ali caminhando seguindo bons pastores e boas pastoras.
----------E
realmente, a Ocupação Dandara é o
mais novo sinal de que Deus está criando ali pelas
mãos e organização dos trabalhadores
um novo céu e uma nova terra. Nada está
pronto, mas está tudo em construção.
“As coisas antigas nunca mais serão lembradas,
nunca mais voltarão ao pensamento.” Por isso
já estão todos alegres. Não haverá
mais choro ou clamor. Lá, no Dandara, correm por
todo lado as crianças, que não estão
condenadas a morrer precocemente, de fome ou vítimas
do tráfico de drogas. Tudo porque naquela terra
serão plantados alimentos, serão construídas
casas onde não haverá espaço para
drogas e violência. A ordem ali é que crianças
estudem e brinquem. Criança que brinca e estuda
é projeto de cidadania. Famílias que vivem
em comunidades são famílias de esperança.
----------Ali
no Dandara, de forma organizada, trabalhadores e pessoas
que têm compromisso com a vida, como no livro de
Isaias, “construirão casas e nelas habitarão,
plantarão vinhas e comerão seus frutos.
Ninguém construirá para outro morar, ninguém
plantará para outro comer”, como sempre aconteceu
no mundo em que viviam: pedreiros sem casa que sempre
fazem casas luxuosas para outros morar. Ali, “a
vida do povo será longa como as árvores.”
Ninguém trabalhará inutilmente, ninguém
gerará filhos para morrerem antes do tempo, porque
todos serão a descendência dos abençoados
de Javé.”
É bom que os lobos e os leões conheçam
o que está no texto do profeta Isaías e
venham aprender a se alimentar de todas essas belezas
com o povo do Dandara, porque está escrito no texto
sagrado que “ninguém causará danos
ou estragos ali.” Olhem por toda parte naquela ocupação
e ajoelhem-se diante do milagre de que são capazes
os pobres. Vejam como podem construir com os restos dos
ricos. As 1084 barracas são todas de pedaços
descartados de construções, madeiras velhas,
carpetes usados, plásticos e panos emendados. A
partir do lixo de uns estão construindo um novo
céu e uma nova terra. São capazes de plantar
ao redor das barracas jardins - na terra dura ainda sem
adubo -, porque a vida nasce em todos os lugares. São
capazes de colocar dons e talentos a serviço de
quem precisa. Quem já foi vigilante e prestou serviço
militar, com muita alegria e dignidade, ajuda na segurança
do acampamento. Quem é carpinteiro, além
de construir o seu abrigo ajuda outras famílias
a fazer as suas barracas. Unidos fizeram-se fortes para
resistir à truculência da tropa de choque
para esperar o milagre da suspensão da ordem de
reintegração de posse pelo Tribunal de Justiça.
----------Tudo
isso confirma o que temos anunciado há muito tempo:
um mundo novo está sendo construído, com
a graça de Deus e pelos pobres que irradiam a luz
e a força divinas no mundo.
----------Quem
tiver olhos para ver, veja lá e aqui: www.ocupacaodandara.blogspot.com.
Belo Horizonte,
12 de maio de 2009.
(1)
Advogada, professora de Direito Agrário na Escola
Superior Dom Hélder Câmara, em Belo Horizonte,
MG; Mestre em Direito Constitucional pela UFMG; Doutoranda
em Direito Internacional Público pela PUC MINAS;
Integrante da RENAP – Rede Nacional de Advogados
Populares; E-mail: delzesantos@hotmail.com
(2)
“Foi então que Josué falou a Iahweh,
no dia em que Iahweh entregou os Amorreus aos israelitas.
Disse Josué na presença de Israel: “Sol,
detém-te em Gabaon, e tu, lua, no vale de Aialon!”
E o sol se deteve e a lua ficou imóvel até
que o povo se vingou dos seus inimigos. Não está
isso escrito no livro do Justo? O sol ficou imóvel
no meio do céu e atrasou o seu ocaso de quase um
dia inteiro. Nunca houve dia semelhante, nem antes, nem
depois, quando Iahweh obedeceu à voz de um homem.
É que Iahweh combatia por Israel.”
(3) Optaram por plantar verduras
e legumes, porque as crianças estavam desnutridas.
Precisavam garantir o mais rápido possível
alimentos de qualidade para salvar as crianças.
Adubaram de forma orgânica, porque Valéria,
uma das Pastorinhas, tinha se formado em Técnica
Agrícola na Fundação Helena Antipoff,
onde agroecologia é uma prioridade absoluta.
(4) Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra;
www.mst.org.br