Crise
ambiental e relação do homem com a natureza
O
Rio São Francisco: acqua mater
Dom
frei Luiz Flávio Cappio (1)
----------Antes
de viajar para a Alemanha para receber o Título
de Cidadão do Mundo(2)
, dia 5 de maio de 2009, na PUC Minas, em Belo Horizonte,
MG, na abertura do III Simpósio Internacional de
Teologia e Ciências da Religião, Dom Cappio,
o bispo que já fez duas greves de fome contra a
Transposição de águas do Rio São
Francisco e pela defesa do Rio São Francisco e
do seu Povo, nosso querido frei Luz proferiu a seguinte
conferência:
----------Que
mundo deixaremos para nossos filhos, netos? Que planeta
estamos preparando para as futuras gerações?
----------É
uma questão elementar de justiça. O sagrado
direito que cada um de nós possui de poder viver
em um ambiente sadio, digno de seres humanos, propício
à vida com qualidade para cidadãos e cidadãs
deste planeta, corresponde ao igual dever que nos compete
de propiciar estes mesmos direitos às futuras gerações.
Herdamos um mundo, um planeta que nos foi legado por aqueles
que vieram antes de nós, que prepararam a casa
onde hoje moramos, onde vivemos, onde realizamos nossa
existência.
Cabe-nos fazer o mesmo para aqueles e aquelas que virão
depois de nós, que herdarão o planeta que
tivermos preparado para eles. Isso e uma questão
de justiça.
----------Amanha,
quando o sol nascer de novo com seu calor e vida;
As flores nos acolherem com suas variadas cores e perfumes;
Ouvirmos o canto dos pássaros e a brisa fresca
beijando nosso peito;
Nossos lábios sorverem as águas puras da
fonte enquanto contemplamos as verdes altas montanhas
e o azul profundo dos oceanos;
----------Poderemos
ouvir dos que virão depois de nós: "Obrigado
pelo mundo que vocês prepararam para nós.
Obrigado pelo planeta, qual jardim, que vocês nos
legaram. Obrigado pelas sementes de vida que vocês
plantaram para que pudéssemos colher seus abundantes
frutos. Obrigado, muito obrigado."
----------Ou,
depois de amanha, quando não mais
houver amanhecer, mas apenas uma claridade enfumaçada,
coberta por nuvens ácidas;
----------Quando
nossa visão enfraquecida e nossos corpos se esvair
em feridas purulentas provocadas pela radiação
tóxica causada pelo enfraquecimento da camada de
ozônio;
----------Quando,
em vez de água, tivermos que beber um suco pastoso
de coliformes fecais temperado com ingredientes químicos
das mais nocivas origens;
----------Quando
a paisagem se tornar um imenso deserto sem vida, sem a
canção dos pássaros, sem a melodia
de vozes humanas, porque ninguém mais terá
ânimo para cantar e sim para gritar desesperadamente
pelas dores lancinantes de ossos e músculos em
decomposição;
----------E
as mães, por amor, tiverem que abortar os filhos
para que não sejam mais sofredores condenados a
esse vale de lágrimas;
----------Ouviremos
nossos filhos e netos, com dedo em riste apontando para
nós, olhos esbugalhados, roendo palavras desconexas
de ódio e rancor, gritarem: "Malditos, demônios,
filhos das trevas e do mal, olhem para esse inferno para
o qual fomos condenados. Vocês são os responsáveis
pela desgraça que nos envolve, fazendo-nos desgraçados
com elas."
----------Que
mundo, que planeta legaremos para nossos filhos e netos?
Isso é uma questão de justiça. Poderemos
ser justos cumprindo nosso sagrado dever de zelar e cuidar
dessa riqueza infinita que nos foi confiada, ou podemos
ser profundamente injustos assumindo a postura irresponsável
e inconsequente dos que apenas exploram e usufruem do
tesouro de incomensurável valor que é a
natureza, mãe da vida.
----------“Deus
perdoa sempre, os seres humanos, de vez em quando, a natureza
não perdoa nunca”. Se nós a agredirmos,
mais cedo ou mais tarde ela dará sua resposta.
A vida que hoje vivemos herdamos de nossos ancestrais.
Nós estamos construindo o Planeta em que os que
virão depois de nós nele viverão.
A vida não se improvisa. Em cinco minutos colocamos
no chão uma árvore centenária. Serão
necessários mais cem anos para que tenhamos outra
semelhante. Isso se tivermos o cuidado de plantar outra
e cuidar, cuidar e cuidar.
----------É
questão de consciência, de pertença.
É questão de possuirmos ou não um
sagrado senso de justiça. De ter a sensibilidade
de saber compreender o direito que possuímos de
viver em um mundo habitável com dignidade, e o
dever de co-responsabilidade de preservá-lo para
que outros também usufruam do mesmo bem. De saber
que este planeta é nosso lar. Fazemos parte dele.
Foi-nos entregue para nele viver, usufruir de seus bens
e riquezas. Cuidar para que os bens nele presentes possam
se perpetuar e para que as gerações futuras,
como nós, também possam tê-lo cheio
de vida. Como dizia nosso querido mestre Leonardo Boff:
“cuidar é outro nome para o amor e a melhor
forma de amar.” “Quem ama, cuida”. E
justo que cuidemos do que é de todos. É
justo que, no trato das coisas de todos, tenhamos o mesmo
zelo como tratamos as nossas em particular.
----------O
mesmo cuidado que a natureza tem para conosco, no sentido
de prover, garantir e zelar pela nossa vida, assim também
nós recebemos do Pai do Céu a missão
de cuidar, prover e garantir a perpetuação
dos bens e maravilhas criadas que fazem parte do nosso
planeta, o Jardim do Éden. Ou, pela nossa decúria,
transformá-lo no inferno de Dante, impossível
de nele viver. Isso seria uma grande injustiça
de nossa parte.
----------No
último dia da criação, depois que
tudo estava pronto, e o Senhor viu que “tudo era
bom”, criou o homem e a mulher e lhes outorgou a
missão de cuidado para com a obra criada. Fez-nos
guardiões da natureza. Este é o sentido
bíblico do “dominai a face da terra”.
O termo “dominai” vem de latim “dominus”
que significa “senhor”. Daí a palavra
domingo, que significa “dia consagrado ao Senhor”.
O dia do descanso. Como o pai cuida dos filhos, como a
mãe é capaz de dar a própria vida
pela vida dos filhos, assim também fomos constituídos
senhores no sentido da paternidade de quem cuida, na maternidade
de quem vela. Mas esta passagem belíssima do Gênesis
foi entendida por nós dentro da ótica masculina
do ser dono, do explorar, na violência do destruir,
na ganância do lucrar, na vaidade do usufruir sem
limites. Deturpamos o pensamento original do Criador e
impusemos nossa visão dominadora, destruidora,
violenta e desrespeitadora. Enquanto o Senhor tudo realizou
dentro de um plano perfeito e harmônico, respeitoso
e amoroso, e nisso manifestou a Justiça Divina,
nós manifestamos a injustiça humana no entendimento
e prática deturpada do pensamento do Senhor.
----------Chamamos
para nós os atributos do Criador. Não somos
os donos da criação. Somos apenas os seus
zeladores e cuidadores.
----------O
livro do Eclesiástico nos ensina: “Da terra
Deus criou o ser humano e o formou à sua imagem.
E à terra o faz voltar novamente, embora o tenha
revestido de poder, semelhante ao seu. Concedeu-lhe dias
contados e tempo determinado, dando-lhe autoridade sobre
tudo o que há sobre a terra. Em todo ser vivo incutiu
o medo do ser humano, fazendo-o dominar sobre as feras
e os pássaros. Concedeu aos humanos discernimento,
língua, olhos, ouvidos e um coração
para pensar; encheu-os de inteligência e instrução.
Deu-lhes ainda o conhecimento do espírito, encheu
o seu coração de bom senso e mostrou-lhes
o bem e o mal. Infundiu o seu temor em seus corações,
mostrando-lhes as grandezas de suas obras. Concedeu-lhes
que se gloriassem de suas maravilhas, louvassem o seu
santo Nome e proclamassem as grandezas de suas obras.
Concedeu-lhes ainda a instrução e entregou-lhes
por herança a Lei da vida. Firmou com eles uma
aliança eterna e mostrou-lhes sua justiça
e seus julgamentos. Seus olhos viram as grandezas de sua
glória e seus ouvidos ouviram a glória de
sua voz. Ele lhes disse: Guardai-vos de tudo o que é
injusto! E a cada um deu mandamentos em relação
a seu próximo”.
----------O
autor do quarto evangelho nos ensina, no capítulo
dez de seu Evangelho, que o Senhor é o Bom Pastor.
A justiça do Bom Pastor se manifesta no seu imenso
amor e cuidado. O Bom Pastor é aquele que ama suas
ovelhas, cuida de seu rebanho. Leva-o para as pastagens
verdejantes e para os regatos de águas cristalinas.
O Bom Pastor defende o rebanho dos inimigos, do lobo cruel
e voraz. Está sempre atento para que nada de mal
aconteça a nenhuma de suas ovelhas. Esse é
o Bom Pastor. É capaz até, se preciso for,
de dar a vida por suas ovelhas. Sacrificar-se por elas.
Ser crucificado para “que tenham vida e a tenham
em abundância”.
----------Essa
é a herança espiritual daqueles e daquelas
que assumem a missão de pastorear, de caminhar
junto, mas na linha de frente do rebanho. Os seguidores
do Bom Pastor recebem a mesma tarefa, a mesma ordenança,
a mesma missão. A de serem justos como o Bom Pastor.
Isso nos faz discípulos e missionários do
Deus da Vida e da Justiça. Semeadores do bem e
da paz. Testemunhas da justiça maior. Chamados
a viver em uma ordem justa e fraterna. Fazer com que o
leite e o mel continue escorrendo pelos favos da existência
humana. Garantindo que todos, todos sem exceção,
tenham o direito de uma vida saudável, ética,
digna de ser vivida. Enfim, uma vida baseada na justiça.
Essa é a vocação do pastor. Para
isso ele foi chamado. E é isso que dá sentido
e razão de ser para sua existência. A plenitude
da realização do pastor é, à
imagem do Bom Pastor, poder doar a própria vida
pela vida de cada ovelha, de todo o rebanho. Para o pastor
iluminado pelo Bom Pastor, o gastar-se é tornar-se
mais rico, o doar-se é plenificação,
o morrer é viver com abundância.
----------Mercenários
existem muitos e muitas. Homens e mulheres injustas que
se travestem de pastores, mas cujas intenções
são maléficas. São lobos perigosos
e vorazes que se aproveitam da simplicidade e carência
do rebanho para fazer acontecer suas intenções
sórdidas. Devagar o rebanho vai discernindo e sabendo
diferenciar o bom pastor do mercenário. O justo
do injusto. “Pelos frutos se conhece a árvore”.
O tempo se encarrega de mostrar a verdade dos fatos e
das reais intenções. “Não há
nada oculto que não venha a ser revelado, não
há nada escondido que mais cedo ou mais tarde não
apareça”. As questões sociais nos
permitem conhecer e distinguir o pastor do mercenário.
Aqueles que realmente são justos e estão
a serviço do rebanho e aqueles que são injustos
e se aproveitam do rebanho para satisfazer seus próprios
interesses.
----------É
no entendimento e na consciência de nossa missão
de pastores que se funda a capacidade de doarmos a vida.
E isso se faz com a máxima alegria e generosidade.
É no entendimento e na consciência do verdadeiro
sentido da justiça que nos tornamos construtores
do Reino de Deus.
----------O
Rio São Francisco é o Pai e a Mãe
de todo um povo. É o que garante a água
que milhões de seres humanos bebem, comem do seu
peixe e se alimentam dos frutos das terras banhadas por
suas águas. O Rio São Francisco é
o gerador de vida para uma imensidade de outras vidas.
O “Velho Chico” não pode morrer. Da
vida do “Velho Chico” depende a vida de milhões
de outros seres.
----------Existem
no Brasil rios ainda bem maiores que o São Francisco.
Mas o que faz a diferença é o fato de percorrer
o semi-árido brasileiro. Região de muita
carência de chuvas. Águas temos com certa
abundância, mas concentradas em alguns rios e na
imensa rede de açudes existentes. Necessitamos
urgentemente distribuir esta água concentrada para
as populações difusas de todo o semi-árido.
E isso é uma questão de justiça ambiental,
pois a democratização da água é
uma tarefa essencial para a manutenção da
vida, pois ninguém pode ficar sem ela.
----------Se
o Projeto de Transposição de Águas
do Rio São Francisco tivesse como objetivo e meta
a distribuição da água para as populações
difusas, praticar a justiça ambiental e evangélica
de “dar de beber a quem tem sede”, nós
seríamos os primeiros a ser de acordo com o projeto.
Apoiá-lo-íamos incondicionalmente. Mas a
prioridade do Projeto de Transposição é
a segurança hídrica em função
dos grandes projetos agro¬industriais. O uso econômico
da água, antes de cumprir sua função
essencial que é o dessedentamento humano e animal,
faz o projeto tornar-se anti-ético e, portanto
injusto, pois inverte as prioridades no uso da água.
----------O
Rio São Francisco imita o santo de seu nome. O
santo São Francisco nasceu de família abastada.
Quando conheceu o sofrimento dos pobres de seu tempo,
deixou toda a riqueza da família e foi para o meio
dos pobres e dos pobres mais pobres que eram os leprosos.
Dedicou toda a sua vida a eles. Encarnou o verdadeiro
sentido e espírito da justiça humana. O
Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, no
sudoeste do estado de Minas Gerais, uma das regiões
mais ricas do Brasil. Poderia tomar a direção
do leste ou do sul, regiões igualmente ricas. Mas
não, faz uma curva e se dirige para o nordeste.
Coloca toda a sua potencialidade a serviço dos
pobres do sertão brasileiro. É o rio que
imita o santo de seu nome. O rio testemunha a justiça
do seu santo padroeiro. Por isso dizemos, o Rio São
Francisco é o pai e mãe de um povo. Aquele
que supre suas necessidades essenciais, vitais.
----------Rio
vivo — povo vivo.
----------Rio
doente — povo doente.
----------Rio
morto — morte de um povo.
----------Ser
pastor nas barrancas do São Francisco é
garantir vida e vida abundante aos barranqueiros. Vida
abundante aos barranqueiros significa vida abundante ao
“Velho Chico”. Diante das inúmeras
agressões causadas ao nosso rio, agressões
essas geradoras de doença e morte, o pastor não
pode manter-se calado. E sua missão, é seu
dever praticar a justiça, ser testemunha da justiça
maior, erguer a voz, colocar suas forças no sentido
de garantir vida ao rio, pois na vida do rio, a vida do
povo. É por isso que, diante de todas as ameaças
de morte causadas ao rio e ao povo, o pastor se levanta,
grita bem alto, qual João Batista no deserto, arrisca
a própria vida, pois “onde a razão
se extingue, a loucura é o caminho”. Para
salvar o Velho Chico, salvar a biodiversidade, salvar
os povos ribeirinhos, salvar os seres humanos, salvar
o planeta, salvar a vida, vale a pena doar a própria
vida. Vale a pena morrer para que tenham vida e vida em
abundância. E assim se cumpre toda a justiça.
(1)
Bispo da Diocese de Barra, no Sertão da
Bahia. www.umavidapelavida.com.br
– dcappio@yahoo.com.br
(2) Após o recebimento do prêmio
Pax Christi, em outubro de 2008, o bispo da Diocese da
Barra, D. Luiz Cappio, será homenageado mais uma
vez. No dia 9 de maio de 2009, D. Cappio receberá
na cidade de Freiburg, na Alemanha, o Prêmio Kant
de Cidadão do Mundo, dado pela Fundação
Kant. Essa é a terceira edição do
prêmio que homenageia personalidades que se destacam
pelo engajamento corajoso na defesa de grupos sociais
marginalizados politicamente e socialmente, a favor dos
direitos humanos e em defesa das bases sociais, naturais
e culturais da vida. Idéias inspiradas na filosofia
moral de Immanuel Kant.