Rio São Francisco:
dádiva agredida
Gilvander Luís Moreira (1)
(Artigo anexo ao texto "Velho Chico
é mais que um rio", Jornal Mundo Jovem, edição
nº 395, abril de 2009, p. 4.)
-----------Conhecido
pelos indígenas antes da colonização
como Opará (que significa rio-mar), o Rio São
Francisco, popularmente chamado de Velho Chico, nasce na
Serra da Canastra, em Minas Gerais, a cerca de 1.200 metros
de altitude, atravessa o estado da Bahia, fazendo a divisa
ao norte com Pernambuco, bem como constituindo a divisa
natural dos estados de Sergipe e Alagoas. Por fim, deságua
no Oceano Atlântico, na região nordeste do
Brasil. Com 2.830 km de extensão, drena uma bacia
de 641.000 km². O ciclo natural de cheias e vazantes,
altas e baixas, grandes e pequenas, fazia jus ao nome de
um rio que tem declividade de apenas 7,4 cm por km (0,8
m/s), na maior parte de sua extensão (entre Pirapora,
MG e Juazeiro, BA), devido à falha geológica
conhecida por Depressão São-Franciscana.
-----------O
sustento de um povo
-----------Nasce
no rico Sudeste, em Minas Gerais e, ao contrário
dos outros rios da região, corre para o empobrecido
Nordeste, levando água e alimento. É o eixo,
o centro, a artéria da vida do povo. Mas dia após
dia cresce a degradação ambiental e social
do Rio São Francisco e de seus afluentes. Os ribeirinhos
lamentam as dificuldades crescentes em tirar das águas
seu sustento: peixe escasso, vazantes menos produtivas,
bancos de areia, navegação difícil,
águas poluídas etc.
-----------Dom
Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra, na
Bahia, que fez duas greves de fome em defesa do São
Francisco e contra o projeto de transposição,
atesta que em um ano de peregrinação, em 1992,
das nascentes à foz do Velho Chico, ficou evidente
que os principais problemas da bacia são-franciscana
são:
-----------1)
O desmatamento para as monoculturas e para as carvoarias
que compromete os mananciais e provoca o assoreamento;
-----------2)
A poluição urbana, industrial, minerária
e agrícola;
-----------3)
A irrigação, que além dos agrotóxicos,
consome água demais;
-----------4)
As barragens e hidrelétricas que expulsam comunidades
inteiras impedem os ciclos naturais do rio;
-----------5)
A pobreza e o abandono da população, a que
mais sofre com as consequências desses abusos.
-----------Para
Dom Cappio, o Rio São Francisco é “a
mãe e o pai de todo o povo, de onde tiram o peixe
para comer, a água para beber e para molhar suas
plantações - principalmente em suas ilhas
e áreas de vazantes. Mesmo não sendo o maior
rio brasileiro em volume d’água, talvez seja
o mais importante, porque é a condição
de vida da população. Sempre dizemos: Rio
São Francisco vivo, povo vivo; Rio São Francisco
doente e morto, população doente e morta”.
-----------Sepultado
vivo
-----------Quem
vive na beira do rio diz que ele está morrendo. Relatos
como esses foram ouvidos, por exemplo, dia 1º de agosto
de 2004, na 9ª Romaria da Terra e das Águas
de Minas Gerais, em Pirapora e Buritizeiro. Pescadores que
pescam na região há 15, 20, 30 ou 35 anos
afirmam categoricamente: o Rio São Francisco está
morrendo. Nos últimos 40 anos, ele já perdeu
cerca de 40% do seu volume de água. Está cada
vez mais raso, estreito e assoreado. Uma infinidade de ilhas
existentes hoje não existiam no passado. O assoreamento
é o resultado de 18 milhões de toneladas de
areia e terra carreados anualmente para a calha do rio,
até o reservatório de Sobradinho. O rio está
sendo sepultado vivo. As matas ciliares acabaram. Os vazanteiros
tiveram que migrar para as favelas, pois as cheias quase
não existem mais e, por isso, a pesca e a agricultura
nas várzeas estão ficando inviáveis.
-----------Além
de um milagre da natureza, o São Francisco é
a maior bacia hidrográfica inteiramente brasileira,
terceira do país, é um dos símbolos
informais da nacionalidade, tido como o rio da unidade nacional,
já que serviu de caminho entre o Norte, onde se iniciou
o Brasil, e o Sul, onde o Brasil se centralizou.
-----------O
rio virou negócio
-----------Não
obstante tanta importância geográfica, histórica,
cultural e política, o “ciclo do desenvolvimento”,
propagado como modernização e implantado como
modernização compulsória e conservadora,
iniciado na segunda quadra do século 20, viu no Rio
São Francisco, num primeiro momento, apenas fonte
de eletricidade. Já são sete usinas hidrelétricas
em sua calha, que desalojaram mais de 140 mil pessoas e
produzem 10.356 megawatts de energia, comprometendo cerca
de 80% de sua vazão.
-----------A
barragem de Sobradinho passou a ser o coração
artificial do Velho Chico, e o que ela fez? Expulsou 72
mil ribeirinhos, inundou áreas férteis e artificializou
o Baixo São Francisco. Várias outras barragens
se anunciam... Depois, ao final da terceira quadra do século
20 acrescentou-se a irrigação de frutas para
exportação e, mais recentemente, no limiar
do século 21, para os novos negociantes da ecologia,
irrigação de agrocombustíveis para
exportação e perpetuação do
modelo de civilização baseada nos carburantes.
E suas águas, límpidas ou barrentas, contaminadas,
como em setembro de 2007 por cianobactérias como
nunca se viu, passaram a ser consideradas, por aparato legal
inclusive (a Lei no 9.433/97)(2)
, recursos hídricos para todos os usos, inclusive
econômicos intensivos em água. A consolidar
o negócio da água, o hidronegócio que
se junta ao eletro e ao agronegócio, iniciaram-se
as obras do Projeto de Transposição ou, no
eufemismo oficial, Integração de Bacias do
São Francisco com as do Nordeste Setentrional.
-----------Resultado
dessa série de múltiplos, sobrepostos e indisciplinados
usos, o Rio São Francisco, do qual dependem os 14
milhões de pessoas que são a população
da Bacia, tornou-se um rio condenado, cuja revitalização,
trabalho hercúleo de gerações, muito
além do atual e pífio Programa de Revitalização
do governo federal, dificilmente lhe devolverá a
vitalidade e o vigor. Para poder propor ações
revitalizadoras consistentes, eficazes e eficientes, por
primeiro, é preciso analisar por que o São
Francisco precisa de revitalização e quais
as principais causas da degradação, da perda
da vitalidade, que seriam, forçosamente, as frentes
principais da revitalização, fosse para valer
essa revitalização.
-----------Até
pouco tempo o rio era navegado sem maiores restrições
entre Pirapora e Petrolina/Juazeiro (1.312 km), no médio
curso, e entre Piranhas e a foz (208 km), no baixo curso.
Hoje só apresenta navegação comercial
no trecho compreendido entre os portos de Muquém
do São Francisco (Ibotirama), na Bahia, e Petrolina/Juazeiro,
na divisa entre Bahia e Pernambuco. Outro sinal alarmante
da situação deplorável é a diminuição
da sua vazão. Em 2001, o reservatório de Sobradinho
chegou a 5% de sua capacidade.
-----------Em
outubro de 2007, aconteceu em proporções inéditas
um desastre ecológico decorrente desta poluição
e da diminuição da vazão: uma contaminação
com algas azuis (cianobactérias) que se proliferaram
no Rio das Velhas e no Médio São Francisco,
levando a uma enorme mortandade de peixes e à inadequação
da água para consumo humano e animal, enquanto não
aumentasse o volume com a chegada das chuvas nas cabeceiras.
A infestação é efeito de uma alta concentração
de emissões de esgotos domésticos e industriais,
de agroquímicos e fertilizantes usados nas lavouras,
que resultam em uma eutrofização dos cursos
d’água. O mais problemático é
o Rio das Velhas que coleta a maior parte do esgoto da região
metropolitana de Belo Horizonte e que, por isso, é
um dos rios mais poluídos da Bacia do São
Francisco. Essa contaminação com cianobactérias
mostra que em épocas de poucas chuvas o rio não
consegue mais diluir os poluentes.
-----------Enfim,
as principais causas de degradação do Rio
São Francisco são o avanço descontrolado
da agricultura intensiva de irrigação com
superexploração dos mananciais, desmatamento
do Cerrado, supressão da mata ciliar, produção
de carvão vegetal, concentração de
terra, barragens e hidrelétricas, mineração,
siderurgia e a falta de saneamento básico na bacia.
Frei Gilvander Luís Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
1)
Frei e padre carmelita, Belo Horizonte, MG. Endereço
eletrônico: gilvander@igrejadocarmo.com.brSite: www.gilvander.org.br
2) Trata-se da Lei Nacional de Recursos
Hídricos que estabelece as condições
para o “negócio da água”, tornando-a
bem econômico, sob controle da Agência Nacional
de Águas (ANA) e co-gestão dos Comitês
de Bacia.