INSEGURANÇA
INSTITUCIONALIZADA
Fábio
Alves dos Santos (1)
----------Meu
caro Irmão Felipe,
----------Paz
e Bem!
----------Você
me pede, à guisa de refletirmos sobre o tema da Segurança
Pública, proposto pela Campanha da Fraternidade 2009,
que eu escreva algumas linhas sobre o tema. Tal proposta
mergulha-me em um inumerável cipoal de inquietudes
e dúvidas que nem sei aonde se vai chegar. Em todo
o caso, alinhavo para você algumas idéias.
Ei-las:
----------O
primeiro pensamento que me envolve, ao debruçar-me
sobre o tema, é a complexa realidade econômica,
social e política do nosso país. Tanto na
cidade, como no campo, sofremos em estruturas injustas e
semeadoras de exclusão. O Estado – Executivo,
Legislativo e Judiciário –, sem contar o poder
midiático, são instrumentos apenas de manutenção
desta ordem que, já em Puebla, nos idos de 1979,
os episcopados da América Latina e Caribe diziam
ser “desordem institucionalizada”.
----------Com
efeito, no campo brasileiro mora, com requintes de privilégio,
a miséria. Apenas 1% dos latifundiários detém
50% das propriedades rurais. O contingente dos sem-terra
constitui legiões, são 4,5 milhões
de famílias. A Reforma Agrária foi relegada
ao esquecimento neste e nos governos anteriores. Somente
a combatividade do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
– MST - conseguiu 7,5 milhões de hectares no
último quarto de século assentando 375 mil
famílias.
----------Os
índios, vítimas de um massacre secular, continuam
assistindo à invasão de suas terras por posseiros
expulsos pelo latifúndio. Também por grandes
empreendimentos agropecuários, minerários
e grandes projetos governamentais de barragens. Recentemente
o caso Raposa Serra do Sol, em Roraima, revelou quão
poderosos são os interesses anti-indígenas
instalados na mídia nacional.
----------Esta
situação, por si só, é violenta
e injusta. Assassinatos de camponeses, índios e seus
aliados se multiplicam impunemente país afora. Somente
no período que medeia entre 1965/1985, cerca de 30
milhões de brasileiros foram expulsos do campo e
jogados nas periferias de nossas metrópoles. Para
se ter uma idéia, uma população equivalente
à da Argentina foi deslocada em apenas 20 anos do
governo militar.
----------E
aí nos vemos perdidos nas nossas grandes cidades.
Periferias imensas. Os poucos ricos vivendo em situação
de verdadeiro apartheid. Edifícios e condomínios
luxuosos, cercados de guardas por todos os lados, cerca
elétrica e muros altos. Deslocam-se sempre em viaturas
particulares e só andam em centros comerciais e escolas,
muito bem vigiados. A estes ambientes os pobres só
têm acesso como empregados menos qualificados. A realidade
nos fala que 10% da população detém
75% de toda a riqueza. Quão violenta e injusta é
esta situação!
----------Pois
bem, Irmão Zinho Felipe – da Ordem dos Irmãos
Menores só pode ser Irmãozinho, não
é? – é neste caldeirão de desigualdades
que a Igreja nos convida a refletir (e se comprometer) sobre
o tema da Segurança Pública. Tão difícil
a abordagem. A insegurança, pela maneira que a nossa
sociedade - que se diz a mais católica do mundo –
se organiza e se assenta na injustiça e, por conseguinte,
na insegurança. A profecia de Isaias já nos
dizia que “a Paz é fruto da Justiça”
(Isaías 32,17).
----------Contudo,
diuturnamente, somos bombardeados pela mídia, nos
inúmeros programas policialescos, com o discurso
de que a insegurança é causada pelos delitos
cometidos por pessoas ou grupos. Tais delitos são
praticados no espaço público e, via de regra,
por pobres. Repete-se, ad nauseam, que o problema
do Rio de Janeiro são as gangues de traficantes encasteladas
nos morros da exclusão daquela cidade. Os crimes
de tráfico, corrupção, sonegação
de impostos, contrabando e outros, mais nocivos à
sociedade, são praticados em espaços privados.
Os gabinetes dos executivos e os condomínios de luxo,
onde tais crimes são urdidos, não são
alcançados pelos olhares diligentes da polícia.
Muito menos são alcançados pela pena de nossos
magistrados. A recente libertação de Daniel
Dantas pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, sr.
Gilmar Mendes, espanca definitivamente a dúvida de
que o nosso Judiciário não seria uma Justiça
de Classe.
----------Enquanto
isso, as nossas prisões conhecem um aumento vertiginoso
de sua população. Na sua grande maioria jovens,
pobres e negros. Porcentual majoritário de condenados
como traficantes de drogas. Vivem em condições
desumanas e de aviltamento da pessoa e das leis. Impossível
que daí saiam como cidadãos capazes de uma
intervenção mais construtiva na sociedade.
São aperfeiçoados para a prática de
delitos ainda mais violentos do que aqueles por eles praticados
antes de chegarem ao cárcere.
----------Quando
a violência bate à porta da classe média,
o noticiário sai das páginas policiais e ganham
os horários nobres da mídia. Imediatamente
diligentes parlamentares de plantão propõem
maior endurecimento das penas e a tipificação
de outras condutas como ilícitas. Equivocam-se ao
defenderem que o agravamento das penas reduz criminalidade.
E mais equivocados estão ao pensarem que a Justiça
se faz com o Código Penal.
----------Cristãos
bem intencionados chegaram a criar um método de cuidado
dos presos que poderia ser uma alternativa de prisão.
Este método ficou conhecido pela Associação
de Proteção e Assistência ao Condenado
– APAC. Em muito pouco tempo o Judiciário
e o Executivo se apossaram do método. Hoje a APAC,
malgrado um tratamento mais humanizado do sentenciado, é
uma peça do sistema prisional. Foi cooptada pelo
Estado. Silenciou na sua dimensão profética.
----------Não
fosse isso o bastante, assistimos hoje uma tendência
no Poder Público em tentar criminalizar os movimentos
sociais. As ocupações de latifúndios
improdutivos pelos Sem Terra. As ocupações
de áreas urbanas retidas pela especulação
imobiliária, por parte dos Sem Casa, são transformadas
em crimes praticados por quadrilheiros. Mais uma vez se
tenta silenciar a luta dos pobres com o Código Penal
e não compelindo os ricos a cumprirem o mandamento
constitucional da função social da propriedade.
----------E
as nossas periferias continuam mergulhadas na exclusão.
Rios de dinheiro são canalizados para elas. Políticas
de compensação transformam os miseráveis
em objeto de esmola, pela via da bolsa-família. Deixam
os pobres de ser sujeitos de direitos e passam a ser objetos
de favores. A educação e a saúde, embora
custem caro ao contribuinte, são de baixa qualidade
e insuficientes. Para não falar do desemprego e da
ausência de equipamentos sociais para a juventude.
----------Quem
semeia tanta iniqüidade, o que pode esperar na colheita?
----------Mas,
meu caro Irmão Felipe, a Igreja nos convida a refletir
sobre este tema, a fim de que os cristãos dêem
uma contribuição positiva na transformação
desta realidade. Eu fico me perguntando: O discurso da Igreja
é muito bom, mas a sua atual prática faz ecoar
os apelos do Evangelho e do seu próprio discurso
em favor dos empobrecidos?
----------Volto
o meu olhar para um passado recente. O governo federal,
atendendo aos interesses dos novos coronéis do Nordeste,
bancou o projeto de transposição das águas
do Rio São Francisco para outros estados da região.
À toda evidência, o projeto visa beneficiar
o hidronegócio e a indústria metalúrgica
e não “os doze milhões de nordestinos
do semi-árido”, como propala o governo.
----------Então,
na comunhão com os irmãos nordestinos e com
a natureza, um irmão franciscano, também bispo
na beirada do rio, resolveu jejuar e orar em favor de outras
alternativas mais baratas e mais justas para o povo. Minorias
abraâmicas, por todo o país, a ele se associaram.
Em Belo Horizonte, no coração de um bairro
de classe média alta, os seus irmãos franciscanos
abriram as portas para que um grupo de cristãos ali
se reunisse para jejuar e orar em comunhão com Dom
Frei Luiz Flávio Cappio. Somou-se a esse pequeno
grupo um punhado de jovens franciscanos, provenientes da
periferia de Betim. A Arquidiocese, como de resto o episcopado
brasileiro, silenciou sobre o assunto. Decorridos muitos
dias saiu do silêncio, para assumir uma postura que
mais agradava ao Vaticano e ao governo do que aos apelos
de justiça brotados do gesto profético daquele
irmão franciscano. Ao lado do local onde se jejuava,
um santuário abrigava missas diárias. Não
se falava do jejum. Chegou-se, inclusive, a se negar que
naquele santuário, cujo pároco era um franciscano,
se celebrasse uma missa em solidariedade à luta de
Dom Frei Luiz. Não fosse a intervenção
de superiores franciscanos, as centenas de pessoas que acorreram
à missa teriam ficado ao relento.
----------Ainda
me permita, meu irmãozinho, que estenda minha dúvida
em relação à eficácia da Campanha
da Fraternidade, a partir dos meios de comunicação
católicos. Você acha que ali a Igreja encontrará
eco para um apelo em favor da justiça? O Jesus que
ali se prega porventura alimenta no coração
dos católicos um desejo de construção
de uma sociedade menos desigual e menos injusta? A Campanha
da Fraternidade atira em uma direção e os
meios de comunicação caminham em outro rumo.
Isto para não falar das estruturas medievais das
paróquias que, via de regra, não mais conseguem
atender aos clamores dos pobres.
----------Então,
chegamos à pergunta-chave: Há, pois, esperança?
Vale a pena abraçar tão nobre proposta? Eu
respondo positivamente. A Igreja, felizmente, não
é um bloco monolítico. São muitos os
carismas. E são muitas as minorias que buscam viver
mais próximas dos pobres e conhecer e ouvir os seus
clamores. Estão vivendo processos belíssimos
de aprofundamento bíblico, de mergulho na contemplação
e de intensa participação na luta dos excluídos.
----------Lado
outro, irmanam-se nesta caminhada incontáveis iniciativas
da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais em
defesa de uma justa distribuição da terra,
de luta pela efetividade dos direitos de crianças,
adolescentes, mulheres, idosos e das minorias raciais ou
de opções sexuais distintas. A soma de toda
esta gente, graças a Deus, é enorme. Nós
somos milhares e, quiçá, milhões!
----------O
Espírito, hoje como ontem, continua a suscitar no
coração dos homens e mulheres a solidariedade,
a profecia e o compromisso com a vida. Certamente os frutos
do Espírito serão de segurança, de
justiça e de paz.
----------Com
um fraterno abraço,
----------Fábio
Santos
(1)
Fábio Alves dos Santos é advogado e professor
na PUC Minas.
E-mail: fabiosantos@pucminas.br