Fraternidade
e Segurança Pública.
Robson Sávio Reis Souza
(1)
-----------Inicia-se
na quarta-feira de Cinzas, dia 25/02/2009, mais uma Campanha
da Fraternidade, promovida pela Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil – CNBB. O tema: fraternidade
e segurança pública.
-----------A
igreja conhece a máxima do profeta Isaías:
“a paz é fruto da justiça” (Is
32,17). Portanto, é impossível pensar numa
cultura de paz, como apregoa a Igreja, desconhecendo a complexa
realidade econômica, social e política do nosso
país.
-----------Nas
cidades e no campo convivemos com estruturas injustas e
excludentes. E o Estado é o mais eficiente instrumento
de manutenção desta ordem.
-----------Como
falar segurança pública quando 1% dos latifundiários
detém 50% das propriedades rurais produtivas? Entre
1965 a 1985, cerca de 30 milhões de brasileiros foram
expulsos do campo e jogados nas periferias de nossas metrópoles.
No mesmo período, o governo federal baixou somente
124 decretos de desapropriação. Como naturalizar
a legião de sem-terra, formada por 4,5 milhões
de famílias? Os índios, vítimas de
um massacre secular, continuam assistindo à invasão
de suas terras por latifundiários, mineradoras e
posseiros expulsos pelo latifúndio.
-----------Nas
nossas grandes cidades, poucos ricos vivem em situação
de verdadeiro apartheid, em condomínios luxuosos,
cercados de cercas, câmeras e guardas por todos os
lados. As condições objetivas da segurança
pública se deterioram; por outro lado, cresce, exponencialmente,
a segurança privada: um mercado equivalente a 10%
do PIB brasileiro, bom somente para os 10% da população
que concentra 75% de toda a riqueza nacional.
-----------Enquanto
alguns formadores de opinião satanizam os moradores
das favelas e fazem do tráfico de drogas o bode expiatório
de todos os males sociais, os crimes de corrupção,
sonegação de impostos, contrabando e outros,
tão nocivos à sociedade, são praticados
com a complacência da sociedade e da justiça.
Os condomínios de luxo, os gabinetes de empresários
e políticos corruptos, onde tais crimes são
urdidos, não são alcançados pelos olhares
da polícia. Uma das polícias, diga-se de passagem,
mais violentas do globo.
-----------Nosso
sistema judiciário é um dos mais seletivos
e discricionários do mundo. Justiça punitiva
para os pobres; leniente, generosa e complacente com os
abastados.
-----------Enquanto
isso, as nossas prisões assistem a um aumento vertiginoso
de sua população: jovens, pobres e negros.
Vivem em condições desumanas e de aviltamento
da dignidade da pessoa e ao arrepio das leis. Impossível
que daí saiam cidadãos capazes de uma vida
construtiva na sociedade.
-----------Quando
a violência bate à porta da classe média,
o noticiário sai das páginas policiais e ganha
os horários nobres da mídia. Imediatamente
parlamentares de plantão e apresentadores inescrupulosos
e sensacionalistas propõem maior endurecimento das
penas. Equivocam-se ao defenderem que o recrudescimento
da lei reduz a criminalidade. Pensam que Justiça
se faz com o Código Penal, que no Brasil existe só
para os pobres. Vide as decisões do Supremo Tribunal
Federal em relação aos inúmeros crimes
praticados pelos poderosos.
-----------Não
fosse isso o bastante, assistimos hoje uma tendência
no Poder Público em criminalizar os movimentos sociais.
Mais uma vez se tenta silenciar a luta dos pobres com o
Código Penal.
-----------Políticas
públicas paternalistas transformam os miseráveis
em objeto de esmola, pela via de vários programas
ditos “sociais”. Os pobres deixam de ser sujeitos
de direitos e continuam a ser objetos de favores de políticos
bons de mídia e pouco comprometidos com a cidadania.
-----------Será
que a Igreja está disposta a lutar pela efetiva mudança
desse quadro?
-----------O
certo é que inúmeras iniciativas da sociedade
civil organizada e de movimentos sociais que lutam em defesa
de uma justa distribuição da terra e da renda
e pela efetividade dos direitos humanos abundam em nosso
país. “Justiça e paz se abraçarão”
(Salmo 85,1). Aqui reside a esperança.
(1) Pesquisador
do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança
Pública da UFMG (CRISP). E-mail: robson@crisp.ufmg.br
- Artigo publicado no Jornal Estado de Minas, em 22/02/2009