Eis o governo,
eis a sua justiça, eis a sua moral!
Por
Delze dos Santos Laureano(1)
frei Gilvander Moreira(2)
e José Luiz Quadros(3)
----------Ensinou
Proudhon que “o governo, sob o pretexto da utilidade pública
e em nome do interesse geral impõe ao povo ser submetido
à contribuição, utilizado, resgatado, explorado,
monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e
depois, à menor resistência, à primeira palavra
de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado,
maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado,
metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido,
traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado,
ultrajado, desonrado.” (4)
----------Nada
nos faz compreender melhor a força da indignação
expressa no texto de Proudhon senão sentindo na própria
pele, ou vendo debaixo do próprio nariz, o autoritarismo
e a truculência exercidos com tanta sofisticação
aqui mesmo no Estado de Minas Gerais. Entretanto, para a população
controlada, desinformada, despercebida, apressada, desinteressada,
despolitizada, ou detentora dos privilégios, o atual governo
do Estado de Minas Gerais ainda é visto como bom. A mídia
mostra resultados. Mas que resultados? Aliás, é
esse o discurso neoliberal mesmo: eficiência, resultado.
----------Contudo,
basta olhar bem para ver que os resultados mostrados ocorrem destruindo
iniciativas, atropelando a história, passando por cima
da legalidade, intimidando pessoas, ou o que é pior: medindo
os resultados conforme a medida pessoal dos técnicos do
governo. (Isso faz até recordar os 7 palmos de terra medida
da obra de João Cabral de Melo Neto.) A mesma morte e vida
severina revela que a arte e a cultura precisam ser controladas,
porque formam consciências. “Artista, essa é
a parte que te cabe neste latifúndio!” exclama, nas
entrelinhas, com ar de prepotência, um funcionário
do governo. “Se vocês pedirem perdão, poderemos
pagar um ano de aluguel para que o Circo de Todo Mundo volte a
funcionar”, arremata um emissário do governo.
----------A
fúria autoritária não se limita aos dados
econômicos. Como em todo governo antidemocrático
o alvo principal é a arte, a cultura e a educação.
É o controle ideológico das liberdades, da consciência,
das formas de expressão.
----------A
bola da vez foi a ONG Circo de Todo Mundo. Há 18 anos prestando
relevantes serviços à sociedade, o Circo que ocupava
um imóvel cedido em convênio pelo Estado, pertencente
à antiga FEBEM, no bairro do Horto, em Belo Horizonte,
teve praticamente destruído o seu espaço vital por
um trator, na noite do dia 27 de outubro (2008). Isso mesmo, à
noite e com o uso da força de mais de cem policiais militares.
Tudo sob a coordenação de uma funcionária
do Governo estadual. Esperaram passar os dois turnos da eleição
municipal para cumprir uma covarde liminar de reintegração
de posse.
----------Naquele
lugar, construído com esmero pela equipe do Circo de Todo
Mundo, eram atendidos crianças e adolescentes retirados
das ruas ou em situação de risco, antes excluídas
de qualquer oportunidade de acesso à cultura. Ali recebiam
educação circense e formação para
a cidadania, além de alimentação, reforço
escolar e acompanhamento humanitário. Para muitos jovens
foram criadas, e reconhecidas pela sociedade, efetivas oportunidades
de trabalho e renda, além das novas perspectivas de vida.
Vários adolescentes antes marginalizados, hoje são
artistas circenses graças ao trabalho do Circo de Todo
Mundo. “Sou gente graças ao Circo”, diz um
dos instrutores.
----------Qual
o motivo então da fúria destruidora do Governo estadual?
Por que um trabalho circense que está há dezoito
anos resgatando crianças e adolescentes do mundo da exclusão
incomoda tanto quem está no poder? Simplesmente porque
não se enquadrou no modelo imposto pelos “luminares”
da cultura que ocupam os cargos estratégicos no Governo.
Os adolescentes são vistos por esses técnicos mesmos
como mercadoria. Aulas de informática são a prioridade
para transformar gente em mercadoria, mão-de-obra barata
para ser triturada. A arte só pode ser ensinada se for
medida. Esse o discurso que inviabiliza qualquer tentativa de
negociação.
----------A
ordem que era de reintegração de posse foi cumprida
como ordem de destruição dos bens e de idéias.
Sequer foi garantido à ONG retirar os bens móveis
e documentos existentes no local. O oficial de justiça
impediu qualquer reação dos legítimos ocupantes.
----------Ficamos
todos perplexos com a falta de coerência entre as atitudes
dos mandantes e o discurso neoliberal que defende a participação
do Terceiro Setor na prestação dos serviços
públicos pelo Estado. A imposição de um pensamento
único, por aqui, impede na prática, com toda a sua
força, a participação da sociedade civil.
É a própria negação do princípio
fundamental do pluralismo político e da democracia participativa.
Todavia, o que nos faz incrédulos mesmo é a perversidade
e a sofisticação dos recursos utilizados. Os crimes,
travestidos de legalidade, repetem nesta pseudo-república,
com sede no Palácio da Liberdade, sob a inteligência
de um vice (doutor-administrador-gerente do Estado-empresa) com
o seu séqüito, a adoção das mesmas práticas
já vista na Primeira República.
----------Gemem
ainda os sertanejos de Canudos, rotulados jagunços e considerados
fanáticos porque desafiaram o poder dos militares e dos
coronéis. Por isso foram exterminados. Ousaram pensar e
agir diferente. A destruição do arraial não
foi uma medida tomada isoladamente pelo general (Artur Oscar)
ou pelo ministro da Guerra, mas representou uma decisão
governamental. Consta nos anais da história a fala de Prudente
de Morais: “Em Canudos não ficará pedra
sobre pedra, para que não mais possa se reproduzir aquela
cidadela maldita..., pois a ordem pública jamais será
impunemente perturbada no seio da República... ”(5)
Do mesmo modo em Minas, estamos sentindo na pele que não
basta sufocar, desmoralizar, inviabilizar, isolar. É preciso
destruir quem ousa discordar do projeto pessoal de quem é
amigo do rei.
----------Agora,
o que esperamos é apenas que seja feita justiça.
De outro modo podemos atestar o fim do Estado de Direito em Minas
Gerais. Podemos diagnosticar também uma apatia da sociedade
civil na luta pelo direito humano mais fundamental, a liberdade,
que pode ficar reduzida a um mero nome de palácio! Eis
o nosso governo! Eis a sua justiça! Eis a sua moral! Eis
a nossa república!
Belo Horizonte, 19 de novembro de 2008.
1)Mestre
em Direito Constitucional pela UFMG, professora de Direito Agrário
na Escola Superior Dom Hélder Câmara, em Belo Horizonte;
integrante da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares;
Procuradora do Município de Belo Horizonte; e-mail: delzesantos@hotmail.com
2) Mestre em Exegese Bíblica, professor
de teologia bíblica, assessor de CEBs, CEBI, SAB, CPT e
Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
3)Doutor em Direito Constitucional, professor
de Direito na UFMG e em várias outras universidades; e-mail:
ceede@uol.com.br
4)COSTA, Caio Túlio, O que é Anarquismo,
Ed. Brasiliense, São Paulo, 1985, p. 17.
5)VILLA, Marco Antônio, Canudos –
O Povo da terra, Ed. Ática, São Paulo, p. 201.