O mito da
tributação elevada no Brasil
MARCIO POCHMANN (1)
(Artigo publicado na FSP, 14/09/2008, Opinião,
p. 3)
----------As
especificidades do Brasil dificultam comparações.
Cabem duas observações que desconstroem o mito da
tributação elevada.
----------O
TEMA relativo ao peso dos impostos, taxas e contribuições
no Brasil permanece ainda sendo tratado na superfície.
A identificação de que a carga tributária
supera 35% do PIB (Produto Interno Bruto) é um simples
registro, insuficiente, por si só, para permitir comparações
adequadas com outros países. Ou seja, mencionar que o Brasil
possui carga tributária de país rico, embora se
situe no bloco das nações de renda intermediária,
ajuda pouco, quando não confunde o entendimento a respeito
das especificidades nacionais. Elas dificultam análises
comparativas internacionais e exigem maior investigação.
----------Por
causa disso, cabem, pelo menos, duas observações
principais que terminam por desconstruir o mito da tributação
elevada no Brasil.
----------Em
primeiro lugar, a observação de que os impostos,
taxas e contribuições incidem regressivamente sobre
os brasileiros. Como o país mantém uma péssima
repartição da renda e riqueza, há segmentos
sociais que praticamente não sentem o peso da tributação,
ao contrário de outros submetidos ao fardo muito expressivo
da arrecadação fiscal. Os ricos brasileiros quase
não pagam impostos, taxas e contribuições.
----------Os
10% mais ricos, que concentram três quartos de toda a riqueza
do país, estão praticamente imunizados contra o
vírus da tributação, seja pela falta de impostos
que incidam direta e especialmente sobre eles -como o tributo
sobre grandes fortunas-, seja porque contam com assessorias sofisticadas
para encontrar brechas legais para planejar ganhos quase ausentes
de impostos, taxas e contribuições.
----------Já
os pobres não têm escapatória, pois estão
condenados a compartilhar suas reduzidas rendas com o financiamento
do Estado brasileiro. Isso porque a tributação brasileira
é pesadamente indireta, ou seja, arrecada a maior parte
em impostos sobre produtos e serviços -portanto, pesa mais
para quem ganha menos.
----------Além
disso, há uma tributação direta, sobre renda
e bens, muito "tímida" em termos de progressividade.
O Imposto de Renda, que, nos EUA, tem cinco faixas e alíquotas
de até 40% e, na França, 12 faixas com até
57%, no Brasil tem apenas duas, com alíquota máxima
de 27,5%. Aqui, impostos sobre patrimônio, como IPTU ou
ITR, nem progressividade têm.
----------As
habitações dos mais pobres, por exemplo, pagam,
proporcionalmente à renda, mais tributos em geral do que
aqueles que residem nas mansões, enquanto os grandes proprietários
de terra convivem com impostos reduzidos e decrescentes. Aqueles
com renda acima de R$ 3.900 contribuem apenas com 23%. No entanto,
quem vive com renda média mensal de R$ 73 transfere um
terço para a receita tributária.
----------Em
síntese, a pobreza no Brasil não implica somente
a insuficiência de renda para sobreviver, mas também
a condição de pagar mais impostos, taxas e contribuições.
Em segundo lugar, a observação de que a carga tributária
corresponde à capacidade efetiva de gasto da administração
pública brasileiro, conforme comparações
internacionais indicam ser. No Brasil, a cada R$ 3 arrecadados
pela tributação, somente R$ 1 termina sendo alocado
livremente pelos governantes.
----------Isso
porque, uma vez arrecadado, configurando a carga tributária
bruta, há a quase imediata devolução a determinados
segmentos sociais na forma de subsídios, isenções,
transferências sociais e pagamento dos juros do endividamento
público. Noutras palavras, R$ 2 de cada R$ 3 arrecadados
só passeiam pela esfera pública antes de retornar
imediata e diretamente aos ricos (recebimento de juros da dívida),
às empresas (subsídios e incentivos) e aos beneficiários
de aposentadorias e pensões. Assim, o uso da carga tributária
bruta no Brasil se transforma num indicador pouco eficaz para
aferir o peso real da tributação.
----------Talvez
o mais adequado possa ser análises sobre a carga tributária
líquida, que é aquela que, de fato, indica a magnitude
efetiva dos impostos, taxas e contribuições relativamente
ao tamanho da renda dos brasileiros, pois é com essa quantia
que os governantes conduzem (bem ou mal) o conjunto das políticas
públicas.
----------Nesse
sentido, a tributação elevada é um mito no
Brasil. A carga tributária líquida permanece estabilizada
em 12% do PIB já faz tempo. O que tem aumentado mesmo são
impostos, taxas e contribuições que, uma vez arrecadados,
são imediatamente devolvidos, o que impede de serem considerados
efetivamente como peso da tributação elevada.
(1)Economista,
46 anos, professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro
de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), é presidente do Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada). Foi secretário do
Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São
Paulo (gestão Marta Suplicy). E-mail: pochmann@eco.unicamp.br