Supremo
decidirá futuro de reserva indígena invadida por
arrozeiros
Povos indígenas esperam justiça do Supremo na Raposa
Serra do Sol
(Reportagem do Jornal O CARRILHÃO, Ano
7, n. 46, agosto-outubro/2008, capa e p. 8)
----------A
longa e dolorosa luta dos povos indígenas da Amazônia
contra a crueldade dos invasores de suas terras pode ser concluída
ainda este mês, quando o Supremo Tribunal Federal (STF)
julga, em plenário, a Petição 3.388, que
contesta a demarcação contínua da Reserva
Raposa Serra do Sol. Chamada pelos índios de Nossa Terra-Mãe,
a reserva tem área de 1,7 milhão de hectares, foi
demarcada por decreto presidencial de 2005 e fica em Roraima,
no Norte do país, na fronteira com Venezuela e Guiana.
Nela vivem 18.992 índios macuxis, wapixanas, taurepangs,
patamonas e ingarikós, distribuídos em 194 comunidades.
Ocupa somente 7% do território de Roraima, estado que era
100% habitado por povos indígenas. Vinte e um habitantes
da Nossa Terra-Mãe já foram assassinados na disputa
pela demarcação das terras.
----------Para
o frei Gilvander Moreira, pároco da Igreja do Carmo (de
Belo Horizonte, MG), a afirmação de que a retirada
de seis rizicultores invasores da reserva vai comprometer a economia
local não é verdadeira, por ser de conhecimento
público que todos estão isentos do pagamento de
impostos ao estado até 2018, segundo a legislação
estadual. Na sua opinião, outra mentira é o argumento
de que os invasores mantêm muitos empregos, porque os trabalhos
nas lavouras são mecanizados, sendo a utilização
de mão-de-obra muito pequena.
----------Também
considera que o reconhecimento pelo STF da legalidade da demarcação
contínua não representa qualquer risco à
soberania nacional, pois, conforme estabelece a Constituição,
as terras indígenas são patrimônio da União,
destinam-se à posse permanente dos índios e lhes
cabe o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos
lagos nelas existentes. Ademais, ressalta que, na região,
existem três pelotões do Exército, localizados
em Normandia, Uiramuta e Pacaraima, “não havendo,
portanto, nenhuma ameaça à soberania brasileira.
----------As
dúvidas legais sobre a situação fundiária
da Raposa Serra do Sol se arrastam por mais de 30 anos. Embora
a reserva tenha sido homologada em abril de 2005, o sofrimento
dos povos indígenas continua: casas e pontes queimadas,
escolas destruídas, violência, devastação
ambiental e um ambiente de insegurança diante da presença
dos empresários invasores. Desde 2001, a Fundação
Nacional do Índio (FUNAI) realiza o levantamento das indenizações
a serem pagas por benfeitorias construídas pelos ocupantes
não-índios. Com esse procedimento administrativo,
a maioria trocou a terra por assentamentos do Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
No entanto, um pequeno grupo de grande poder econômico tem
resistido de maneira intransigente e violenta à saída
da área.
----------A
primeira cobertura jornalística após o decreto presidencial,
feita pela TV Band, é descrita como escandalosa, por frei
Gilvander: “Só falaram o então governador
Ottomar de Sousa Pinto, do PSDB (morreu no cargo, sendo substituído
pelo vice Anchieta Júnior), e os líderes dos arrozeiros,
todos contrários à demarcação. A reportagem
tentou apresentar a sociedade roraimense como refém dos
índios waimiris-atroaris, que fecham a passagem pela BR-174,
à noite, para proteger suas áreas de caça.
Nenhuma menção foi feita à contestada construção
da rodovia, durante a ditadura militar”.
----------O
jornalista Antônio Carlos Fon recorda que a abertura da
BR-174 é um dos episódios mais abafados, infames
e sinistros da história das Forças Armadas. Em 1968,
quando começaram a revolta contra a construção
da estrada, os waimiris-atroaris tinham população
estimada de mais de 6.000 índios - em 1974, haviam sido
reduzidos a menos de 500. Frei Gilvander entende que o episódio
mais infame dessa guerra, documentada por entrevistas gravadas
pelo padre Silvano Sabatini com índios wai-wais, waimiris-atroaris
e com sertanistas e relatadas no livro "Massacre"(Edições
Loyola, 1998) foi o bombardeio, com bombas químicas, pela
Força Aérea Brasileira(FAB), da maloca em que os
indígenas realizavam uma festa ritual. Nas lembranças
da tribo, o crime é definido como "maxki"(feitiço).
----------A
violência dos invasores, que já foram garimpeiros
e pecuaristas, sendo agora substituídos pelos arrozeiros,
não parou ao longo do tempo. Sempre cruéis, os ataques
às comunidades indígenas se repetem, atualmente
na tentativa de sustentar o argumento do lobby econômico
em defesa da divisão da reserva em ilhas, para garantir
a permanência dos produtores rurais que invadiram a área.
A história demonstra que os índios de Roraima têm
direito à demarcação de suas terras de forma
contínua. A homologação da Reserva Raposa
Serra do Sol de forma contínua precisa ser confirmada pelo
Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento previsto para o
dia 27 de agosto (de 2008).