Ocupação pelo direito à moradia: um belo horizonte

Frei Gilvander Moreira e Joviano Gabriel Mayer

1. Ocupação João de Barro I
----------Tudo começou na noite de 28 de abril de 2007, quando 200 famílias sem-casa desembarcaram de três ônibus abarrotados de gente, sonhos e esperança. Era o início das “Ocupações João de Barro I” que resgatavam em nome do pequeno pássaro o esmero e a bravura com que constrói sua própria morada com muita sabedora, tenacidade e perseverança.
----------Em um prédio de 15 andares inacabados, no Bairro Serra, em Belo Horizonte, que pertence à massa falida da ENCOL - e que se encontra há anos em situação de abandono - tais famílias moraram durante seis meses. As dificuldades não tardaram. Alguns vizinhos eram hostis. A polícia cumpria o papel de intimidação permanente dos posseiros. As escolas e os postos de saúde da região se negavam a atendê-los. COPASA e CEMIG também se recusavam a prestar seus serviços ignorando a requisição formal das famílias para obter água e energia. E o Judiciário, por sua vez, agia com eficiência para determinar o despejo forçado, mesmo inexistindo os requisitos legais para a concessão da liminar de reintegração de posse.
----------Ora, não há nenhuma razão para condenar as pessoas por não terem onde morar. Sobretudo quando elas se dispõem a mudar o atual estado de coisas em que a especulação imobiliária ganha força a despeito da função social da cidade. Isso sob o pano de fundo de uma política habitacional ineficiente e enganadora, nos moldes recomendados pelo Banco Mundial e pelo FMI.
----------Na Constituição de 1988 encontramos um sem número de preceitos que não se coadunam com a realidade fática das famílias urbanas sem teto. O art. 6º da CF/1988 prescreve o direito à moradia. Apesar disso, as autoridades públicas lavaram suas mãos e despejaram a “Ocupação João de Barro I”. Com as famílias sem-casa, biblioteca e cozinha comunitária foram para a rua...
----------Nem todos resistiram. A maioria das famílias voltou a morar de favor na casa de parentes ou amigos, ou retornaram para seus barracos em áreas de risco da periferia, ou ainda, no caso daquelas que auferiam alguma renda, voltaram a pagar o veneno do aluguel com seus parcos recursos. Das duzentas famílias que fizeram a primeira ocupação, trinta e cinco se dispuseram a continuar reafirmando, por meio das ocupações, o valor da vida humana que jamais deve ser negado em face do abuso do direito à propriedade. Assim nasce a “Ocupação João de Barro II”, onde vários anos atrás funcionava o Hospital Cardiocentro, na Pampulha, na capital mineira.

2. Ocupação João de Barro II
----------Antigas salas de cirurgia cederam lugar aos poucos móveis já surrados, adquiridos ao longo de toda uma vida de labuta. A área de espera das intermináveis filas do pronto-atendimento do hospital de 4 andares – abandonado - agora, era o cenário de Assembléias Populares, aulas de formação, reuniões das comissões de trabalho e confraternização com os apoiadores da ocupação. Não tardou muito e veio a reação dos poderosos, sempre partindo da insensibilidade e conivência do Judiciário mineiro. Em três meses, foi realizado o despejo.
----------A frustração foi redobrada. Os executivos municipal e estadual se recusavam a dialogar com as famílias a fim de buscar uma saída alternativa para o conflito. O futuro incerto dessa causa levou consigo o último ardor de coragem daqueles que há pouco gritavam: "Com luta, com garra, a casa sai na marra". No entanto, daquelas 35 famílias que fizeram do hospital abandonado seu novo lar, quinze não se renderam e decidiram, pela terceira vez, dar função social para mais um imóvel dentre os 75 mil que estão ociosos em Belo Horizonte, enquanto há mais de 50 mil famílias sem moradia (na capital mineira). Nasce a “Ocupação João de Barro III”, mais um capítulo da história dos excluídos da cidade.

3. Ocupação João de Barro III
----------Um fio de esperança surgia na vida das famílias que prosseguiram na luta. Elas descobrem que o novo lar, uma casa abandonada de uma das principais artérias da cidade – Av. Amazonas -, está seqüestrada pela Justiça Federal e, provavelmente, passará para os domínios da União. O imóvel, fruto de prática criminosa, pertence a uma quadrilha internacional desmantelada pela Polícia Federal em 2007. A máfia fabricava e vendia EMAGRESIM, droga para emagrecimento com substâncias que causam dependência química e psíquica, como anfetaminas. A proprietária do imóvel passou dois meses na carceragem da Polícia Federal e sua irmã, chefe da quadrilha, em razão de sua alta periculosidade, segue presa mesmo sem ter sido condenada.
----------Ao contrário do que pensavam as famílias, a reação foi mais drástica do que nas ocupações anteriores. O poder econômico da proprietária falou mais alto. O Judiciário, reconhecido por sua morosidade, agiu de modo muito suspeito, com extrema agilidade, o que impediu os advogados do movimento de recorrerem da decisão na instância superior. Enfim, famílias honestas, no pleno exercício do direito de morar, foram despejadas em benefício de quadrilha criminosa, sob o aval da Justiça e a omissão das autoridades públicas.
----------Tudo parecia perdido. Depois de tantos ataques os sem-casa provavelmente sucumbiriam à fúria dos poderosos. Mas, como diria Florestan Fernandes: “Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres”. E assim, reafirmando e fortalecendo a intransigência do(s)/ da(s) trabalhadores/ trabalhadoras sem-casa deste país, 90 famílias sem- casa, organizadas no Movimento de Moradia e pelas Brigadas Populares, ocuparam um terreno baldio na região do Barreiro, no dia 16 de fevereiro de 2008.

4. Ocupação Camilo Torres
----------O momento da entrada foi dramático. A polícia, como de costume, agiu com truculência, cercou a área impedindo a entrada e a saída de pessoas que traziam água e alimentos para os ocupantes. Um helicóptero pousou no centro do terreno com soldados fortemente armados. Mas nada disso foi suficiente para intimidar as famílias que ali mesmo começaram a fazer seus barracos de lona preta e madeirite.
----------A ocupação ganhou o nome de Camilo Torres, uma homenagem ao padre guerrilheiro da Colômbia que lutou e morreu em combate pela libertação dos pobres de seu país. Camilo Torres reafirmava sempre: "Não deporei as armas enquanto o poder não estiver totalmente nas mãos do povo”.
----------Hoje são 103 famílias, partilhando pouco mais de 10 mil metros quadrados localizados na Vila Santa Rita, no Barreiro, em Belo Horizonte/MG. Seis metros por dez metros de terra para cada família. Há ainda uma lista de espera com mais de 150 famílias sem-casa que não puderam ser contempladas na Ocupação Camilo Torres por falta de espaço, mas que estão dispostas a seguir seu exemplo. Faz-se realidade a canção de Victor Jará: “Onde morreu Camilo, nasceu uma cruz, não de madeira, mas sim de luz...”
----------No dia 18 de março de 2008, graças ao empenho dos amigos da Defensoria Pública Estadual de Direitos Humanos, foi possível rebater as falsas alegações do proprietário e obter o indeferimento da liminar de despejo contra as famílias. O Tribunal de Justiça ainda vai julgar em definitivo a Ação Possessória movida contra os ocupantes; enquanto isso, a comunidade Camilo Torres se fortalece. As decisões importantes da ocupação resultam de assembléias, que ocorrem duas vezes por semana, em um espaço em que todos mandam e todos obedecem. As famílias devem respeitar o regimento interno aprovado em assembléia e cumprir suas tarefas conforme a Comissão a qual pertencem: operativa, infra-estrutura, cozinha, limpeza, segurança. A formação política também é uma preocupação permanente: Conhecer para transformar. Enfim, por meio da organização e do comprometimento de cada um, as famílias da Camilo Torres buscam garantir sua vitória.
----------E o horizonte dessas famílias não se reduz à conquista da moradia. No último dia 1º de abril, por exemplo, uma comissão de vinte pessoas da ocupação foi à Pirapora fortalecer a luta contra a transposição do Rio São Francisco. Afinal, a causa dos sem-teto é, em última instância, a luta por um país mais justo e igualitário, onde não haja lugar para as arbitrariedades de nenhum governante.
Finalmente, cumpre acrescentar que essas ocupações não são apenas uma resposta ao "mau governo". Busca-se com elas construir novas formas de convivência, com valores de coletividade, cooperação, solidariedade, democracia. As ocupações são assim laboratórios de um mundo melhor, em que as famílias experimentam realizar hoje o projeto de mundo que queremos para nossos filhos, expurgando individualismos, egoísmos, despotismos.
----------Diante disso, assumimos o compromisso de estar juntos com as famílias sem-teto organizadas pelo Movimento Popular; afinal, num contexto em que a moradia é um luxo, ocupar é um direito. E ninguém pode tirar dessas famílias o direito de serem livres, de lutarem por sua dignidade, para que humanidade e justiça triunfem sobre a ganância e o poder.
----------No dia 11 de maio de 2008, Dia das Mães, a ocupação Camilo Torres era um grande canteiro de obras. Todas as famílias estavam empenhadas em construir seus barracos. Joelma, mãe de três filhos, com colher de pedreiro na mão, estava levantando seu barraco. Estavam se organizando para conquistar o dinheiro para comprar os canos necessários e fazer o saneamento na comunidade. A luta constrói a esperança! Vida longa à Ocupação Camilo Torres!

Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Joviano Gabriel Mayer, e-mail: jgmayer1@gmail.com

Belo Horizonte, 16/05/2008

 
 
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