Padre Josimo,
mártir da luta pela Reforma Agrária
Frei Gilvander Moreira
----------Após
tentativa de assassinato contra padre Josimo Moraes Tavares, no
dia 15 de abril de 1986, quando cinco tiros foram disparados contra
a Toyota dele, profundamente ameaçado de morte e de ressurreição,
incompreendido até por colegas padres e agentes de pastoral,
padre Josimo foi "intimado" a elaborar um relatório
de suas atividades e a esclarecer as circunstâncias que
levaram a tantas ameaças de morte contra ele.
----------Em
seu belíssimo Testamento Espiritual pronunciado durante
a Assembléia Diocesana de Tocantinópolis, MA, no
dia 27 de abril de 1986, poucos dias antes de seu assassinato,
dizia Josimo que sua morte estava anunciada, encomendada e prescrita
nos anais das correntes que desejavam ardentemente eliminá-lo.
Novos Anás e novos Caifás já o haviam julgado.
Mas Josimo se encontrava firme, pois havia assumido o seu trabalho
pastoral no compromisso e na causa em favor dos pobres, dos oprimidos
e injustiçados, impulsionado pela força do Evangelho.
Josimo declarou:
----------"Pois
é, gente, eu quero que vocês entendam que o que vem
acontecendo não é fruto de nenhuma ideologia ou
facção teológica, nem por mim mesmo, ou seja,
pela minha personalidade. Acredito que o porquê de tudo
isso se resume em três pontos principais.
- Por Deus ter me chamado com o dom da vocação sacerdotal
e eu ter correspondido.
- Pelo senhor bispo, D. Cornélio, ter me ordenado sacerdote.
- Pelo apoio do povo e do vigário de Xambioá, então
Pe. João Caprioli, que me ajudaram a vencer nos estudos.
"O discípulo não é maior do que o Mestre.
Se perseguirem a mim, hão de perseguir vocês também."
Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta pela causa dos
pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios.
Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a
seu favor? Eu pelo menos nada tenho a perder. Não tenho
mulher, filhos e nem riqueza sequer, ninguém chorará
por mim. Só tenho pena de uma pessoa: de minha mãe,
que só tem a mim e mais ninguém por ela. Pobre.
Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão
dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro
por uma justa causa. Agora quero que vocês entendam o seguinte:
tudo isso que está acontecendo é uma conseqüência
lógica resultante do meu trabalho na luta e defesa pelos
pobres, em prol do Evangelho que me levou a assumir até
as últimas conseqüências.
A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores
assassinados, violentados e despejados de suas terras. Deixando
mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem
lar. É hora de se levantar e fazer a diferença!
Morro por uma causa justa
(1).”
----------Mas
ele não imaginava que a morte viria tão cedo. Dia
10 de maio de1986 foi assassinado covardemente enquanto subia
as escadas do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz,
MA, onde funcionava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins.
Ainda teve forças para entrar no hospital andando.
----------Padre
Josimo era coordenador da Comissão Pastoral da Terra –
CPT - no Bico do Papagaio. O pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa
efetuou dois disparos com uma pistola de calibre 7,65. Para executar
Josimo contou com a participação de Vilson Nunes
Cardoso, que até hoje está foragido.
----------Em
1993, nova denúncia, apontou como mandantes do assassinato
de Padre Josimo, Geraldo Paulo Vieira, Adailson Vieira, Osmar
Teodoro da Silva, Guiomar Teodoro da Silva, Nazaré Teodoro
da Silva e Osvaldino Teodoro da Silva e João Teodoro da
Silva. Em 1998 Adailson Vieira, Geraldo Paulo Vieira (pai do Adailson)
e Guiomar Teodoro da Silva foram julgados e condenados. Os dois
primeiros foram condenados a 19 anos de reclusão e Guiomar,
a 14 anos e 3 meses. João Teodoro da Silva faleceu antes
de ser levado a julgamento. Geraldo morreu alguns meses depois
da sentença. Osmar Teodoro da Silva ficou foragido durante
anos, sendo capturado pela polícia somente em 2001, depois
de ter sido alvo do programa Linha Direta, na TV Globo. Em setembro
de 2003, ele foi condenado, por unanimidade, a 19 anos de reclusão.
----------Geraldo
Rodrigues da Costa, o executor do crime, foi condenado, em 1988,
a 18 anos e 6 meses de reclusão. Conseguiu fugir da penitenciária
por três vezes, mas, depois da última fuga, nunca
mais fora encontrado. Há informações de que
faleceu durante fuga após um assalto na cidade de Guarai,
TO.
Há dois anos atrás, Claudemiro Godoy do Nascimento,
no artigo “20 anos com Josimo”, recordava:
----------“Há
20 anos atrás, o Brasil vivia momentos de transformações
políticas e econômicas que dinamizavam o cenário
das relações políticas. Na região
do Bico do Papagaio a situação não se diferenciava.
Com o anuncio do fim do regime ditatorial havia uma rearticulação
política das oligarquias rurais na chamada Nova República.
A luta social se encontrava diante de fortes momentos de tensão
e conflito por parte de fazendeiros e trabalhadores rurais que
tinham na Igreja, na CPT, nos sindicatos e nos novos movimentos
sociais do campo uma esperança em ver realmente a Terra
partilhada para todos e todas. Josimo é a testemunha fiel
e nos ensina de que vale a pena dar a vida pela causa do Reino,
das comunidades e do povo. Sua morte significou o compromisso
assumido em denunciar as estruturas de morte alimentadas pelas
injustiças políticas de mandos e desmandos de uma
oligarquia rural que ousava (ou ainda ousa) se estabelecer no
poder da República. É neste sentido que Josimo se
torna o padre mártir da Pastoral da Terra ao selar com
seu sangue uma opção, um compromisso e um engajamento
na defesa dos oprimidos, em especial, os trabalhadores rurais.
Poderíamos relembrar os versos de Pedro Tierra escritos
por ocasião do martírio de Padre Josimo em maio
de 1986: Quem é esse menino negro /
Que desafia limites? / Apenas um homem. / Sandálias surradas.
/ Paciência e indignação. / Riso alvo. / Mel
noturno. / Sonho irrecusável. / Lutou contra cercas. /
Todas as cercas. / As cercas do medo. / As cercas do ódio.
/ As cercas da terra. / As cercas da fome. / As cercas do corpo.
/ As cercas do latifúndio.
----------Diante
de tanta fé e de uma teimosia do Reino inexplicável,
Josimo sentia-se fortalecido pela experiência de Deus, pois
se encontrava dentro do próprio Deus. Com certeza, Josimo
fez a experiência de Deus que somente os grandes místicos
da humanidade fizeram. Um homem que chega a ponto de saber que
terá seu sangue derramado em defesa dos pobres e pela causa
do Reino só pode ter tido a experiência concreta
do Deus que se fez gente entre os homens e mulheres.
----------Para
Josimo ser padre significava sentir a vida brotando como serviço
justo a Deus e aos pobres, sobretudo. Para ele, o culto, a eucaristia,
a teologia do sacrifício significava o agrado que fazemos
a Deus no serviço aos pobres, aos doentes e marginalizados
da sociedade. Percebemos nos escritos, nos poemas e nos registros
de Josimo uma profunda intimidade com sua opção
primeira, a saber: a Diakonia, ou seja, o serviço,
o estar sempre servindo aos mais necessitados. Necessitados do
Bico do Papagaio eram os trabalhadores rurais expulsos e espoliados
da terra pelos grandes fazendeiros locais e pelos políticos
ao estilo coronelista. Portanto, ser padre Josimo era ser Profeta
na Justiça, Pastor na Caminhada e Sacerdote humilde que
procurava oferecer a Deus oferendas justas. Josimo é a
própria oferta. Tornou-se um ofertório vivo para
nossas comunidades e para a construção do Reino.
----------Com
certeza, a memória dos 22 anos do martírio de Padre
Josimo nos traz à luz a experiência das CEBs –
Comunidades Eclesiais de Base -, da Igreja Povo de Deus, Igreja
Povo Novo enquanto sinal do Reino de Deus no mundo. Novos Josimos
só surgirão quando a Igreja novamente for sinal
vivo do Reino de Deus, quando estiver ao lado dos pobres e oprimidos,
dos fracos e perseguidos; quando denunciar as injustiças
e as opressões cometidas contra o povo; quando anunciar
a esperança, a fé, o amor e a alegria aos pobres.
----------10
de maio de 2008 são 22 anos com Josimo. Ele continua vivo.
Vivo nas memórias do povo, nas experiências dos educadores
populares, nos escritos da Teologia da Libertação
e no compromisso dos poucos agentes de pastorais que continuam
reafirmando o mesmo compromisso com o Reino, com a causa de um
novo mundo, com a justiça social e a solidariedade para
com os excluídos da sociedade. Vivo no martirológico
latino-americano, alternativo por excelência, sem nenhuma
ligação e reconhecimento por parte da estrutura
eclesial oficial. A história não pode perder a figura
de Josimo. Ele é importante na história porque promoveu
com o povo a história. Com Josimo, os dominados contam
suas histórias. Com Josimo, a história não
é na lógica da classe dominante. Com Josimo, os
dominados são os sujeitos históricos.”
----------O
nome de Padre Josimo está hoje em centenas de Acampamentos
de Sem Terra, em centenas de Assentamentos de Reforma Agrária
e em centenas de Comunidades Eclesiais de Base. Ele está
muito vivo e presente nos corações e na mente de
milhões de pessoas que lutam para que a Mãe terra
seja libertada das garras do latifúndio e partilhada com
milhões de sem-terra através de uma autêntica
reforma agrária.
----------Algumas
pessoas nos alertam perguntando: "Por que valorizar tanto
ou exclusivamente o martírio, o sofrimento...?" Devemos
ser criteriosos para não incentivarmos um martírio
voluntário. É claro que existem tantas pessoas que
de mil e uma formas, e não raro, mais eficientes e abrangentes,
dão testemunho, dinamizam a vida, atuam na cidadania e
constroem o bem comum. Não podemos também jamais
esquecer a memória dos inúmeros mártires
da caminhada. Ai de um povo que esquece os seus mártires.
(1)
LE BRETON, BINKA; Todos Sabiam, a morte anunciada do Padre Josimo,
Ed. Loyola, São Paulo, 2000, pp. 129-130
Belo Horizonte, 10 de maio de 2008,
22 anos com Pe. Josimo.
Frei Gilvander Luís Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br