RORAIMA:
um estado em pé de guerra
(Reportagem do Jornal Correio Brasiliense, 08/05/2008)
Reportagem do Correio mostra como
o conflito de terras envolvendo fazendeiros e índios tornou-se
parte do cenário de Roraima
----------Boa
Vista/Roraima - Roraima é um estado em pé
de guerra. De um lado, os quase 19 mil indígenas que exigem
a total desocupação da reserva Raposa Serra do Sol
por não índios. Do outro, seis grandes produtores
de arroz, pecuaristas, pequenos e médios fazendeiros, comerciantes
e moradores de dois municípios. Ontem, a Polícia
Federal prendeu o produtor de arroz, Paulo Cezar Quartiero, que
também é prefeito de Pacaraima. Ele foi acusado
de formação de quadrilha, ocultação
de armas e bloqueio de vias públicas. Segundo a PF, o fazendeiro
teria mandado seguranças de sua fazenda, localizada dentro
da reserva Raposa Serra do Sol, atirar em 10 índios que
tinham invadido a propriedade para instalar malocas. Esta é
a segunda prisão de Quartiero nesse episódio. A
primeira, há pouco mais de um mês, foi porque interditou
estradas da região. Por Leonel Rocha, Enviado Especial
do Correio Braziliense, 07/05/2008.
----------Imagens
feitas por um índio no embate da última segunda-feira
mostraram seguranças encapuzados disparando com armas pesadas
e arremessando bombas de fabricação caseira. O ministro
da Justiça, Tarso Genro, e o diretor geral da Polícia
Federal, Luiz Fernando Corrêa, sobrevoaram ontem a área
da Raposa Serra do Sol e pediram rigor na manutenção
da ordem. Liderados por Quartiero, presidente da associação
dos rizicultores, os fazendeiros contrataram um exército
de seguranças. Também construíram barricadas
nas porteiras das fazendas. Os não índios instalados
na região se recusam a deixar a área de 17 mil km²
definida pelo governo como território das tribos Macuxi,
Ingaricó, Wai-Wai, Patamona e Taurepang. Os índios
Yanomami vivem em outra reserva, na região oeste do estado,
já demarcada em 1992. Os líderes indígenas
garantem que já mobilizaram mais de 5 mil guerreiros para
a batalha pela reserva.
----------O governador
do estado, José de Anchieta Jr, esteve ontem em Brasília
e entrou com ação no Supremo Tribunal Federal solicitando
alteração no perímetro da reserva indígena
e a suspensão do decreto de demarcação da
terra em áreas contínuas ou não. O julgamento
do Supremo está previsto para junho. Na área rural,
a situação é de tensão. Por orientação
do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), organização
não-governamental ligada à Igreja Católica,
os índios decidiram não esperar a decisão
da Justiça e voltaram a ocupar as fazendas de arroz para
construir novas malocas. A tática de guerra reacendeu os
confrontos.
----------Bebida
----------A primeira
medida tomada pelos tuxauas para a “prontidão”
das 170 pessoas da comunidade do Barro foi a proibição
do consumo de álcool. Segundo a índia Ana Lúcia
da Silva, esse é um dos principais problemas enfrentados
nas aldeias. Outra queixa dela é sobre o índice
de doenças provocadas pelos trabalhadores não índios
contratados para as fazendas que estão prostituindo adolescentes.
“Fomos enganados com a promessa de trabalho. Os fazendeiros
não dão valor aos índios e o arrozal destruiu
a vegetação e acabou com os antigos remédios
naturais usados por nós”, protestou Ana Lúcia.
----------Os índios
também estão revoltados com o que chamam de grilagem
das áreas mais produtivas e o impedimento do acesso aos
rios e outras fontes de água com a instalação
de cercas pelos fazendeiros. Sem armas ou equipamentos adequados,
os indígenas apostam no conhecimento que têm da região
e em ações tipicamente de guerrilha para impedir
a permanência dos fazendeiros nas áreas. “Nós
não vamos recuar um centímetro da nossa terra. Vamos
lutar até o último índio”, avisa Ed
Alves, um dos guerreiros da Raposa Serra do Sol. Segundo o professor
Edinaldo Pereira André, um dos coordenadores da reserva,
nos últimos anos os fazendeiros ocuparam as áreas
onde eram encontradas caças e monopolizaram o acesso à
água.
----------Os tuxauas,
como são chamados os chefes indígenas, ameaçam
utilizar os próprios guerreiros para fazer cumprir a lei
que criou a reserva e a portaria que delimitou o perímetro
da área. Alguns índios tiveram treinamento militar
quando serviram o Exército como recrutas. Os da comunidade
do Barro, antiga Vila Surumu, na zona rural do município
de Pacaraima, assistem, irritados, à passagem das carretas
que estão retirando a safra de arroz . Na negociação
com fazendeiros e representantes dos governos e da Justiça
há alguns anos para a demarcação das terras,
os índios aceitaram deixar a cidade de Normandia, fora
do perímetro da reserva. Agora, não querem abrir
mão de Pacaraima e Uiramutã.
----------Prisão
----------Os arrozeiros
também estão irredutíveis. Eles não
aceitaram o valor da desapropriação oferecido pelo
governo federal porque consideraram muito baixo. Em Pacaraima,
por exemplo, cidade implantada nas reservas Raposa Serra do Sol
e São Marcos, o prefeito Quartiero, entrevistado pelo Correio
cinco dias antes de ser preso pela Polícia Federal, não
vê solução pacífica para o impasse.
“Para resolver o problema, só se o governo federal
instalar um crematório coletivo para acabar com a população
não indígena nas cidades que estão dentro
das reservas”, exagera ele. O arroz responde por 6% do Produto
Interno Bruto do estado (PIB). O produto é o principal
item da pauta de exportação de Roraima.
----------Com um
patrimônio de R$ 53 milhões e duas fazendas com 9,2
mil hectares, Quartiero contratou segurança privada equipada
com motos e caminhonetes que vigiam as plantações
e as sedes das propriedades. Para resistir aos índios,
os produtores rurais também utilizam um bem articulado
sistema de comunicação, com telefonia celular instalada
em postos das prefeituras nas zonas rurais. No portão da
fazenda Depósito, Quartiero construiu uma barricada digna
de uma guerra de verdade. “Os líderes indígenas
são ventríloquos de ONGs internacionais e manipulam
o resto da tribo. Também existem muitas autoridades envolvidas
no entreguismo do território”, acusa o fazendeiro.
A Funai e a Advocacia-Geral da União entraram com ações
no Supremo pedindo o desarmamento dos fazendeiros.
----------Os produtores
de arroz alegam que chegaram à região no início
da década de 1970 e compraram as terras de antigos fazendeiros.
Eles produzem hoje cerca de 160 mil toneladas do produto por ano
em uma área pretendida de 100 mil hectares, na borda sul
da reserva Raposa Serra do Sol, às margens do Rio Surumu.
A região é considerada a melhor em terras e com
maior facilidade para a utilização da água
na irrigação do arroz. A disputa por terras em Roraima
é apenas um dos motivos do conflito armado entre fazendeiros
e índios. A batalha principal, real e ainda surda, envolve
os mesmos personagens, as ONGs ambientalistas internacionais e
brasileiras, além das Forças Armadas, e tem como
foco de interesse a exploração dos minérios
estratégicos, as imensas fontes de água, o aproveitamento
das terras raras e a biodiversidade do monumental cerrado roraimense.
----------Atentados
recentes e recorrentes
----------O conflito
entre índios da Raposa Serra do Sol e fazendeiros é
recorrente. Em setembro de 2005 um grupo mascarado atacou e queimou
o Centro Indígena de Formação e Cultura,
que funciona há pelo menos três décadas na
comunidade do Barro. Na ocasião do atentado, segundo o
coordenador do curso José Sabino André, a sede de
uma antiga missão onde funciona a escola - no caso a biblioteca,
os dormitórios e o depósito de mantimentos - foi
incendiada e três missionários seqüestrados.
----------Em meio
às ruínas do antigo ataque, hoje o centro forma
60 estudantes por ano no curso médio e como técnicos
agrícolas com a ajuda de biólogos contratados fora
das aldeias. O lema dos indígenas da Raposa Serra do Sol
é “terra, identidade e autonomia”. As lideranças
querem transformar as aldeias em comunidades produtoras rurais
e com organização coletivista. “Nós
também temos experiência com gado e poderemos produzir
grãos até para exportação”,
argumenta o tuxaua Martinho Macixu Souza. Eles contestam o argumento
dos fazendeiros e do governo do estado de que a reserva é
muita terra para pouco índio. “Historicamente, a
terra sempre foi dos nossos pais e avós. Nós fomos
expulsos há muitos anos e agora queremos de volta o que
é nosso”, argumenta o professor Edinaldo Pereira
André, um dos coordenadores da comunidade Barro.
----------Os índios
também rejeitam a acusação, feita por setores
das Forças Armadas e dos fazendeiros, de que a reserva
colocaria em risco a soberania nacional com a demarcação
em terras contínuas e na fronteira com dois países.
Eles lembram que na mesma região existem pelotões
de fronteira nas cidades de Normandia, Pacaraima e Uiramutã,
além de unidades que vigiam as linhas demarcatórias
do país. O índio Cristovam Galvão Barbosa
lembra que foram as tribos do norte do país que ajudaram
o marechal Rondon a instalar os marcos das fronteiras brasileiras.
Ele acusa as autoridades e os fazendeiros de preconceito e racismo
contra os índios. Também se queixam de jornalistas
que, na opinião deles, visitam as malocas, mas não
relatam com precisão suas queixas. (LR)