TRANSPOSIÇÃO:
uma análise cartesiana (1)
Manoel Bomfim Ribeiro (2)
----------1)
Introdução
----------Este
trabalho mostra o quadro real da Transposição, como
tudo ocorreu desde o início e as razões subterrâneas
que levam à execução desta mega-obra que,
em nada, resolverá os problemas hídrico do Semi-Árido
brasileiro. Esta região já possui um grande manancial
de água construído pela tenacidade do homem do Nordeste.
É um grande cubo de 37 quilômetros cúbicos
de água armazenados nos milhares de reservatórios
espalhados por todos os quadrantes do Semi-Árido. Falta
apenas uma grande e potente rede de adutoras para levar esta água
a todos os recantos desta grande região. Esta rede já
começou, faltando tão somente dotações
e recursos para o aceleramento das obras. Estas adutoras independem
do canal da Transposição porque as águas
já estão acumuladas nos seus reservatórios.
----------Foi
no ano de 1820 que D. João VI, recebendo informações
históricas das secas arrasadoras do século XVIII,
mais precisamente da grande seca de 1777/1779, imaginou soluções
para amenizar o sofrimento das populações do Nordeste
brasileiro. Rios e riachos intermitentes, Jaguaribe, Piranhas,
Açu, Potí, Pirangí Acaraú, Curu, Vasa
Barris, Navio, tantos e tantos outros se assoberbavam com as chuvas
hibernais, indômitos e avassaladores, despejando, totalmente,
suas águas no Atlântico e não acumulando nenhuma
reserva para os meses subseqüentes. Para mitigar a sede das
populações que aumentavam a cada ano, fazia-se necessário
que estes rios fossem perenizados. Foi fácil para D. João
VI imaginar, com os poucos dados de que dispunha, perenizá-los
com as águas do fabuloso São Francisco, um rio imenso,
sem nenhum aproveitamento, navegação incipiente
e já coleando o próprio Semi-Árido. Fácil
construir um canal por gravidade, sem pensar na topografia e nas
diferenças de cotas, um verdadeiro Ovo de Colombo. O Governo
Imperial não falava em açudes, nem poços
tubulares, coisas lá do mundo oriental. Alguns fazendeiros,
entretanto, premidos pelas necessidades, foram tentando juntar
água, construindo barreiros e açudes aleatoriamente
na base da pura imaginação e de acordo com as condições
locais, sem nenhum plano executivo, mas os seus efeitos foram
tão prodigiosos para as populações circundantes
que estes foram se multiplicando e, ao alvorecer do século
XX, houve uma verdadeira correria da sociedade sertaneja para
construir açudes nas suas propriedades. Os grandes fazendeiros,
representantes do feudalismo rural, com mão de obra fácil
e disponível, começaram a aproveitar o rendilhado
dos riachos intermitentes, tão comum em todo o relevo do
Nordeste. Escolhiam, por intuição, as ombreiras
mais propícias para a construção artesanal
dos reservatórios e transportavam os materiais para barrar
a passagem do riacho, utilizando-se de 2, 3 ou 4 couros crus de
boi, emendados uns aos outros e arrastados por uma junta, também,
de boi, gradativamente, iam elevando o paramento da barragem com
boa largura, geralmente superdimensionada. Região de pecuária,
com o couro fazia-se tudo, portas, janelas, cadeiras, tamboretes,
camas, etc, Foi a Civilização do Couro, de que nos
fala Capistrano de Abreu. Os pequenos criadores procuravam imitar,
nos seus sítios e fazendolas, as represas que viam nas
grandes propriedades. Construíam barreiros, aguadas, algibes,
tudo sem nenhum planejamento, mas que juntava água. Aprenderam
também que o Sol era uma grande bomba de sucção,
secando as aguadas com muita rapidez. O jeito era afundar mais
a bacia do barreiro, isto é, dar mais profundidade à
obra, uma maneira intuitiva de salvar um pouco de água
sobre os danosos efeitos da evaporação.
----------2)
AÇUDES: suas funções
----------Quando
a sociedade ruralista se convenceu da importância do açude
como grande solução, retardando a viagem das águas
para o mar, sentindo os seus efeitos benéficos nas suas
propriedades, salvando o gado apesar das grandes estiagens e cada
fazendeiro assistindo os benefícios no seu vizinho, houve
uma verdadeira nucleação na construção
destes reservatórios. Um grande envolvimento surgiu nos
diversos setores da sociedade, nos órgãos oficiais,
prefeituras, governos de estado, governo federal, particulares,
todo mundo. O pool era construir açudes. Surgiram as firmas
empreiteiras e no princípio o trabalho era manual, na padiola,
no bangüê, tropas de jumentos equipados com caixotes
transportando materiais para a construção dos paramentos.
A compactação do maciço era feita com os
pés do próprio animal. Trabalho árduo, demorado,
mas constante. Depois e gradativamente os empreiteiros foram se
mecanizando com caminhões e tratores de lâminas.
Mais tarde surgiram as moto-screpers, motoniveladoras, touna-pool,
pé de carneiro, etc, firmas já totalmente mecanizadas.
Os açudes iam surgindo da noite para o dia, as técnicas
construtivas melhoravam a cada nova obra. Equipes de técnicos
vasculhavam o sertão pesquisando as pequenas bacias hidrográficas,
os riachos sazonais e intermitentes, determinando locais propícios
e com boas ombreiras para a construção de açudes.
Não era de boa gente quem não tivesse um bom açude.
Theófilo Guerra, profundo conhecedor do Semi-Árido,
dizia: “No sertão vale mais deixar à família
um bom açude do que um rico e belo palácio”.
Surgiram os açudes de Cooperação que consistia
numa participação entre o governo e o proprietário
da terra. Foi uma grande ajuda ao fazendeiro minimizando, sensivelmente,
os terríveis efeitos das secas. E os reservatórios
se multiplicaram e o Semi-Árido foi sendo pontilhado de
pequenos, médios e grandes pólos hídricos.
----------A
sociedade sertaneja acreditou, convictamente, no açude
e pressionou, com o exemplo no campo, o que o Governo devia fazer.
Cada açude construído era uma benesse, era uma salvação.
Naquele século em que a vegetação nativa
ainda dominava os campos, o gado era criado na solta e um bom
açude era uma grande proteção para a vida
na fazenda. Os políticos, representantes naturais da sociedade,
por sua vez, exigiam ações práticas do Governo
para a construção de reservatórios.
----------Por
determinação do Governo Imperial os engenheiros
da Corte foram requisitados, vieram outros de Portugal e os levantamentos
técnicos começaram a ser elaborados com estudos
topográficos, projetos em pranchetas, dimensionamentos
de volume e cálculos de estabilidade. A tecnologia na construção
de açudes se aprimorou, cálculos de índices
de evaporação, centenas de pluviômetros instalados
determinando os níveis de precipitação, estudos
de geologia para a seleção dos materiais mais argilosos
para uso nas paredes das obras, estudos de infiltração
e retenção das águas no solo, “run-of”,
isto é, o índice de escoamento das águas
de superfície nos talvegues dos riachos.
----------Deixamos
a Civilização do Couro e entramos na Civilização
do Açude.
----------Em
fevereiro de 1878 uma Comissão criada pelo Governo excursionou
por alguns estados do Nordeste, principalmente pelo estado do
Ceará e elaborou um minucioso relatório recomendando:
----------a)
A construção de ferrovias, o único meio de
transporte terrestre da época. Não se falava em
rodovias, não existia;
----------b)
A construção de 30 açudes, tendo cada um
a capacidade de acumular um milhão de metros cúbicos
de água;
----------c)
Instalação de estações meteorológicas;
----------d)
A construção de um canal para ligar o rio São
Francisco ao rio Jaguaribe.
----------3)
PERÍODO DOS GRANDES AÇUDES
----------Os
técnicos, à medida que dominaram os procedimentos
construtivos, criaram uma verdadeira emulação para
a execução de grandes açudes, procurando
competir com os maiores de mundo. Em 1936 foi construído
o açude Coremas, logo mais o Mãe D’água,
no estado da Paraíba, interligados entre si por um túnel
de 15 km, totalizando 1,4 bilhão de metros cúbicos
de água. Somente o Coremas com 720 milhões de m³
tornou-se o maior açude do continente Sul-Americano.
No ano de 1960 foi a vez do Orós no Ceará, interceptando
o rio Jaguaribe, no Governo JK, considerado o maior rio seco do
Mundo. Este açude acumula 2,5 bilhões de metros
cúbicos, mas com a válvula dispersora pode acumular
4 bilhões. Maior açude do Mundo.
----------No
ano de 1983, o ministro Mário Andreazza, o pai das grandes
obras, construiu, no Açu, Rio Grande do Norte, o açude
Eng. Armando Ribeiro Gonçalves, com capacidade de 2,4 bilhões
de m³, tornando-se o 2º maior açude do Mundo.
----------Em
2003 foi concluído e inaugurado o açude Castanhão
no rio Jaguaribe, inaugurado pelo presidente Lula e, disparado,
o maior açude do Mundo, acumulando 6,7 bilhões de
m³, volume equivalente a quase 3 vezes a Baia da Guanabara
e 44 vezes o Paranoá, o grande lago de Brasília
que ameniza a umidade atmosférica da Capital da República.
O Castanhão, orgulho da engenharia hidráulica nacional,
pode ser visto da lua e se um dia fossem distribuídas suas
águas por sistemas de adutoras atenderia toda a população
do estado do Ceará. A vazão total do Vale é
de 43,5m³/s.(100% de garantia). Numa mega e hipotética
distribuição de águas, o Castanhão
atenderia a população dos 3 estados que gritam pela
Transposição, Ceará, Rio Grande do Norte
e Paraíba e ainda sobraria muita água. Os canais
teriam uma quilometragem bem menor que os da Transposição.
----------E
foi assim, nesta grande corrida construtiva, que chegamos, ao
final do século XX, com o fantástico número
de 70.000 açudes (LARAQUE 1989) espacialmente espalhados
por todos os quadrantes do Semi-Árido brasileiro. Deste,
cerca de 60% são anuais, não suportam dois anos
sem novas chuvas, não podem estruturar uma propriedade.
São pequenas obras construídas no braço.
Cerca de 20% são plurianuais, suportando as secas normais
e não as excepcionais. Os restantes 20%, em torno de 14
a 15.000 açudes são interanuais suportando as grandes
travessias estivais, não secam jamais, apesar das grandes
secas que ocorrem a cada 26 anos (senóide de Fourier).
São os grandes açudes, com rigoroso aprimoramento
técnico e acumulando cerca de 80% das águas existentes
no Semi-Árido, algo em torno de 30 bilhões de m³.
Alguns, com hidrelétricas montadas e muitos outros com
projetos de irrigação. Na maioria são ociosos,
grandes espelhos evaporativos, “verdadeiros cemitérios
de água” de que nos fala o economista paraibano e
ex-ministro Maílson da Nóbrega, pouco aproveitados,
sofrem os drásticos efeitos da evaporação,
mas, anualmente se recuperam total ou parcialmente.
----------4)
A TRANSPOSIÇÃO
----------A
idéia, entretanto, de levar águas do São
Francisco para o Nordeste já estava implantada na cabeça
dos homens. Nada melhor do que ver todos os rios perenizados.
Os políticos, na sua grande maioria desejavam, lutavam
e lutam pela Transposição levados mais pelo simples
desejo, mas quase sempre sem nenhum embasamento técnico.
----------D.
João VI teve a inocente idéia de levar a água
por gravidade.
----------Em
1847 foi a vez do Intendente do Crato levar o problema à
Corte Imperial. A construção de açudes estava
começando. Em 1830 a Regência Trina autorizou e construiu
o açude Velho, excelente obra, no coração
de Campina Grande. Até hoje lá está ele prestando
seus serviços à comunidade.
----------Em
1856 o Governo autorizou os primeiros estudos da Transposição.
Em 1906 foi concluído o açude do Cedro no rio Sitiá,
afluente do Banabuiu do sistema Jaguaribe, acumulando 120.000.000
de m³ de água. Na grande seca de 1915 este açude
salvou milhares de vida oferecendo aos flagelados cerca de 270
toneladas de peixes. Tudo isto mostra a importância dos
açudes.
----------No
ano de 1912 o IFOCS fez os estudos preliminares da Transposição,
mas em 1913 o engenheiro Arrojado Lisboa faz uma palestra no Clube
de Engenharia do Rio de Janeiro se antepondo à obra. Foi
quando a construção de açudes mais ganhou
corpo. Em 1934 o IFOCS já tinha construído 114 grandes
açudes acumulando mais de 1 bilhão de m³. Observa-se
que em 1878 o Governo Imperial autorizou a construção
de 30 açudes com capacidade de apenas 1 milhão cada,
totalizando 30 milhões acumulados. Já estávamos
bem na frente.
----------Em
1981, o ministro Andreazza quis fazer a Transposição,
chegando a instalar um canteiro de obras em Rajadas, Petrolina-PE.
Conhecido pela audácia de executar grandes obras como a
Ponte Rio-Niterói (engenharia civil, concreto) e a Transamazônica
(engenharia rodoviária), faria a Transposição
(engenharia hidráulica) naquele período discricionário,
sem um grito de protesto. Faltou recursos, foi a chance perdida
da Transposição. Transposição agora
nunca mais. Exatamente no ano de 1981 O DNOCS(3)
já tinha construído 263 obras de açudagem
acumulando 12 bilhões de m³, todas bem projetadas
e com elevado índice de segurança.
----------Em
1994, o Ministério da Integração Regional
(ministro Aloísio Alves) fez um arranco querendo levar,
a qualquer preço, 300 m³/s do rio São Francisco
para o Nordeste Setentrional. Seria um outro rio amplamente navegável,
bem mais que o Tâmisa em descarga, o maior rio da Inglaterra.
O Tâmisa tem 346 km de comprimento. O canal do Aloísio
teria quase 1000 km, 3 vezes mais extenso. Perdeu-se pelo seu
hiperbolismo. Neste mesmo ano de 1994 a Secretaria da Presidência
da Republica autorizou à Sudene avaliar as reais necessidade
de recursos hídricos para o Nordeste. Nesta avaliação,
o PLIRHINE (Plano de Aproveitamento Integrado dos Recursos Hídricos
do Nordeste) concluiu que o Semi-Árido necessitará,
em 2020, de um consumo de água de 8 bilhões de m³/ano
para atender a todos os seus usos múltiplos, abastecimento
humano, dessedentação animal, indústria,
agroindústria e irrigação. Dentro do PLIRHINE
existiu o Programa de Fortalecimento da Infra-Estrutura Hídrica
do Nordeste que programou em 1994 mais 71 novos açudes
a serem construídos nas 4 unidades: Ceará 50, Rio
Grande do Norte 3, Paraíba 7 e Pernambuco 11, acrescentando
mais 12 bilhões de m³ ao já existente. Neste
ano de 1994 O DNOCS já havia construído 296 açudes
acumulando 17 bilhões de m³ de água e mais
622 açudes em regime de cooperação, acumulando
mais 2 bilhões de m³, totalizando já 19 bilhões
de m³, volume muito além das reais necessidades do
Semi-Árido brasileiro.
----------No
ano de 2001, uma consulta ao BIRD feita pelo Ministério
da Integração Nacional sobre empréstimo para
a Transposição, recebeu uma resposta negativa, aconselhando
aquele banco que se fizesse primeiro o aproveitamento das águas
já existentes no Semi-Árido. Um bolo de palmatória.
Por esta razão esta mega obra não possui recursos
externos.
----------A
partir de 2004 é a história que conhecemos. Houve
muita discrepância de projeto quanto aos volumes a transportar.
De 300m³/s mudaram para 260, 145 127, 64, 26, e por aí
vão. Uma total incerteza do que pretendem, uma falta de
análise aprofundada. O mais recente é transportar
64m³/s, mas a estrutura concebida e projetada é para
127m³/s, ou seja 2,1 bilhões de m³/ano. Vale
lembrar que numa só noite chuvosa, com precipitação
de 70 mm num terço do Semi-Árido (300.000 km²)
desabam sobre esta superfície exatamente 2,1 bilhões
de m³ de água, o volume que querem levar com tanto
trabalho e despesas. Isto é realidade, não é
sofisma. No meu livro, recentemente publicado A POTENCIALIDADE
DO SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO, detalhamos os caminhos
das águas que irão ser transportadas pelos canais.
Irão ser despejadas em 8 açudes que já detêm
13 bilhões de m³ de água nos seus bojos. O
total, entretanto, que o Semi-Árido já acumula é
de 37 bilhões de m³ de água, que, segundo o
Governo, não resolveram o problema hídrico da região.
Agora, entretanto, vai ser resolvido com 2,1 bilhões. Tenham
a santa paciência! Isto é uma afronta aos técnicos
do País, uma total falta de respeito aos engenheiros do
Brasil. Até o leigo, até o analfabeto não
entende porque 2,10 bilhões de m³ vão abastecer
12 milhões de habitantes e os 37 bilhões não
abastecem. Ridículo.
----------Fala-se
na sinergia, uma soma de forças concorrentes para otimizar
aproveitamentos, no caso os recursos hídricos em questão.
Isto quer dizer que toda a água dos açudes pode
ser consumida porque vem mais. Ocorre que o acréscimo vindo
da Transposição não cobre nem a evaporação
dos açudes em questão. Para se ter uma idéia,
se os 2,10 bilhões fossem totalmente direcionados só
para o Castanhão, apenas compensaria a evaporação
deste mega açude que é, igualmente, de 2,10 bilhões
de m³/ano. Nada mais, esta é a Transposição.
----------Não
fizemos nenhuma abordagem sobre as águas subterrâneas
do Semi-Árido que ocupam um grande maciço sedimentar
de 30% da sua superfície. São 135 bilhões
de m³ de água armazenados no seio da terra e, ainda,
quase nada explorados. Haja água!
----------5)
OBRAS INCONCLUSAS
----------Uma
nova mega-obra, a Transposição, se desenha nos céus
do Nordeste brasileiro. É oportuno fazer um retrospecto
das inúmeras outras obras que foram iniciadas para benefício
desta grande região e, logo após, simplesmente,
abandonadas, inconclusas e sem ter culpados. São geralmente
abandonadas pelos desígnios de Deus e nunca pela culpa
dos governantes. Não há culpados a responder e assim
vai o nosso Semi-Árido, na sua imensa grandeza, sendo visto
pelo Governo apenas como um incômodo à sua administração.
A arrancada inicial é sempre explosiva e hiperbólica,
um grande banho de esperanças mil sobre os sertanejos desiludidos.
Nós, matutos, já vemos tudo com natural desconfiança.
Em seguida, logo mais, os recursos orçamentários
são contingenciados, as obras interrompidas e o Governo
bate em retirada sem nenhuma cerimônia. Novas prioridades
surgem, aquelas outras são esquecidas. Não precisamos
chegar às gerações futuras para vê-las
abandonadas, a coisa é rápida e tudo ocorre dentro
da nossa própria geração. Os fracassos são
crônicos, sucessivos e acumulativos.
----------Para
se ter uma real dimensão deste descalabro administrativo
vamos aos fatos, que escandalizariam a qualquer governante de
um país europeu. Relacionamos abaixo 21 obras inconclusas
e abandonadas no Nordeste, mas o número é bem superior,
vejamos.
----------Estado
do Piauí:
Tabuleiros Litorâneos – Projeto de Irrigação
de 7.244 hectares. Teve início em 1987;
Platô de Guadalupe - Projeto de Irrigação
de 13.817 hectares;
Vale do Gurguéia - Projeto de Irrigação de
12.000 hectares;
Açude Petrônio Portela-Adutora do Garrincha (Abastecimento);
Açude do Genipapo - Adutoras (Abastecimento);
Adutora do Estreito;
Adutora do Sudeste -1999;
Barragem do Rangel –1998;
Barragem dos Piaus – 2002;
Barragem do Castelo -1988;
Adutora do Algodão;
----------Estado
do Ceará:
Baixo Acaraú - Projeto de Irrigação de 5.950
hectares;
Tabuleiro de Russas - 2ª etapa - Projeto de Irrigação
de 10.666 hectares;
Araras Norte - 2ª etapa Projeto de Irrigação
de 1.649 hectares;
Jaguaribe-Apodi - 2ª etapa Projeto de Irrigação
de 2.500 hectares;
Barragem do Cedro – Projeto de Irrigação de
2.350 há (Ano 1906);
Barragem do Castanhão - Projeto de Irrigação
de 43.000 hectares - Abastecer Fortaleza e mais 10 cidades. -
Geração de energia - 3.800 T/ano de pescado;
Barragem Paulo Pessoa Projeto de Irrigação de 3.500
hectares (1991);
Barragem do Taquara;
Barragem do Granja - 45 anos - Iniciado em 1962;
Barragem Trussu-Iguatu;
Barragem Aurora-Rio Salgado;
----------Estado
de Pernambuco:
Barragem Serra Talhada - Projeto de Irrigação de
5.000 hectares;
Adutora do Oeste - Abastecimento de 43 localidades - 230.000 hab.
- 721 km partindo do rio São Francisco;
Adutora Jucazinho – Abastecimento de Caruaru e mais 18 cidades
- 700.000 hab. Parte do açude Antônio Gouveia;
Adutora do Agreste;
Projeto Itaparica - Irrigação - 20.000 hectares
- Reassentamento 30.000 habitantes na margem do rio - 20 anos;
Orocó - Canal de Irrigação e Abastecimento;
Barragem Umburanas em Boa Vista - (amontoado de concreto);
Açude do Rosário - Município de Iguaraci
– Irrigação;
Moxotó - Perímetro Irrigado - Açude Poço
da Cruz -Ibimirim - Salinizado (1976);
Custódia - Antigos canais de Irrigação;
Adutora do Pajeú – (com tomada em Itaparica);
Pontal - Projeto de Irrigação de 10.000 hectares
em Petrolina;
----------ESTADO
DA PARAÍBA
Canal da Redenção
- 37 km - Projeto de Irrigação Várzea do
Sousa - 5.000 hectares - Iniciado em 1998 a partir de Coremas.
Forte questão política;
Projeto de Irrigação São Gonçalo de
3.000 hectares, mas só implantou 1.500 hectares.
----------6)
CONCLUSÃO
----------Este
é o quadro geral das obras abandonadas e inconclusas no
Nordeste brasileiro, uma vergonha e uma afronta à sociedade
nordestina que grita por obras estruturais para o seu desenvolvimento
pleno. Se os projetos de irrigação estivessem concluídos
teríamos mais 300.000 hectares irrigados gerando quase
dois milhões de empregos e produzindo cerca de 15 milhões
de toneladas de produtos agrícolas por ano, uma grande
riqueza para a nossa região. Além do mais estes
300.000 hectares são uma geratriz de grande efeito multiplicador.
Surgem cidades, vilas, escolas profissionalizantes, universidades,
hotéis, indústrias, comércio especializado,
supermercados e tudo mais que exige uma nucleação
popular.
----------A
indústria das secas é um fato inerente à
vida política da região nordestina tendo como carro
chefe o caminhão-pipa a desfilar pelos nossos sertões
sequiosos, onde o chefe político exerce o seu poder sobre
a água. Esta indústria vem em um crescendo constante
com obras de todos os tamanhos, açudes, canais, adutoras,
irrigação, obras inconclusas.
----------Agora
é a vez da Transposição, obra inócua
e desprovida de significado, pois que o Nordeste setentrional,
penhoradamente, agradece e dispensa as águas do rio São
Francisco, por total e absoluta falta de necessidade, uma vez
que já acumula, somente nos 8 grandes açudes, 13
bilhões de metros cúbicos de água, (5 vezes
e meia a baia da Guanabara), exatamente os 8 açudes plurianuais
que irão receber os magros 2 bilhões/m³ anuais
(127m³/s) aduzidos do canal da Transposição.
A evaporação anual dos 13 bilhões é
da ordem de 4 bilhões, o dobro da água que vai chegar
do rio. Uma irrisão.
----------Mais
ainda, os 3 estados mais ávidos por mais água, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Ceará já acumulam nos seus
imensos reservatórios 26 bilhões de metros cúbicos,
70% das águas reservadas no Semi-Árido brasileiro,
11 vezes as águas da baia da Guanabara. Pela vulnerabilidade
deste grande Projeto, numa análise cartesiana, somos levados
a pensar que ele não resistirá a uma travessia administrativa
e pode morrer na praia.
----------Até
mesmo o Coordenador Geral da Transposição, Rômulo
Macedo, ilustre e ilustrado engenheiro, receia que, faltando continuidade
administrativa como soe acontecer, esta obra se transforme numa
Transamazônica (ISTO É nº 1964), que, como todos
sabem, é uma vergonha nacional.
----------Os
dados apresentados aqui são reais, são verdadeiros
e nem podiam deixar de ser. Os técnicos sabem e conhecem,
mas são áulicos do Governo. O então governador
do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda já dizia: “O técnico
é um profissional fundamental para o desenvolvimento de
um país, mas se torna de alta periculosidade quando está
a serviço do Governo, porque deixa de defender soluções
para aplaudir posições”.
----------Ainda
é tempo para reflexões, afim de que esta obra, em
breve, não venha a ser o grande Complexo Industrial das
Secas e se transforme no grande elefante do reino de Sião,
ou seja, o maior elefante branco da América do Sul.
(1)Artigo publicado no CADERNO
CEAS 227, Especial Rio São Francisco, Dezembro 2007.
(2)Engenheiro civil, com especialização
em Geologia e hidrologia; ex-diretor do DNOCS; ex-secretário
geral do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia;
ex-diretor da CODEVASF; ex-consultor da OEA – Organização
dos Estados Americanos; conselheiro da Fundação
Franco-Brasileira de Pesquisa e Desenvolvimento (FUBRÁS),
membro do Instituto do Sol, cidadão honorário em
27 municípios do Semi-árido. Autor do livro A Potencialidade
do Semi-árido Brasileiro (O Rio São Francisco: Transposição
e Revitalização, uma análise), Brasília,
2007. “Livro imprescindível para compreender o Semi-árido,
seu povo, sua riquíssima biodiversidade e uma imensa riqueza
cultural”, diz Dom Cappio. O e-mail de Manoel Bomfim é:
manoel.bomfim@terra.com.br
(3)Departamento Nacional de Obras Contra a Seca.
Manoel Bomfim Ribeiro, e-mail: manoel.bomfim@terra.com.br