Uma visão sobre
Cuba
Dirlene Marques (1)
----------Participei
de um grupo de mineiros que esteve em Cuba do dia 20 de janeiro
a 5 de fevereiro de 2008, nas Brigadas de Solidariedade. A carta
renuncia de Fidel e os comentários da imprensa e das diversas
pessoas que encontro, me levaram a escrever este texto, considerando
o que vivi, vi, ouvi, observei e estudei.
----------Como
todas (os) brasileiras (os), influenciadas (o) pela intensa propaganda,
fomos a Cuba procurando a miséria e a ditadura. E, no nosso
subconsciente, o povo deveria ser muito passivo e muito bronco,
para manter uma ditadura de 49 anos.
----------E
o que encontramos? Tivemos um choque pois encontramos um povo
com um nível cultural bem acima da media do povo brasileiro.
Tivemos liberdade de ir e vir, de bisbilhotar, entrar em todos
os lugares e de conversar com todos. Alias, ate de forma muito
invasiva, entravamos nas casas, nas escolas infantis, nos n
museus. Procurávamos crianças e adultos de pés
no chão, mendigando, dormindo debaixo de marquises, casas
miseráveis. Só então entendemos a verdade
do outdoor próximo ao aeroporto: “Esta noite,
200 milhões de crianças dormirão nas ruas
do mundo. Nenhuma e cubana”. Outro: “A cada ano, 80
mil crianças morrem vitimas de doenças evitáveis.
Nenhuma delas e cubana”. E nos sabemos que milhares delas
são da 8a. economia do mundo, a brasileira.
----------Além
disto, chegamos um dia apos o encerramento do processo eleitoral,
com a eleição do Parlamento, eleição
não obrigatória que teve 95% de participação.
E, para nossa surpresa, ficamos sabendo que o Partido Comunista
Cubano não e uma organização eleitoral e
portanto não se apresenta nas eleições e
nem postula candidatos. Os candidatos são tirados diretamente,
em assembléias publicas nas diversas formas de organizações
existentes: do bairro, das mulheres, jovens, estudantes, campesinas.
Que depois vão se reunindo por região, estado e
finalmente, no nível nacional. Estes representantes nacionais,
elegem o presidente e o vice. Todos os representantes podem ser
destituíveis, a qualquer momento, pelas suas bases, caso
não estejam respondendo ao projeto de sua eleição.
E vimos como 46% dos eleitos são mulheres (no Brasil conseguimos
as cotas de 30% para disputar e não eleitas). As estruturas
de funcionamento são mais próximas de uma democracia
direta. Parece-me um contra-senso chamar este processo de ditadura.
Seguramente, e diferente da democracia burguesa, onde apos colocar
o voto na urna finda a obrigação do eleitor. Os
críticos valem-se da mágica de que “o que
e bom para os EUA e bom para o resto do mundo”. Desconhecem,
e não querem que seja conhecido, outro processo de participação
popular, como o Cubano.
----------Tentando
também entender o que víamos, um povo simples e
culto, simpático e sem stress, procuramos estatísticas:
alfabetização de 99,8% (no Brasil 86,30%) e que
de 1959 a 2007, a quantidade de escolas passou de 7.679 a 12.717,
os professores passaram de 22.800 para 258.000, com uma população
em torno de 11 milhões de habitantes sendo o pais que o
maior índice de professores por habitante do mundo. No
IDH 2007 da ONU, o Brasil comemorou o fato de figurar em 70º
lugar. Cuba figura em 51º lugar. O país conta com
70.594 médicos para uma população de 11,2
milhões (1 médico para 160 habitantes); índice
de mortalidade infantil de 5,3 para cada 1.000 nascidos vivos
(nos EUA são 7 e, no Brasil, 27); 800 mil diplomados em
67 universidades gratuitas, nas quais ingressam, por ano, 606
mil estudantes. Dados da Unesco em 2002 relatavam que 98% das
residências cubanas possuíam instalações
sanitárias adequadas (contra 75% das brasileiras). Dados
da CIA, central de inteligência americana, estimava em 1,9%
o desemprego em Cuba. No Brasil , segundo a mesma fonte, o índice
era de 9,6% no ano de 2007. E que, a expectativa de vida ao nascer
na ilha era de 77,41 anos e no Brasil era de 71,9 anos.
----------Esses
números a despeito de ser uma pequena ilha, ao alcance
de um tiro de canhão disparado de Miami e que resistiu
a uma tentativa de invasão norte-americana (Baía
dos Porcos, 1961) e a várias outras de assassinato de Fidel
Castro e ações terroristas orquestradas pela CIA,
ter um bloqueio econômico e político apenas rompido
por países com autonomia como Venezuela, Bolívia,
China e alguns paises da Europa.
----------E
nos, com a arrogância de quem tem toda a informações
pela imprensa livre brasileira (sic) continuávamos procurando
outros sinais de desmandos: e os presos políticos?
De fato, há pessoas detidas, mas não pelo que pensam,
mas pelo que fazem, como o de organizar grupos financiados pela
embaixada dos EUA. Fora isso, todas as personalidades importantes
da dissidência estão em liberdade e tem suas atividades
políticas como Martha Beatriz Roque, Vladimiro Roca e Oswaldo
Paya. E importante ressaltar que Cuba sofreu intensamente com
o terrorismo nos últimos 40 anos, perfazendo mais de 3500
mortos. E, fica fácil mostrar a postura dos EUA com documentos
oficiais, confirmando o financiamento de cubanos exilados para
promover ações contra o governo cubano. O museu
na Praia Giron (ou Baia dos Porcos), e um monumento de denuncia
as ações terroristas, iniciadas desde 1961 quando
o se rompe às relações e se instaura o bloqueio.
Em 1963 o democrata Kennedy, aprova o plano de manter todas as
pressões possíveis com o fim de perpetrar um golpe
de Estado. E, sabemos quantas vezes, ao longo destes anos, tentaram
matar Fidel Castro, obrigando-o a sequer ter uma residência
fixa. Nos anos 90, a Lei Torricelli reforça o bloqueio
econômico e, na seção 1705 diz que “Os
Estados Unidos proporcionara assistência governamental adequada
para apoiar a indivíduos e organizações não
governamentais que promovam uma mudança democrática
não violenta em Cuba”. Esta lei vai ser reforçada
na administração de Clinton, pela lei Helms-Burton
quando diz: “O presidente dos EUA esta autorizado a proporcionar
assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos
e organizações não governamentais independentes
com vistas a construir uma democracia em Cuba”. E, o governo
Bush não podia ficar atrás e, em 2004 aprovou um
financiamento de 36 milhões de dólares para financiar
a oposição a Cuba, em 2005 mais 14,4 milhões
de dólares, em 2006 mais 31 milhões de dólares
alem do financiamento de 24 milhões de dólares para
a Radio e TV Marti, transmitida dos EUA para Cuba neste caso,
infligindo a legislação internacional que proíbe
este tipo de transmissão. Estes valores são fantásticos
-105,4 milhões em apenas 3 anos.
----------Outra
dificuldade e entender o funcionamento da economia cubana. Logo
apos a revolução faz-se uma ampla reforma agrária,
instalando uma via muito particular no campo, onde de um lado
manteve alguns proprietários privados, como o de tabaco,
e de outro, constituindo cooperativas voluntárias ao lado
das propriedades estatais. O setor serviços foi todo ele
estatizado. Apos os anos 90, com as dificuldades dada pela intensificação
do bloqueio e com o fim da União Soviética, foi
feita uma grande abertura para entrada do capital internacional
no setor turismo, sem desconhecer o risco que isto poderia acarretar.
O setor de transformação, inicialmente todo ele
estatizado, hoje tem tido parcerias.
----------Com
o nosso olhar de classe media, que podemos fazer uma viagem internacional,
nos chocava alguns problemas com a vida cotidiana como habitações
pobres, transporte publico precário, limitações
econômicas para se ter ate papel higiênico (isto deixava
a todos pensando, pobrezinho dos cubanos). Isso é
verdadeiro, alem destes problemas da vida cotidiana, vários
outros nos foram apresentados pelo secretario do partido comunista,
que fez uma palestra para os brigadistas: o aumento da prostituição,
dos pequenos delitos, da corrupção e da desigualdade
social. Quando se investiu no turismo e posteriormente, com a
criação da moeda turística (o peso conversível),
cresce de um lado a entrada de divisas e de outro, possibilitou
um rendimento, para os trabalhadores destes setores, acima do
restante da população, ocasionando um aumento da
desigualdade social. Afirma ele que vivem numa quádrupla
ilha: geográfica; única nação socialista
do Ocidente; órfã de sua parceria com a União
Soviética e bloqueada há mais de 40 anos pelo governo
dos EUA. E buscando respostas coletivas para estes problemas,
desencadearam um processo interno de críticas e sugestões
à Revolução, através das organizações
de massa e dos setores profissionais. São mais de 1 milhão
de sugestões que pretendem trabalhar, mas mantendo os princípios
do socialismo: solidariedade e não a competitividade, o
coletivo e não o individualismo.
----------Mas,
para nos brasileiros de classe media (somos quantos? Depende da
estatística mas varia de 5 a 10%), que podemos fazer uma
viagem internacional e que não conhecemos a realidade dos
90% do povo brasileiro que não tem como pagar um plano
de saúde, que tem pouca alimentação, que
fica com os restos do desperdício dos 10%, com uma educação
precária, e difícil entender a lógica econômica
de uma sociedade voltada para os 100% da população.
E ficamos horrorizados por eles não terem papel higiênico.
Mas não nos deixam horrorizados que tenham bibliotecas
e livrarias em toda escola e em toda cidadezinha. Ou que tenham
acesso à saúde e educação da melhor
qualidade, habitação com saneamento e aparelhos
eletrodomésticos novos para economizar energia. Ou, que
não tenhamos encontrado erosão por todos os lugares
que andamos.
----------E
a busca do conhecimento? E as escolas? Como e possível
ver os círculos infantis, crianças de 1 a 4 anos,
assentadas ouvindo historias, sem a professora estar gritando,
mandando ficarem quietas? E ver os portões destas escolas
abertas e as crianças não fugirem? Como e possível
não ter o stress que, temos em nossas escolas? E, conversando
com as crianças do pré-escolar e do escolar (5 a
11 anos), ficávamos surpresas com as perguntas cheias de
inteligência e informação sobre nosso pais,
que faziam aquelas pequenas crianças? E, como nos permitiam
entrar nas salas de aulas, fotografar, bisbilhotar as bibliotecas
onde encontrávamos livros de Marx a Lênin, de Jorge
Amado, Machado de Assis, a Shakespeare. Imagine isto aqui no Brasil?
Ficávamos encantadas. Eu, como professora da UFMG, tida
como uma das melhores do Brasil, me encantava com aquelas bibliotecas.
E as livrarias? Na pequenina Caimito onde ficava o acampamento,
literalmente invadimos uma livraria, comprando
tudo quanto e tipo de livro, pela sua qualidade e pelo preço
(comprei um livro do Boaventura de Souza Santos por 8 pesos cubanos
– que equivale mais ou menos a R$ 0,50 -, outro do Che Guevara
sobre Economia Política de 397 págs. por 22 pesos
cubanos, portanto em torno de R$ 1,40 (e dai para frente).
----------E
o investimento na potencialidade do ser humano não pára
ai. O desenvolvimento das artes – dança, pintura,
musica, poesia, desportos – e encontrado em cada escola,
em cada esquina, em cada cidade.
----------E
claro que também tivemos as frustrações no
contato com algumas pessoas, especialmente em Havana onde impera
o espírito da cidade turística, onde se busca sempre
ganhar alguma coisa, passar a perna, apenas diferenciando pela
intensidade dos problemas, com as nossas cidades turísticas
como Rio de Janeiro. Só que e mais ingênuo, meio
estilo anos 60. De todo jeito, frustrante. Também nos entristeceu
encontrar tantos cubanos sonhando em sair da ilha, acreditando,
por exemplo, que o Brasil é um paraíso, visão
que tem através das telenovelas (que todos assistem). E
assim, uma sociedade muito diferente que nos estimula e atrae.
Alias, nada melhor para expressar isto do que a crônica
do Clovis Rossi (O “pop star” se aposenta)
do dia 20 de fevereiro na Folha de São Paulo contando o
episodio de um encontro do GATT, que contava com a presença
dos chefes de estados, diferentes autoridades mundiais e jornalistas
de todo o mundo. ----------Onde
o burburinho na sala do encontro e na sala dos jornalistas era
enorme, com a atenção dispersa. Quando se anunciou
Fidel Castro houve um grande burburinho, com todos procurando
o melhor lugar para assisti-lo e “ao terminar, uma chuva
de aplausos, inclusive de seus pares, 101% dos quais não
tinham nem nunca tiveram nenhum parentesco e/ou simpatia com o
comunismo. Difícil entender o que aconteceu ali.”
----------Para
terminar, quero colocar uma idéia desenvolvida na mesa
redonda integrada por vários cientistas cubanos e sintetizada
pelo jornalista Jesus Rodrigues Diaz, falando sobre o potencial
no desenvolvimento do conhecimento quando ele se da de forma coletiva.
E que no capitalismo existe uma grande contradição
entre o caráter social da produção e o caráter
privado da apropriação. Dai, a reação
do capitalismo ao papel crescente do conhecimento na economia
e a busca da privatização do conhecimento, principalmente
através da propriedade intelectual, das barreiras regulatórias
e do roubo dos cérebros.
----------“Temos
que insistir também que, quando falamos do Potencial Humano
criado pela revolução, não nos referimos
exclusivamente à quantidade de conhecimentos técnicos
incorporados em nossa população. Mais importante
ainda é a semeadura de valores éticos, de atitudes
ante a vida. Na sociedade do conhecimento faz falta um cidadão
com vocação de aprender e de criar, e de levar seus
conhecimentos aos demais seres humanos. Os conhecimentos técnicos
nos podem dizer como se trabalha, porem são os valores
os que nos fazem compreender porque se trabalha e deles tiramos
as motivações e as energias para seguir adiante.
----------Que
se passa agora se os conhecimentos se voltem ao fator mais importante
da produção, inclusive os bens de capital? Não
e difícil de prever. A resposta do capitalismo e a intenção
de converter também o conhecimento em Propriedade Privada.
Porem, a boa noticia e que isto não vai funcionar. O conhecimento
não e igual ao Capital. Esta nas pessoas e não se
pode facilmente privatizar. O conhecimento requer circulação
e intercambio amplo. As leis da propriedade intelectual inibem
este intercambio. O conhecimento e validado pela sua aplicação
social, não pela sua venda. O uso amplo dos produtos do
conhecimento e o que os potencializa”, termina o jornalista.
Esta e a grande limitação do raciocínio capitalista
em entender a potencialidade da criação coletiva.
Ignoram que a criação humana coletiva tem muito
mais possibilidades do que as leituras positivistas do conhecimento.
----------O
maior feito desta pequenina ilha, com um povo cheio de dignidade
e coragem, terá sido o de mostrar ao mundo que e possível
construir uma sociedade baseada no ser humano e não na
mercadoria e na acumulação de capital. E isto ameaça
o mundo capitalista, e é rejeitada pela imprensa burguesa
e pelos setores médios que querem impor as condições
de suas vidas para a totalidade do mundo. Mas, Cuba não
esta só. Existe hoje uma rede internacional de solidariedade
ocasionada pelos médicos e professores cubanos em mais
de 100 países, pela Operação Milagros, pelas
brigadas de solidariedade e por todos aqueles que acreditam que
Um Outro Mundo é Possível e que lutam pela
sua construção.
(1) Economista, professora da UFMG, coordenadora
do Fórum Social Mineiro; e-mail: dirlene@face.ufmg.br