Mulheres Camponesas recriadoras
A semana de 08 de março de 2008

Frei Gilvander Moreira

-----------“No princípio criou Deus o céu e a terra... Deus disse: “Que haja a luz!” E, 900 Mulheres Camponesas da Via Campesina ocuparam a fazenda Tarumã, de 2.100 hectares, da transnacional sueco-finlandesa Stora Enso em Rosário do Sul/RS. As terras da fazenda foram adquiridas de forma ilegal através da criação de uma empresa brasileira "laranja" - a agropecuária Azenglever, de propriedade de dois brasileiros, os maiores latifundiários do Rio Grande do Sul, “proprietários” de mais de 45 mil hectares. Durante o ato, as mulheres cortaram eucaliptos e no lugar plantaram árvores nativas. A monocultura do eucalipto, praticada por grandes transnacionais como Stora Enso, Aracruz, Acesita e Votorantin, destrói os biomas das regiões onde é implementada e afeta o solo de tal maneira que impossibilita qualquer outro cultivo, tornando-se uma grande ameaça aos camponeses. Isso, além de causar grandes estragos sociais e culturais. A transnacional Stora Enzo, pela legislação brasileira (lei nº 6.634 de 1979; e o artigo 20, parágrafo 2º, da Constituição Federal), não pode adquirir terras em uma faixa de 150 km da fronteira do Brasil com outros países. No entanto, vem comprando dezenas de áreas no Rio Grande do Sul, próximo da fronteira com Uruguai onde a empresa também tem plantios. A meta é formar uma base florestal de mais de 100 mil hectares e implantar fábricas na região. “Houve uma tarde e uma manhã: foi o 1º dia.” E o Deus de Eva viu que esta luta era boa. O movimento das parteiras do Egito também viu que era muito bom, aquelas parteiras que fizeram greve e desobediência civil diante de um “decreto lei” do faraó que mandava matar os filhos homem, no momento do nascimento.
-----------No 2º dia cerca de 3000 mulheres Sem Terra do MST chegam à Praça Deodoro, em Maceió, para uma semana de mobilização por Reforma Agrária, soberania alimentar, justiça e dignidade para as camponesas e contra a criminalização dos movimentos sociais. Denunciaram o agronegócio como um causador de miséria e violência no campo. “Houve uma manhã e uma tarde.” O Deus de Mirian e da juíza Débora viu que aquela marcha era boa. Débora foi juíza que julgava, não em palácios com ar condicionado, mas no campo, debaixo de uma palmeira. (Débora significa “aquela que gera mel para seu povo e ferrão para os inimigos do seu povo”.)
-----------No 3º dia cerca de 500 mulheres do MST, da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) ocuparam a sede da CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco), em Petrolina, Sertão de Pernambuco. Protestavam contra a CODEVASF por beneficiar empreendimentos de irrigação para empresas do agronegócio, como o projeto de transposição do Rio São Francisco, o Pontal Sul, em Petrolina, e o Projeto Salitre, na cidade vizinha de Juazeiro, na Bahia. A CODEVASF assinou acordo com uma empresa japonesa para a produção de cana-de-açúcar para agrocombustível em áreas irrigadas de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Piauí. O Sertão do São Francisco, que é hoje marcado pela agricultura familiar e pela produção de alimentos para o mercado interno, está sendo transformado em uma grande fazenda privada, com a produção voltada para os Estados Unidos e para a Europa. Na Zona da Mata, mandam os usineiros, os trabalhadores são escravos. “Houve uma madrugada e uma manhã.” O Deus de Raab, de Rute, de Maria (a mãe de Jesus) e de Maria Madalena viu que era bom denunciar tudo isto.
-----------No 4º dia cerca de 300 mulheres da Via Campesina marcham até as Centrais Elétricas de Rondônia S.A (CERON), em Porto Velho, e entregam coletivamente autodeclarações que garantem a Tarifa Social de energia para as famílias que consomem até 140 kwh por mês (limite regional de Rondônia). Denunciam o subsídio energético dado às empresas e multinacionais pela Eletronorte, que é a principal acionista da CERON. A Alcoa e a Vale possuem indústrias de alumínio e ferro no norte do país (a Alumar e a Albrás) e, desde 1984, recebem energia subsidiada (a preço real de custo) da Eletronorte. Com a renovação dos contratos, a Alcoa e a Vale pagarão, respectivamente, R$45 e R$33 pelo MW, até 2024. Enquanto isso, a tarifa média anual paga pelas famílias da região norte é de R$ 262,78 pelo MW (sem os encargos), segundo pesquisa do DIESE. “Houve uma tarde e uma manhã.” O Deus que estava em Rosa de Luxemburgo e nas mulheres do 1o 8 de março viu que era uma beleza.
-----------No 5º dia 600 mulheres do MST e CPT ocuparam mais uma vez o Engenho Pereiro Grande da Usina Estreliana, município de Gameleira, em Pernambuco. Protestam contra a violência utilizada pelos usineiros na região e pelo assentamento definitivo de 180 famílias, que há dez anos lutam pela desapropriação definitiva da fazenda. A usina Estreliana foi fundada em 1861 e em 1921 já era uma das maiores do estado de Pernambuco, chegando a esmagar 400 toneladas de cana e fabricar 1.500 litros de álcool em 22 horas. Em 1963 cinco trabalhadores foram assassinados por um dos proprietários quando reivindicavam o recebimento do décimo terceiro salário. Há dez anos foi decretada a falência da usina por dívidas com órgãos públicos. E Deus abençoou as mulheres lutadoras e disse: “Sejam fecundas, multipliquem-se e encham todos os cantos e recantos do Brasil e do mundo.” O Deus que movia a Sem Terra Roseli Nunes viu que eram boas estas ocupações. Roseli não cansava de repetir: “preferimos morrer lutando que morrer de fome!”.
-----------No 6º dia cerca de 900 trabalhadoras Sem Terra protestam em frente às instalações da carvoaria industrial da Vale (ex-companhia Vale do Rio Doce). As Sem Terra protestam contra a queima de eucalipto plantado pela empresa na área, pois a fumaça produzida afeta moradores do assentamento Califórnia. Há três anos em atividade, a carvoaria da Vale foi instalada a cerca de 800 metros da agrovila do assentamento onde vivem mais de 1800 pessoas. No local, estão instalados 74 fornos industriais com capacidade cada um de produzir 160m³ de carvão. Cada forno industrial tem capacidade de produzir 30 vezes mais que um forno de uma carvoaria comum. O assentamento existe há 12 anos. A comunidade no decorrer desses três anos, por diversas vezes, encaminhou denuncias contra a carvoaria ao Ibama, Ministério Público Estadual e Federal, Vigilância Ambiental, Secretarias Municipais de Saúde e de Meio Ambiente. Representantes do assentamento estiveram várias vezes em audiências com representantes destes órgãos cobrando providencias, chegando inclusive a convidá-los para duas assembléias no assentamento, às quais eles não apareceram. As denuncias dão conta de vários problemas de saúde desenvolvidos pelos assentados por conta da fumaça que invade o assentamento. Alguns estão com pneumonia, há casos de irritação nos olhos e outros problemas de vista e de pele, casos que atingem principalmente as crianças e os idosos. O Deus vivo, presente na luta dos pobres, viu toda a luta das mulheres da Via Campesina e viu que tudo era muito bom.
-----------No 7º dia mais de 1000 mulheres da Via Campesina de Minas Gerais e Espírito Santo ocuparam, por 12 horas, em Resplendor/MG, os trilhos de uma das principais ferrovias da mineradora Vale. Denunciavam a construção da Barragem de Aimorés, pela Vale e CEMIG, porque inviabilizaram o sistema de esgoto da cidade de Resplendor, inundando 2 mil hectares de terra (2 mil campos de futebol). E o Deus de Olga Benário viu que era muito bom, que era uma beleza! Olga, a esposa de Carlos Prestes, a que gostava de dizer: “Lutei pelo justo, pelo bom, pelo melhor do Mundo.” No 7º dia as mulheres terminaram toda sua luta e foram descansar. Voltarão a qualquer hora, antes que seja tarde demais. E serão milhões, com a bênção do Deus, que como uma mulher que procura cuidadosamente a moeda perdida e ao encontrá-la, radiante de alegria, convida todas as amigas e companheiras para festejar (Lc 15,8-10).
-----------Eis algo novo e revolucionário irrompendo no solo brasileiro: O movimento das mulheres da Via Campesina. Estas, combinando ternura, beleza e audácia, me fazem recordar de Renato Dresch, juiz de Direito em Belo Horizonte, que disse: “Na ausência dos poderes públicos para a consecução dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil contemplados no seu art. 3º é a sociedade organizada exercerá a cidadania ativa. Quando agem exigindo posturas sociais dos órgãos governamentais os grupos sociais exercem a cidadania ativa. Somente com luta se mudará esse estado de desigualdades sociais. As leis são feitas por quem detém poder e patrimônio e exatamente para preservar o status quo. Os integrantes dos Poderes Constituídos servem de instrumento para perpetuar essa situação injusta. Somente o exercício da cidadania ativa com a resistência amparada em garantias fundamentadas da Constituição mudará essa situação. Não há luta sem seqüelas. Os danos causados ao patrimônio particular e público são mínimos considerando a miséria em que vive o povo.”
-----------De Malcolm Muggeridge, que observa: "Nunca se esqueça de que apenas os peixes mortos nadam a favor da correnteza.”
-----------De Thiago de Mello, que profetisa: "As colunas da injustiça sei que só vão desabar quando o meu povo, sabendo que existe, souber achar dentro da vida o caminho que leva à libertação!”
-----------De Marcelo Barros, que tira lições da história: “Na história, nunca os ricos e poderosos libertaram os pobres. A libertação das escravidões, a superação do racismo, o fim das discriminações sempre foram conquistas das próprias vítimas.”
-----------De Zé Paraná, sem-terra de Goiás Velho, que, com uma pitada de ironia, dizia: “A fervura vem do fundo do tacho” e “são os gravetos fracos e secos que alastram o maior fogaréu”.
-----------De Dom Luciano Mendes, que aconselhava: “É preciso abrir os olhos para ver o drama dos empobrecidos, abrir o coração para ter compaixão cristã e abrir as mãos para partilhar e organizar.”
-----------Enfim, feliz quem não olha apenas para o dedo das mulheres, mas olha para onde elas apontam. Toda canção de liberdade vem do cárcere. Toda luta por justiça vem dos oprimidos e/ou de quem luta ao lado deles. Assim as mulheres recriam o mundo, são co-criadoras de um outro mundo possível, necessário e sustentável.

Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 23/03/2008, dia de Páscoa.

 
 
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