A democracia
e o estado penitenciário
Prof. Dr. José Luiz Quadros
de Magalhães
----------Recentemente
ouvimos na televisão para todo o mundo o presidente dos
Estados Unidos defendendo a intervenção norte americana
no exterior para a defesa dos Direitos Humanos. Entretanto antes
o presidente deveria se preocupar primeiro com a crise em sua
casa, gerada em parte por suas políticas. Bush disse mais:
para garantir a liberdade ele vetou lei que proibia a CIA e todos
os órgãos de segurança de torturar. Entre
outras práticas, o “falso” afogamento, já
proibido pelas Forças Armadas dos EUA.
----------Os
EUA hoje apresentam índices alarmantes, com uma população
carcerária que ultrapassa 2.700.000 (dois milhões
e setecentos mil detentos), população permanente
entre os milhões que entram e que saem do sistema carcerário,
com um número de condenações à morte
só superado pela China. Segundo dados divulgados(1)
em artigo do sociólogo da London School of Economics, Megan
Comfort, dos 9.000.000 (nove milhões) de detentos liberados
no curso do ano 2002, mais de 1.300.000 (um milhão e trezentos
mil) eram portadores do vírus da hepatite C, 137.000 (centro
e trinta e sete mil) portadores do vírus HIV e 12.000 (doze
mil) com tuberculose, o que representa respectivamente 29%, 13%
a 17% e 35% do número de norte-americanos tocados por estas
doenças. (2)
----------O
presidente norte-americano ao se referir à situação
dos Direitos Humanos deveria se lembrar dos presos na base militar
dos Estados Unidos em Guantánamo (território sob
ocupação norte-americana na ilha principal de Cuba),
sem direito a advogado, a um processo com ampla defesa e contraditório,
sem sequer direito a uma acusação formal e submetidos
a torturas sofisticadas diariamente, como a supressão dos
seus cinco sentidos e a perda da referência de tempo e espaço.
Muitos destas pessoas se encontram nesta situação
a mais de quatro anos, inclusive cidadãos norte-americanos.
----------O
governo Bush tentou aumentar a supressão de direitos no
seu país. Segundo o Patriot Act II (felizmente não
aprovado) nomeado de Domestic Security Enhancement Act, proposto
pelo governo dos EUA, e mais duro que o USA Patriot Act, estava
previsto o fichamento do DNA de estrangeiros suspeitos ou de cidadãos
norte-americanos suspeitos de terrorismo, prevendo ainda os pontos
seguintes:
----------I
- um cidadão norte-americano poderia ser expulso dos Estados
Unidos. Isto se com a intenção de se desfazer da
sua nacionalidade, um cidadão norte americano se torna
membro ou fornece aporte material a um grupo que os Estados Unidos
tenham qualificado de organização terrorista;
----------II
- um juiz poderá decidir que um norte-americano não
merece mais ser cidadão, se sua conduta demonstrar sua
intenção de não sê-lo;
----------III
- abandono dos procedimentos judiciais que enquadram as atividades
de segurança nacional permitindo detenções
secretas.
----------Estes
são alguns exemplos da lei proposta, que felizmente encontrou
resistência desde a esquerda do partido democrata à
direita do partido republicano.
----------A
democracia não é um lugar onde se chega. Não
é algo que se possa alcançar e depois se acomodar,
pois é caminho e não chegada. É processo
e não resultado. Desta forma a democracia existe em permanente
tensão com forças que desejam manter interesses,
os mais diversos, manter ou chegar ao poder para conquistar interesses
de grupos específicos, sendo que, muitas vezes, estas forças
se desequilibram, principalmente com a acomodação
da participação popular dialógica, essência
da democracia que defendemos, e o desinteresse de participação
no processo da democracia representativa, pela percepção
da ausência de representatividade e pelo desencanto com
os resultados apresentados.
----------Emanuel
Todd, que combate a visão economicista do mundo, observa
o fenômeno no paradoxo da democratização de
estados que viveram autoritarismos históricos enquanto
antigas democracias se desvirtuam em novas oligarquias populistas
e/ou belicistas:
----------No
exato momento em que começa a ser implantada na Eurásia(3)
, a democracia enfraquece onde ela nasceu: a sociedade norte-americana
transforma-se num sistema de dominação fundamentalmente
desigual, fenômeno perfeitamente conceituado por Michael
Lind em The next American Nation. Encontramos em especial,
neste livro, a primeira descrição sistemática
da nova classe dirigente americana pós-democrática,
the overclass.
----------Mas
não há que ter inveja. A França está
quase tão avançada quanto os Estados Unidos neste
caminho. Curiosa democracia, esses sistemas políticos nos
quais se defrontam elitismo e populismo, nos quais subsiste o
sufrágio universal, mas as elites de direita e de esquerda
entendem-se para impedir qualquer reorientação da
política econômica que levasse a uma redução
das desigualdades. Universo cada vez mais absurdo no qual o jogo
eleitoral deve conduzir, ao cabo de um titânico confronto
nos meios de comunicação de massa, ao status
quo. (4)
----------Todd
se refere na França atual a um mecanismo sociológico
e político de bloqueio no qual as aspirações
dos 20% de baixo são bloqueadas pelos 20% de cima que controlam
ideologicamente os 60% do meio. O resultado é que o processo
eleitoral não tem qualquer importância prática
sendo que o índice de abstenção avança
de maneira sensível.
(1)COMFORT, Megan. Manière Voir, n.71,
bimestriel, octobre-novembre 2003, Lê Monde diplomatique,
p. 66.
(2)National Comission on Correctional Health Care, The health
status of soon-to-be-released imates, Chicago, 2002.
(3)Podemos mencionar também a democratização
dos estados nacionais da América Latina e diversas novas
democracias africanas.
(4)TODD, Emanuel. Depois do Império, Ed. Record, Rio de
Janeiro, 2003, p. 28.
Prof. Dr. José
Luiz Quadros, e-mail: ceede@uol.com.br
- Belo Horizonte, 20/03/2008