A Vila –
A segurança não está nos muros
José Luiz quadros de Magalhães
----------Vocês
já assistiram ao filme “A vila” (The Village
– 2004) de Shiamalan? Não é possível
fugir de nós mesmos. A segurança não está
nos muros.
----------Segurança
e liberdade não são inconciliáveis. São,
em certa medida, complementares. Em tempos de criminalidade crescente,
terrorismo, desemprego e insatisfação, o recurso
ao discurso da segurança como perda de liberdade e aumento
de controle encontra respaldo em uma sociedade assombrada, amedrontada
pela mídia e pelos governos.
----------A
busca de segurança com a criação de mecanismos
de controle, de isolamento, pode manter distante o perigo que
vem do outro externo a uma comunidade, mas não tem como
nos afastar de nós mesmos, não nos isola da condição
humana. Se há a crença falsa de que alguns entre
nós já nascem criminosos (o que é uma bobagem)
o isolamento entre muros não nos afasta desta possibilidade
que estaria na nossa natureza. Se a violência é inerente
à condição humana e diante de determinadas
circunstâncias todos nós podemos praticar atos violentos,
de nada adianta, também, vivermos entre muros, pois o que
deve ser evitado é que a paixão, a história,
os encontros e desencontros não sigam determinados caminhos.
Logo assim será necessário controlar a história
de cada pessoa, casal, família, comunidade e sociedade.
Como controlar as ações das pessoas? Como controlar
as ações e desejos de agir que não podem
ser percebidos pelas câmeras de controle? Colocando um mecanismo
de controle dentro de cada pessoa, o medo, o sentimento permanente
de medo.
----------O
filme “A vila” cuida do controle, do isolamento, da
busca de uma sociedade ideal, isolada, controlada e limitada por
muros externos e pelo medo interno. Pessoas cansadas e amedrontadas
querem controlar o tempo, o espaço e os valores de uma
sociedade criada para não viver a violência. Mas
a qual violência nos referimos? A violência do medo,
do não poder, do não desejar, a violência
de não sair dos muros seguros e de esconder sua própria
condição de sujeito.
----------Do
controle exercido sobre as crianças, o mais cômodo
e eficaz parece ser o medo. A geração artificial
do medo. Não o temor sobre o real, mas um temor que ultrapassa
o real. O perigo pode estar em cada esquina, em cada pessoa, em
cada ação. O desconhecido é, por essência,
perigoso mesmo que seja desconhecido. O medo paralisa e quanto
maiores os temores do que não existe menos nos expomos
ao que existe. A segurança nestes termos não passa
pelo conhecimento dos limites, mas pela limitação
da ação, do desejo, trancafiando qualquer transgressão
nos limites culpados de um sonho que se esconde de si mesmo.
----------Portanto,
a segurança está em gerar um medo além dos
limites do real. A partir daí tudo passa a ser idealizado
e distanciado do real: os muros, o controle, as câmeras
de controle policial, o efetivo policial, a armas que protegem,
os presídios de segurança máxima etc.
----------O
medo torna as pessoas dóceis. Facilita a negociação
com os direitos. As pessoas estão dispostas a abrir mão
de qualquer coisa até o limite do medo que estas sentem.
Quanto maior o medo mais fácil se torna a negociação.
----------O
filme trata de uma comunidade que se afasta do real e projeta
uma nova realidade controlada, idealizada e controlada pelo medo.
O medo infantil do lobo na floresta, de animais desconhecidos
e perigosos, o medo do escuro, o medo de sons na noite. A descoberta
da violência dentro dos membros da comunidade apresenta
um problema sem solução: como nos proteger de nós
mesmos.
----------O
filme foi realizado em uma realidade histórica específica:
o mundo pós 2001. Os atentados terroristas e o fortalecimento
dos mecanismos de controle com a concordância da população
amedrontada. Quanto maior o medo do outro gerado pelo poder mais
fácil se torna abrir mão de qualquer coisa. O outro
é desconhecido, diferente de nós; meio humano meio
selvagem. Os valores do outro não são os nossos
valores e esta condição meio humana facilita a compreensão
da necessidade de eliminação deste outro.
----------Este
outro estranho aos valores “humanos”, esta invenção
deste outro não humano, que não merece direitos
humanos por não ser humano é necessária para
não enxergamos este outro em nós. A compreensão
de nossa condição se torna logo uma ameaça
à segurança. Não podemos nos enxergar no
outro. Este “outro” estranho passa a ser a razão
de toda nossa insegurança e a sua eliminação
(impossível) se torna o meio de garantir a nossa segurança.
----------No
século XXI este outro é para alguns o terrorista;
para outros o ocidental; para alguns o “monstro assassino”;
para outros a polícia. Lembrando de um trecho da letra
da musica “Les uns et les autres” do filme “Retratos
da Vida” de Claude Lelouch: “Se cada um é outro
para um, raramente ele é um para o outro, apesar de todos
os discursos e os pedidos de socorro, dos outros.”
----------Para
refletirmos este século XXI na sua busca impossível
por segurança e liberdade; realização de
desejos nas demandas criadas pelo mercado e a castração
do sonho, vamos buscar algumas reflexões a partir da história
do século XIX.
----------O
século XIX (e não só ele) foi o século
do encarceramento, o afastamento físico dos não
adaptados em estabelecimentos de internação coletiva
como os presídios e os manicômios. Um exemplo típico
de encobrimento do real.
----------O
liberalismo econômico não saiu como esperado (por
muitos). Da promessa de uma sociedade com oportunidade para todos,
liberdade e igualdade, livre mercado e economia democratizada,
o liberalismo se mostrou, na prática, o que a teoria não
escondia, mas o discurso disfarçava: radicalmente excludente.
Se o direito liberal era para homens brancos e a democracia para
homens brancos e ricos a economia não poderia oferecer
oportunidades para todos. Nem igualdade perante a lei, nem oportunidade,
nem tampouco liberdade foi o resultado do liberalismo no século
XX, e as conquistas do voto igualitário e do voto feminino
veio da ação dos partidos e sindicatos socialistas.
----------Desigualdade,
exclusão e miséria, se não são os
únicos fatores para a criminalidade são os fatores
preponderantes no século XIX assim como nas sociedades
e economias neoliberais contemporâneas. Não seriam
necessários os muros se não houvesse tanta desigualdade
que gera as novas cidades burguesas, os bairros ricos, os condomínios
fechados com segurança privada, fundados na desigualdade
e em valores tão individualistas. Uma sociedade fundada
no individualismo, na competição e no egoísmo
não tem muito futuro.
----------A
equação que se formou no século XIX tem características
interessantes que mostram a necessidade de encobrimento do real
para aqueles que se encontram no poder. Vigia a época o
voto censitário previsto na ordem constitucional liberal
de boa parte dos países ocidentais. Por este mecanismo
só votava quem tivesse propriedade e renda anual superior
a um determinado patamar e só poderia ser votado quem tivesse
renda ainda maior. Ora, a equação é fácil.
A economia denominada liberal com total ausência de intervenção
estatal permitiu que poucos dominassem os mercados. Estes poucos
votavam e podiam ser votados e logo estavam no poder do estado.
Para eles, o sistema econômico que excluía a maioria
e gerava exclusão trazendo criminalidade, exclusão,
desigualdade, não era um problema, mas a solução.
Logo como fazer com a criminalidade: para reduzir substancialmente
o problema era necessário mudar o sistema econômico
o que lhes traria um enorme problema uma vez que comprometeria
sua crescente riqueza. Mas no poder do Estado estes conservadores-liberais,
mesmo para manter seu poder deveriam controlar a criminalidade.
Logo para resolver o problema sem criar problemas para o sistema
que lhes beneficiava nada melhor que desconectar os dois: separar
criminalidade do sistema econômico-social. Mesmo que não
se pudesse negar no mundo real uma relação entre
os dois, agora no discurso os dois estão separados. A criminalidade
passa ser responsabilidade exclusiva dos criminosos: que conclusão
obvia diriam alguns! Mas resta uma pergunta: porque os criminosos
cometem crimes? Respondem os conservadores e liberais: ora, porque
nascem doentes ou maus ou adoecem ou escolhem o caminho do mal.
Afinal vivemos numa sociedade livre, diriam os liberais e os conservadores.
Logo para resolver o problema construíram presídios
e manicômios, aumentaram as penas e os crimes, radicalizaram
o tratamento e expandiram as patologias. Então gradualmente
todos passam acreditar que solucionariam o problema da insegurança
e criminalidade com presídios, muros, códigos, penas,
manicômios, drogas legais, médicos e choques elétricos.
Um problema semântico é ignorado: o controle passa
a ser sinônimo de solução. Mas como solucionar
um problema com controle? O controle controla, logo se ele controla
ele não soluciona mas simplesmente mantém a situação
como está.
----------Este
resumo de extrema simplicidade que acabo de fazer como um filme
mudo em preto e branco se repete em pleno século XXI remasterizado,
colorido artificialmente e com falsos diálogos científicos
introduzidos com requintes de avanços biotecnológicos,
pesquisas genéticas e outros espetáculos pirotécnicos
que novamente buscam encobrir o real de uma parcela expressiva
da classe média. A classe média existe ou é
uma invenção terminológica para se referir
aos trabalhadores que se sentem capitalistas, pessoas que dependem
de seu trabalho para viver, mas que acreditam firmemente pertencer
a uma outra categoria social que não se enquadre no termo
“trabalhador”. Será que alguns sujeitos de
classe média se escondem de si mesmos diante do espelho?
Ou, referindo-se à classe média como uma entidade,
será que a “classe média” se esconde
de si mesma diante do espelho? Antes de prosseguir... uma outra
frase: para ser de classe média é necessário
acreditar ser de classe média antes de qualquer outra coisa.
Classe média é um estado mental. Classe média
é uma crença.
----------O
que eu quis demonstrar é como a ideologia pode nos desviar
a atenção. Desviar nosso olhar. Enquanto a bola
está na área adversária o goleiro de nosso
time pode fazer qualquer coisa, pois ninguém olha para
ele. Logo ele nunca faz nada, pois ninguém viu. Isto me
faz lembrar o filme “O medo do goleiro diante do pênalti
–Die angst des tormanns beim elfmeter”, do cineasta
alemão Wim Wenders de 1972.
Prof. Dr. José
Luiz Quadros, e-mail: ceede@uol.com.br
- Belo Horizonte, 20/03/2008