Entrevista com Dom Tomás
Balduíno
(Publicada na Revista ISTO É - Edição
1993 - 16/01/2008)
''Lula esgotou-se''
Ex-aliado do PT, bispo diz que governo e movimentos sociais se
opõem em temas como
biocombustíveis e reforma agrária.
Por AZIZ FILHO
-------------O
bispo emérito de Goiás, dom Tomás Balduíno,
se mantém, aos 85 anos, como uma das
vozes mais contundentes da esquerda da Igreja Católica.
Fundador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), cofundador
e ex-presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o
antigo "companheiro de viagem" do PT critica a moderação
de Lula no poder, defende com unhas e dentes a reforma agrária
e justifica as ações violentas do Movimento dos
Sem-Terra com um ditado popular que pode soar polêmico:
"A violência é legítima quando
a mansidão é vã." Em entrevista
à ISTOÉ, dom Tomás alerta para a tensão
no Pará, elogia Hugo Chávez e diz que o presidente
Lula não gera mais nenhuma expectativa de mudança
no País. "Lula esgotou-se", diz. O religioso
usa a bússola ideológica ao analisar a sucessão
de 2010, e cita nomes que gostaria de ver no Planalto. Pelo PT,
o senador Eduardo Suplicy. Pelo PMDB, o senador Pedro Simon. Pelo
PSDB, torce para que José Serra, por suas "tendências
esquerdistas", vença a disputa com Aécio Neves.
-----ISTOÉ
- O fim da CPMF foi bom para o Brasil?
-----Dom
Tomás Balduíno - Foi uma perda lamentável
porque o País perdeu seu melhor
instrumento para arrecadar o dinheiro dos ricos. Essa derrota
aconteceu porque o governo não abriu os olhos da sociedade
para este fato. Até porque estava tirando dinheiro dos
ricos para dar para outros ricos, tirava dos bancos para dar aos
bancos, pagando a dívida. Por isso, ficou sem força
moral para mostrar ao povo como essa arrecadação
era eficaz.
-----ISTOÉ
- Taxar operações financeiras é uma boa saída?
-----Dom
Tomás - É uma medida positiva, mas continua
faltando ao governo um diálogo com a
base do povo. O governo perdeu essa prática. Todo governo
com base popular tem condições de conscientizar
a população quando entra em confronto com a classe
exploradora. Lula manifestou que não tem mais essa condição.
Ele se beneficia de uma forte aceitação popular,
mas não dialoga com o povo.
-----ISTOÉ
- O governo Lula combateu mais o latifúndio do que os antecessores?
-----Dom
Tomás - Na luta contra o latifúndio, Lula
não fez diferença nenhuma. É verdade
que ele não reprimiu os movimentos sociais, como o Fernando
Henrique, e dialogou, não
fechou as portas. Mas o que realmente avança no País
não é o social. É o mercado, o
capital. Lula não está avançando nas desapropriações.
Pelo contrário. O curso dado ao
agronegócio está reduzindo o espaço da reforma
agrária. As desapropriações estão
muito aquém das metas que ele mesmo traçou. Hoje,
reforma agrária é um assunto que saiu de pauta,
de cogitação.
-----ISTOÉ
- Não seria pelo fato de a mecanização rural
ser obrigatória para a inserção do País
no comércio mundial?
-----Dom
Tomás - Se pautarmos nosso desenvolvimento pelos
olhos europeus, pode ser, mas é
preciso ver nossa realidade, conseguir respostas a partir dos
anseios das massas brasileiras. O neoliberalismo é predador,
devastador. Pode ser que favoreça as minorias ricas e o
mundo europeu, mas aqui tem aumentado a disparidade, a desigualdade.
O governo Lula, que é de aliança com o capital,
se sente estimulado pelas forças que têm poder de
comando na sociedade. Vai em outra linha que não é
a de atender aos apelos das massas populares. Nosso universo é
outro, é o do camponês, do indígena, do latino-americano,
que conserva sua mística, sua grandeza.
-----"Chávez
tem seus defeitos, mas responde a demandas populares, contrariando
os interesses das elites"
-----ISTOÉ
- As invasões da Vale do Rio Doce e de hidrelétricas
não põem a opinião pública contra
o movimento camponês?
-----Dom
Tomás - Não
condeno essas ações. São violentas, sim,
mas o objetivo é criar impacto, como no caso das sementes
de eucalipto da Aracruz Celulose. Eles reclamam, mandam correspondência,
reivindicam, fazem requerimentos, e não são vistos,
nada acontece. Quando quebram uma vidraça, aí aparecem.
Tenho o máximo de respeito e admiração pelos
que arriscam a pele em ações desse tipo.
-----ISTOÉ
- Mas não é um caminho semelhante ao do terrorismo?
Atos violentos para chamar a atenção?
-----Dom
Tomás - Não. É outra coisa. "A
violência é legítima quando a mansidão
é vã", diz um ditado, uma dessas grandes obras
da humanidade sem autoria conhecida. Diante de governantes surdos,
só mesmo uma sacudidela violenta.
-----ISTOÉ
- Quem seriam os candidatos em quem o sr. votaria em 2010?
-----Dom
Tomás - Quero votar em um candidato que reúna
condições. Muita gente olha para a figura do Eduardo
Suplicy, não por ser do PT, mas por ser ele, até
por ter divergido da cúpula do partido, por ser voto vencido.
É difícil encontrar outro homem com essa estatura
e projeção. Mas para ser candidato é preciso
ter outras qualidades além da moral e do amor à
pátria, precisa ter possibilidade de comunicação,
diálogo. Dificilmente Suplicy seria o candidato do PT,
mas ele reuniria muita gente, até de outras agremiações.
-----ISTOÉ
- O sr. pode votar no PSDB?
-----Dom
Tomás - Não vejo essa possibilidade por
uma questão ideológica. É um partido elitista,
de direita. Se o José Serra conseguisse se libertar das
amarras da estrutura, poderia responder melhor às exigências
de libertação, um ideal da esquerda. Já o
Aécio Neves, eu não acredito que se liberte da direita,
por uma opção pessoal e partidária.
-----ISTOÉ
- Caso a idéia de um terceiro mandato para Lula volte à
agenda política, o sr. poderia apoiá-la?
-----Dom
Tomás - Lula esgotou-se. Não falo por mim,
mas pelas organizações populares que conheço.
Não se pensa em manter Lula para mudar, melhorar o País.
Vamos viver o pós-Lula brevemente. Como vai ser, eu não
sei, mas não há expectativa de nova eleição
de Lula. Talvez isso possa ser negociado pelas cúpulas,
mas não como força popular. O movimento popular
não vê Lula continuando, não quer um terceiro
mandato. Isso não quer dizer que queiramos esses outros
candidatos que estão aparecendo por aí. Há
uma perplexidade geral com relação ao futuro. Ainda
não surgiu o estalo.
-----ISTOÉ
- Por que o sr. está tão decepcionado com o governo?
-----Dom
Tomás - Havia a expectativa daqueles anos de caminhadas
das organizações populares, que se aglutinaram,
criaram um partido, sonharam com a chefia do governo. Hoje o clima
é de decepção, desalento, até de paralisia.
Eu esperava muito mais de Lula e não sou só eu.
Todas as organizações do campo esperavam mais da
recuperação do instrumental que é o Incra,
na atualização dos critérios e índices
de produtividade e do limite da propriedade para fins de desapropriação.
Tudo isso favoreceria uma reforma agrária, que tem sido
tocada como uma medida compensatória, ou seja, onde há
um conflito, o governo vai e desapropria. Isso não é
reforma agrária.
-----ISTOÉ
- O sr. tem esperança de que o País mude de rumo?
-----Dom
Tomás - A esperança não morre nunca.
Olhando pelas bases do povo, da sociedade, que conserva o vigor
do povo latino-americano, vejo que há um potencial, um
cabedal de vida, de transformação, que aponta para
um futuro diferente. Isso já está presente nos diversos
fóruns sociais e nos encontros e assembléias das
organizações camponesas. Temos os levantamentos
no Equador, na Bolívia, na Venezuela. O povo está
muito vivo, apesar de séculos e séculos de dominação
da elite, de formação do Estado a serviço
da elite, que é o que temos.
-----ISTOÉ
- A única alternativa da América Latina ao capitalismo
seria o populismo ou personalismo, como o de Hugo Chávez
na Venezuela?
-----Dom
Tomás - Não chamo de populismo, mas de
liderança carismática, que Lula também é.
Em termos de organização popular, temos mais cabedal
do que qualquer país latino-americano. Acho essa mobilização
boa, válida, necessária, mas chega um momento em
que é preciso haver uma liderança de consenso da
maioria. Podem chamar de populismo ou sei lá o quê,
mas tem de ser assim. No caso da Venezuela, é o Chávez.
Ele tem seus defeitos, mas responde em grande parte a demandas
dessas bases populares, contrariando os interesses das elites,
que gostariam de vê-lo morto, e do próprio império
americano. No caso da Bolívia, essa liderança é
o Evo Morales.
-----"No
Pará, o Projeto Paz no Campo, da governadora Ana Júlia
Carepa (PT), levou à prisão de 200 lavradores"
-----ISTOÉ
- Por que o sr. é contra a transposição do
São Francisco?
-----Dom
Tomás - Pelas mesmas razões de dom Luiz
Flávio Cappio (bispo de Barra, na Bahia) e de uma centena
de bispos. A transposição é para a elite
rica e não vai matar a sede da difusa população
nordestina do semi-árido. Vão fazê-la para
os projetos de exportação de frutas para a Europa,
de caranguejos em cativeiro e para a irrigação da
cana, além dos grandes centros urbanos. Existe uma alternativa
elaborada pela Agência Nacional de Águas, muito mais
barata, com recursos locais. É basicamente água
de chuva, com o aproveitamento do subsolo e, sobretudo, agenciamento
das águas. As águas acumuladas em açudes
evaporam sem um serviço de distribuição para
quem precisa delas. É três vezes mais barato do que
este projeto faraônico que não beneficia a população.
Esse negócio de dizer que vai para 12 milhões não
é verdade. Vai é para a elite. O outro, mais simples,
poderia beneficiar 44 milhões.
-----ISTOÉ
- E por que o governo não optaria por este projeto alternativo?
-----Dom
Tomás - Ele foi abafado pelo próprio governo.
No semi-árido brasileiro chove muito mais do que em outros
semi-áridos. Na Espanha, há uma área semelhante
em que o pessoal vive bem porque a água foi racionalizada,
com um sistema de atendimento adequado à população.
Aqui a cultura é do desperdício de água,
mesmo no Nordeste. Quando se fala em retomada do serviço
da água, é na mesma linha da indústria da
seca, que canaliza o dinheiro para a elite.
-----ISTOÉ
- Exportação e agronegócio não geram
empregos para os nordestinos?
-----Dom
Tomás - Todo projeto gera emprego, mas estamos
falando de água. Uma coisa é aumentar um bolo para
depois, quem sabe, dividi-lo. Outra é levar a água
diretamente à população que dela precisa.
A água da transposição seria excessivamente
cara, bombeada a 300 metros de altura para alimentar três
Estados. Seria a água mais cara do mundo.
-----ISTOÉ
- O governo Lula reduziu o conflito no campo?
-----Dom
Tomás - O conflito continua intenso, sobretudo
no Norte. No Pará, o resultado do projeto Paz no Campo,
da governadora Ana Júlia Carepa (PT), foi a prisão
de 200 lavradores em 2007, com violência policial muito
forte. Foi um desarmamento dos lavradores pedido pelos fazendeiros,
que queriam vacinar seu gado e eram atrapalhados pelas ocupações.
O governo pôs a polícia para apoiar os fazendeiros.
O lavrador é visto como bandido. Coincidentemente, em uma
dessas batidas a polícia encontrou um arsenal de guerra
de um fazendeiro. Isso acaba dando em guerra.
-----ISTOÉ
- O governo não diminuiu o índice de mortes nos
conflitos?
-----Dom
Tomás - Diminuiu um pouco, mas há uma tensão
crescente, sobretudo no Pará, pelo fato de o Incra estar
criando assentamentos em terras públicas distantes, insalubres,
com malária, em florestas primárias. Isso não
é futuro para a reforma agrária, pois acaba beneficiando
as madeireiras e contrariando a vida dos ribeirinhos. Interessante
é que, em vez de desapropriar áreas próximas
aos centros de consumo e escolas, hospitais, o governo faz a reforma
agrária no sentido da deportação para longe.
É a reforma agrária como deportação.
Isso gera tensão e perpetua o trabalho escravo.
-----ISTOÉ
- O agronegócio mecanizado, no mundo todo, é um
importante gerador de divisas. No Brasil é diferente?
-----Dom
Tomás - Ele toma a terra que poderia ser da reforma
agrária para produzir etanol, para exportar. É um
retrocesso, uma volta ao sistema colonial de exportação.
-----ISTOÉ
- Mesmo que o etanol reduza a poluição, o saldo
da cultura da cana é negativo?
-----Dom
Tomás - No sentido da terra, é negativa
a chamada "energia limpa". A Via Campesina diz que ela
é limpa do cano de descarga do carro para fora. Até
chegar lá, é tão suja que inclui até
trabalho escravo. Retira a terra de quem precisa dela para viver.
E agride o meio ambiente transformando a mata em monocultura.
O cerrado, que equilibra o planeta e é a caixa-d'água
das nossas bacias hidrográficas, está sendo transformado
na monocultura de eucalipto, cana, soja ou algodão. O etanol
compensa para o mercado do Primeiro Mundo, que está precisando
de energia para seus motores, mas de nós ele tira a chance
de solucionar nossos problemas. O agronegócio tem um valor
importante, mas não pode ser prioridade da política
pública para o campo.