Resposta
de Letícia Sabatella a Ciro Gomes.
JORNAL O GLOBO 21 de dez 2007

-----------Caro
deputado Ciro Gomes, Antes de visitar frei Luiz Cappio em Sobradinho,
tinha conhecimento desse projeto da transposição
de águas do Rio São Francisco, através da
imprensa, e de duas conferências sobre o meio ambiente,
das quais participei a convite de minha querida amiga, a ministra
Marina Silva. Há alguns anos, quieta também, venho
escutando pontos de vista diversos de ambientalistas, dos movimentos
sociais, de nossa ministra do Meio Ambiente e refletindo junto
com o Movimento Humanos Direitos (MHuD), do qual faço parte.
Acompanho a luta de povos indígenas e ribeirinhos, sempre
tão ameaçados por projetos de grande porte, que
visam a destinar grande poder para um pequeno grupo em troca de
tanto prejuízo para esses povos, ao nosso patrimônio
social, ambiental e cultural.
-----------Acredito
que devam existir benefícios com a transposição,
mas pergunto, deputado, quem realmente se beneficiará com
esta obra: o povo necessitado do semi-árido ou as grandes
irrigações agrícolas e indústrias
siderúrgicas? Afinal, a maior parte da água (bem
comum do povo brasileiro) servirá para a produção
agrícola e industrial de exportação e apenas
4% dessa água serão destinados ao consumo humano.
-----------Sabendo
do desgaste que historicamente vem sofrendo o rio, necessitado
de efetiva revitalização, sabendo do custo elevado
de uma obra que atravessará alguns decênios até
ser concluída e em se tratando de interferir tão
bruscamente no patrimônio ambiental, utilizando recursos
públicos, por que razão, em sendo sua excelência
deputado federal, este projeto não foi ampla e especificamente
discutido e votado no Congresso? Por qual motivo essa obra tão
"democrática" foi imposta como a única
solução para resolver a questão da seca no
semi-árido quando propostas alternativas, que descentralizam
o poder sobre as águas, não foram levadas em consideração?
No dia 19 de dezembro de 2007, o que presenciei na Praça
dos Três Poderes, em Brasília, foi a insensibilidade
do Poder Judiciário, a intransigência do Poder Executivo,
e a omissão do Congresso Nacional. Será que não
precisamos mesmo falar mais sobre democracia republicana, representativa?
Ou melhor, praticar mais? Quanto ao gesto de frei Luiz, sinto
que o senhor não age com justiça, quando não
reconhece na ação do frei uma profunda nobreza.
Sinto muito que o senhor ainda insista em desqualificá-lo.
Por tê-lo conhecido e com ele conversado, participado de
sua missa na Capela de São Francisco junto aos pobres,
pude testemunhar sua alma amorosa e plena de compaixão
humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e não anestesia,
que ajuda a conscientizar e formar cidadãos. Ele vive há
mais de trinta anos entre ribeirinhos, indígenas, trabalhadores
rurais, quilombolas e é por eles querido e respeitado.
-----------Conhece
profundamente as alternativas propostas pelos movimentos sociais,
compostos por técnicos e estudiosos que há muitos
anos pesquisam o semi-árido. Uma dessas alternativas foi
proposta pela Agência Nacional de Águas, com o Atlas
do Nordeste, que foi objeto de seu debate com Roberto Malvezzi,
da Comissão Pastoral da Terra, cuja honestidade intelectual
o senhor publicamente enalteceu em seminário realizado
na UFF. Ele mostrou que o projeto da ANA custaria R$ 3,3 bilhões,
metade do custo da transposição, beneficiando com
água potável 34 milhões de pessoas, abarcando
nove estados: então, por que o governo não levou
em consideração esta opção mais barata
e mais abrangente? Infelizmente, caro deputado, Dom Cappio não
exagerou quando decidiu fazer seu jejum e fortalecer suas orações
para chamar a atenção de todos à realidade
do povo nordestino. O governo do presidente Lula optou por um
modelo de desenvolvimento neocolonial que, dando continuidade
à tradição de realizar grandes obras para
marcar seus mandatos, sacrifica o povo com o custo de seus empreendimentos,
enquanto o que esperávamos deste governo era a prática
de uma verdadeira democracia.
-----------Rio
de Janeiro, 20 de dezembro de 2007