D.
Cappio e o mito da falta d'água
FOLHA DE SP – 07/12/2007, p. A3.
JOÃO ALVES FILHO
D. Luiz
Flávio Cappio tem consciência também de quatro
fatos dos quais a nação precisa tomar conhecimento
----------COM a retomada da greve
de fome de dom Luiz Flávio Cappio, o presidente Lula e
seus áulicos tentam passar a imagem de que ele é
um fanático religioso. O ministro da Integração,
Geddel Vieira Lima, ousa desrespeitosamente associar a imagem
do bispo a uma espécie de fundamentalista islâmico.
----------Na realidade, d. Cappio
é um líder religioso profundamente comprometido
com sua principal missão, que é divulgar a fé
aos sertanejos e levar a eles os eternos ensinamentos de Deus,
mas sem desconectá-los do mundo injusto em que habitam.
----------Daí por que, convencido
de que quem convive com a miséria não tem serenidade
para cultivar dignamente a religião, se empenha em extirpar
a miséria, defendendo os sertanejos daqueles que tentam
legitimá-la com demagogia e promessas enganosas.
----------Trata-se de um sábio,
culto, avesso à demagogia, conhecedor do sertão
nas suas entranhas e, em especial, do Velho Chico, cujas margens
percorreu a pé denunciando sua degradação
bem antes de se falar em transposição. Um estudioso
das técnicas de convivência com as secas e equacionamento
dos recursos hídricos locais tão simples e baratas
que os chineses e os indianos as praticam com sucesso há
milênios em regiões de climas bem mais hostis do
que o nosso.
----------D. Cappio tem consciência
também de quatro fatos dos quais a nação
precisa tomar conhecimento. Primeiro, a transposição
não é destinada a salvar os nordestinos da seca,
pois apenas uma minoria irrelevante do semi-árido receberá
água na porta, mas se destina ao agronegócio, que
utilizará uma água caríssima, levada a 700
km, que terá que ser subsidiada a vida inteira. Porém,
temos milhões de hectares de terras à beira do rio
cuja irrigação, sem subsídio, proporcionaria
alimentos baratos e geraria 1 milhão de empregos.
----------Segundo, o governo, maquiavelicamente,
esconde uma realidade que surpreenderia a nação:
não há falta de água no Nordeste setentrional,
mas, isto sim, ela existe em abundância tal que, teoricamente,
daria para abastecer 100% dos nordestinos.
----------Terceiro, o rio São
Francisco está na UTI e a transposição ameaça
provocar sua morte, gerando o maior desastre ecológico
e socioeconômico da história brasileira.
----------Quarto, Lula mentiu para
conseguir a interrupção da primeira greve de fome
de d. Cappio, certamente com receio das conseqüências
para a reeleição, com promessas enganosas de que
iria parar a obra da transposição para discutir
com ele, com membros da sociedade civil e ecologistas que têm
propostas alternativas, demonstrando tecnicamente projetos racionais
para levar água na porta pela metade dos custos para a
totalidade dos dez Estados do semi-árido nordestino e mineiro.
Por dois anos, o bispo esperou pacientemente a abertura do prometido
diálogo, mas a resposta de Lula foi ameaçadoramente
mandar o Exército iniciar a obra.
----------Por falta de espaço,
não posso aqui detalhar o gigantesco manancial de água
disponível nos Estados do Ceará, do Rio Grande do
Norte e da Paraíba, explicando a simplicidade do supracitado
projeto alternativo. Faço, contudo, um convite ao ministro
Geddel, que executa a obra que tanto combateu, para um debate
aberto, para que a nação saiba de toda a verdade
sobre essa obra freneticamente aplaudida pelos empreiteiros, seus
felizes apaniguados, pelo agronegócio retrógrado,
que pleiteia água subsidiada, e pela indústria da
seca, que, após sua conclusão, continuaria abastecendo
os famigerados carros-pipas e as latas d'água na cabeça
da pobre gente dos próprios quatro Estados "beneficiários"
da obra da transposição, que, tardiamente, compreenderia
que foi a principal enganada pelo governo Lula, que fomenta a
cizânia entre irmãos nordestinos.
----------Finalmente, uma ponderação
final para que o presidente Lula, que, do alto de sua autolouvação,
costuma ser infenso a conselhos, avalie melhor o artigo de frei
Leonardo Boff, que, com a autoridade de ex-professor do então
seminarista dom Cappio, com quem ele já se destacava por
"uma aura de simplicidade e santidade", advertiu: "Entre
o povo que não quer a transposição e as pressões
de autoridades civis e eclesiásticas, dom Luiz ficará
do lado do povo. Irá até o fim. Então a transposição
será aquela da maldição, feita à custa
da vida de um bispo santo e evangélico. Estará o
governo disposto a carregar essa pecha pelo futuro afora?".
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JOÃO ALVES FILHO, 66, é engenheiro
civil. Foi governador de Sergipe por três mandatos (1983-87,
1990-94 e 2003-06) e ministro do Interior (gestão Sarney).
É autor de, entre outros livros, "Transposição
de Águas do São Francisco: Agressão à
Natureza vs. Solução Ecológica".
E -mail: jafsergipe@gmail.com