Solução
radical para a fome de pão
Cidadania sim! Fome não! A partir da prática de
Jesus
É hora de
combate à Fome e contribuir autenticamente com o programa
FOME ZERO. Para isso faz bem olhar para os evangelhos da Bíblia
e observar como Jesus e os primeiros cristãos lidaram com
o povo faminto. Povo este vítima, em grande parte, de um
império opressor e de uma religião oficial, ópio
do povo.
Nos anos 90 da Era Cristã, as comunidades cristãs
do discípulo amado relêem a pratica de Jesus. No
quarto evangelho da Bíblia há sete sinais. “Sinal”,
no quarto evangelho da Bíblia, é diferente de milagre.
Sinal não deve ser considerado em si mesmo, mas aponta
para uma realidade mais profunda. Jo 6,1-13 relata a “multiplicação”
dos pães feita por Jesus. É o quarto sinal, o central,
espinha dorsal dos sete sinais. Pra que realidade aponta o sinal
chamado de “multiplicação de pães”?
A fome era um problema tão sério na vida dos primeiros
cristãos e cristãs que os quatro evangelhos da Bíblia
relatam Jesus multiplicando pães e saciando a fome do povo
(cf. Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; Lc 9,10-17 e Jo 6,1-13). Mateus
mostra que o povo faminto “vem das cidades”. As cidades,
em vez de serem locais de exercício da cidadania, se tornaram
espaços de exclusão e de violência sobre os
corpos humanos.
Segundo as comunidades do discípulo amado, Jesus propõe
que as comunidades sejam sinal do amor generoso de Deus, assegurando
para todos a possibilidade de subsistência e dignidade.
O pouco que cada pessoa tem e é, quando partilhado, gera
uma sociedade sem excluídos. A dignidade é garantida
não no poder de um líder messiânico, mas no
serviço de cada pessoa que organiza a comunidade para o
bom de todos.
“Jesus atravessa para a outra margem do mar da Galiléia”
(Jo 6,1), entra no mundo dos gentios, dos pagãos, dos impuros,
enfim, dos excluídos. Jesus não fica no mundo dos
incluídos, mas estabelece comunicação efetiva
e afetiva entre os dois mundos, o dos incluídos e o dos
excluídos. Assim, tabus e preconceitos começam a
desmoronar.
“Jesus subiu à montanha...” (Jo 6,3). Uma característica
básica da vida de Jesus é transitar da planície
para a montanha, ou seja, dos “infernos da vida” para
a intimidade com Deus. Jesus se preocupava em dedicar tempo à
comunhão com Deus e conciliava militância com momentos
de oração. Militância e Oração:
uma alimenta a outra. Para Jesus ação não
é oração - Ele pára para orar. Há
quem considere que "a ação já é
oração", o que é muito relativo.
Profundamente comovido, porque “os pobres estão como
ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), Jesus percebe que os governantes
e líderes da sociedade não estavam sendo libertadores,
mas estão colocando grandes fardos pesados nas cosas do
povo. Com olhar altivo e penetrante, Jesus vê uma grande
multidão de famintos que vem ao seu encontro. Só
no Brasil são 53 milhões de pessoas que têm
os corpos implodidos pela bomba silenciosa da fome. São
crianças sendo gestadas em mães mal alimentadas;
são crianças que chegam à escola sem tomar
o café da manhã e, muitas vezes, não têm
uma merenda escolar digna de saciar a fome e viabilizar a aprendizagem;
são desempregados que passam grandes humilhações
por não terem como comprar o pão para os filhos;
são ...
Jesus não sentiu medo dos pobres, encarou-os e procura
superar a fome que os golpeia e humilha. Apareceram dois projetos
para resgatar a cidadania do povo faminto. O primeiro foi apresentado
por Filipe: “Onde vamos comprar pão para alimentar
tanta gente?” (Jo 6,5). No mesmo tom, outros discípulos
tentavam lavar as mãos: “Despede as multidões
para que vão aos povoados comprar alimento para si.”
(Mt 14,15). Filipe está dentro do mercado e pensa a partir
do mercado. Só vê comprar, comprar, consumir, consumir.
Está pensando que o mercado é um deus capaz de salvar
as pessoas. Cheio de boas intenções, Filipe não
percebe que está enjaulado na idolatria do mercado. Jesus
não embarca na canoa furada que é a idolatria do
mercado.
O segundo projeto é posto à baila por André,
um outro discípulo de Jesus, que, mesmo se sentindo fraco,
acaba revelando: “Eis um menino com cinco pães e
dois peixes” (Jo 6,9). Jesus acorda nos discípulos
e discípulas a responsabilidade social, ao dizer: “Vocês
mesmos devem alimentar os famintos” (Mt 14,16). Jesus quer
mãos à obra. Nada de desculpas esfarrapadas e racionalizações
que tranqüilizam consciências. Jesus pulou de alegria
e, abraçando o projeto que vem de André (= humano,
em grego), anima o povo a “sentar na grama” (Jo 6,10).
Aqui aparecem duas características fundamentais do processo
protagonizado por Jesus para levar o povo da exclusão à
cidadania. Jesus convida o povo para sentar-se. Por quê?
Na sociedade escravocrata do império romano somente as
pessoas livres, cidadãs, podiam comer sentadas. Os escravos
deviam comer de pé, pois não podiam perder tempo
de trabalho. Era só engolir e retomar o serviço
árduo. Um terço da população era escrava
e outro terço, semi-escrava. Logo, quando Jesus inspira
o povo para sentar-se, ele está, em outros termos, defendendo
que os escravos têm direitos e devem ser tratados como cidadãos.
Para Jesus os pobres não são um poço de miséria,
mas são pessoas com uma dignidade e uma grandeza imensa
que deve ser respeitada e valorizada.
Por que sentar na grama? A referência à existência
de “grama” no local indica que o povo está
no campo, na zona rural, e é a partir de uma reorganização
da vida no campo que poderá advir uma solução
radical para a fome que aflige o povo nas cidades. Em outras palavras,
o combate que liberta da fome passa necessariamente pela realização
de uma autêntica Reforma Agrária. Não dá
para continuar a iníqua estrutura fundiária no Brasil,
com 2% da população sendo proprietária de
50% da terra brasileira. Mais: apenas 10% das terras férteis
brasileiras são usadas para a agricultura. O acesso à
terra é outro fator chave para a segurança e soberania
alimentar. Os países pobres que recorreram a divisões
mais eqüitativas da terra progrediram rapidamente na redução
da fome.
Cerca de 80% da população já sobrevive nas
cidades, grande parte, espremida nas periferias e pendurada nos
morros. Devido às políticas de exclusão,
o jovem é o primeiro a abandonar a terra para buscar sua
sobrevivência na cidade. Mas acaba sendo presa fácil
do tráfico de drogas e sendo assassinado ainda na juventude.
Entre pessoas de 15 a 29 anos, em 1995, os homicídios atingiram
uma proporção de 83,1 para homens e 7,1 para mulheres.
Jesus estimula a organização dos famintos. “Sentem-se,
em grupos de cem, de cinqüenta, ...” (Mc 6,40). Assim
Jesus (e os primeiros cristãos) nos inspira que a resolução
do problema da fome só será resolvido quando o povo
marginalizado e excluído se organizar. Nesse sentido o
movimento dos sem-terra está dando uma lição
de exercício da cidadania. Jesus não se mostra paternalista
e nem assistencialista. Ele provoca a solidariedade conclamando
para a organização dos marginalizados como meio
para se chegar à cidadania de e para todos.
Frei Gilvander Moreira, O.Carm
Email: gilvander@veloxmail.com.br