Onde
está nosso Deus nos Conflitos no Campo?
Gilvander Luís Moreira[1]
(Artigo publicado no livro “Conflitos no campo Brasil 2008 – CPT -,
Goiânia, Coord. Antonio Canuto, Cássia
Regina da Silva Luz, José Batista Gonçalves Afonso e Maria Madalena, pp. 120-126.)
“As lágrimas são meu pão noite e dia, e todo dia me perguntam: “Onde está o teu Deus?”” (Salmo 42,4)
“Esmigalhando-me os ossos meus opressores me insultam, repetindo todo o dia: “Onde está o teu Deus?”” (Salmo 42,11)
“Por que diriam as nações: “Onde está o Deus deles?”” (Salmo 79,10; 115,2)
1.
Iniciando a conversa
Pediram a mim
que fizesse uma análise teológica dos Conflitos no Campo, no Brasil. Eis um bom
desafio. O que seria uma análise teológica? Tradicionalmente, entende-se por
teologia um estudo sobre Deus e assuntos relativos a Deus: céu, ressurreição,
anjos, vida eterna ... Mas, após o Concílio Vaticano II, a partir da vivência
das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, com a Teologia da Libertação, muda-se
o paradigma sobre o fazer teologia. Agora, fazer teologia diz respeito a
refletir sobre qualquer assunto a partir da fé no Deus da vida: Deus de Abraão,
de Isaac, de Moisés, dos profetas, das profetisas, de Jesus de Nazaré, dos
mártires, tais como: Dom Oscar Romero, Chico Mendes, Padre Josimo, Padre
Ezequiel Ramim, Irmã Dorothy e os “144 mil” que revelam a presença do Deus
solidário e libertador no nosso meio. Nessa nova perspectiva teológica tudo se
torna passível de ser teologizado. Nascem assim muitas Teologias específicas:
Teologia Negra, que demonstra que Deus não faz distinção de ninguém, de nenhuma
etnia. Todos os povos têm a mesma dignidade; Teologia Indígena, que ajuda a
percebermos que a terra, as águas e toda a biodiversidade é sagrada. Há uma
aura de divino que permeia e perpassa tudo. Logo, os povos indígenas devem ser
respeitados na sua cultura e na sua religiosidade e ter os seus direitos
assegurados, a demarcação de suas terras e tantos outros direitos; Teologia da
Água que, em tempos da maior devastação ambiental da história da humanidade,
ajuda-nos a crescer em encantamento, veneração e respeito por todas as
criaturas da biodiversidade e anima lutas sem trégua em prol da preservação
ambiental, numa marcha rumo a uma sociedade sustentável; Teologia da Mulher, da
Economia, da Política, da Ecologia e tantas outras, entre as quais, a Teologia
da Terra, dos filhos da terra e da terra dos filhos e filhas de Deus. Neste
texto apresentamos alguns aspectos da Teologia da Terra e da Água que podem
ajudar a entender onde está Deus nos “Conflitos no Campo”.
2.
Pano de fundo
A ONG WWF
divulgou, em 2006, relatório anual sobre as condições de vida e capacidade dos
recursos naturais do Planeta Terra. As informações reveladas são alarmantes: “Os
seres humanos já usam recursos naturais a uma taxa 25% maior do que a capacidade
do planeta de regenerá-los.” Se não houver uma mudança de modelo de
desenvolvimento e de comportamentos, em 2050 “a Humanidade precisará de
dois planetas Terra para prover suas necessidades.” Demonstra também que entre
1970 e 2003, o planeta perdeu 30% de sua diversidade biológica, “o que
indica que as extinções estão se acelerando.”[2]
O relatório
do “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas” (IPCC)[3], de
02 de Fevereiro de 2007, é de alerta
máximo!.O gelo está derretendo no Pólo Norte e no Pólo Sul.
A água vai ficar mais salgada, as chuvas vão aumentar, o nível dos mares está
subindo. As ondas e os ventos vão mudar em frequência e força. Haverá
tempestades muito fortes, furacões, mais calor. Isso acontece porque a produção
industrial depende de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão ou gás
mineral que unidos ao desmatamento em grande escala interferem drasticamente
nas condições climáticas do planeta. A “Revolução Industrial” está destruindo o
mundo e a própria humanidade.
Nós perdemos
a comunhão com o Planeta Terra. Diz a sabedoria popular que “na frente estão as
matas, depois o ser humano passa e deixa um deserto”. Dentro de vinte anos a
água potável poderá faltar para 40% da humanidade. As empresas transnacionais
já estão de olho gordo no “petróleo azul”. Em alguns lugares do planeta a água
já é controlada com o poder das armas. A vida na Terra está ameaçada, a nossa
única casa comum está ficando sem este combustível sagrado: a água.
Os Sem Terra
da Via Campesina - entidade internacional, presente em 74 países, composta por Movimentos
que lutam pela Reforma Agrária integral - bradam: “Não aceitamos sementes
transgênicas. As sementes são (e devem continuar sendo) um patrimônio da
humanidade.” Este grito ecoou em várias atividades nos nove Fóruns Sociais
Mundiais já acontecidos. A semente está no início e no fim do processo da vida.
Quem controla a semente controla o fio da vida e o mercado. Primeiro tentaram
patentear as sementes. 97% das sementes transgênicas servem mais para as
transnacionais venderem seus herbicidas e produtos químicos. Quem quer impor os
transgênicos quer acabar com 12 mil anos de evolução das sementes. Estão
preparando também a semente exterminadora do futuro, a que gera sementes
estéreis. Uma equação matemática necessária hoje é TERRA + SEMENTE NATURAL =
SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR. Enfim, sem semente natural não há
alimentação de qualidade, nem povo e nem nação.
A humanidade vive uma das maiores
encruzilhadas da história humana. Das duas uma: ou nos salvamos todos ou
pereceremos todos. Desta vez não haverá uma arca de Noé para salvar um casal de
cada espécie. "Ou o ser humano se torna o anjo protetor da Mãe
Terra e da Irmã Água ou ele será o anjo exterminador da nossa única casa
comum, o planeta Terra". Ou recriamos a vida com relações e estruturas de
fraternidade ou vai acontecer a extinção da raça humana com uma infinidade de
outras espécies.[4]
O modo de
produção capitalista, o mais insustentável de todos, está assassinando a Terra,
nossa única casa comum, que é viva, sagrada e nossa mãe. Eis um imperativo
vital: cuidar de todo ser vivo. Deve reinar em nossos corações a integridade e
uma justiça sociocósmica. Nós somos parte da terra. Entramos e saímos da vida o
tempo todo.
A CARTA DA
TERRA, que é a Bíblia do planeta Terra, nos mostra que a Terra é viva. Devemos
partir das revoluções moleculares, começando a partir de nós mesmos. Queremos
paz perene com compromisso, mas não pacificação. Diálogo consigo mesmo, com o
outro, com os antepassados, com o futuro, é o que descortina novos horizontes.
Isso implica superar a ideia de que o ser humano foi colocado na terra para
dominar e subjugar toda a criação.
Os
astronautas, ao contemplarem a Terra de fora dela, exclamaram: “É pequena.
Cabe na palma da nossa mão. Olhando de cima, não há distinção entre humanidade
e Terra. É uma coisa só”. Essa visão está em consonância com o relato da
criação o qual diz que o ser humano foi criado do barro. O nome Adão vem de Adamah
(= terra fecunda). Somos terra fértil, húmus. O nome Adão quer dizer “filho da
terra fértil”. Há uma grande unidade
Nós, agentes da Comissão Pastoral da Terra – CPT –
atuamos solidariamente junto aos sem-terra (os excluídos do campo,
desorganizados) e os Sem Terra (camponeses em processo de organização e
atuantes em lutas concretas) não apenas por motivações sociológicas e/ou
filosóficas. A ira divina e o espírito profético, que movia os profetas e as
profetisas da Bíblia, nos impulsionam para, além da solidariedade com os
camponeses empobrecidos e excluídos, denunciarmos as injustiças que rondam o
campo brasileiro. Os povos da Bíblia, exilados na Babilônia, espezinhados nas garras
do império de Nabucodonosor, estando longe do templo, que era a casa de Deus;
longe da terra conquistada, que era sinal da bênção de Deus; sem a presença dos
grandes profetas, tais como, Elias, Isaías, Oséias, Amós, se perguntavam: “Onde
está nosso Deus?” Exilado na própria terra, na Babilônia chamada Brasil, o povo
Sem Terra busca e sente a presença amorosa do Deus solidário e libertador na
marcha de libertação da mãe-terra.
O “Caderno de Conflitos no Campo”, da CPT, há 34
anos, com muita diligência, presta esse serviço à sociedade brasileira. O
Caderno começou fino e vem, ano a ano, engrossando, porque, por um lado – infelizmente,
crescem os conflitos no Campo; por outro lado, cresce - graças a Deus e a muita
luta - a capacidade de sistematização e de reflexão sobre os conflitos.
A violação dos direitos sagrados dos bens da terra
e dos povos da terra, no Brasil, iniciou-se com a invasão do país pelos brancos
portugueses. Os povos indígenas, que falavam mais de 1200 línguas, em 1500,
foram golpeados com a instalação da Empresa Brasil. O segundo versículo da
Bíblia diz que o Espírito de Deus “paira” sobre as águas, melhor dizendo, choca
as águas, acaricia as águas, envolve as águas, está nas águas. Águas, em
Gênesis 1,2, é símbolo da realidade. Logo, o/a autor/a do texto bíblico queria
assinalar que a luz e a força divina permeiam e perpassam tudo, estão
De 1500 para cá, profetas e profetisas ergueram
sempre a voz contra os desmandos e arbitrariedades cometidos contra os
camponeses. A escravidão foi denunciada por uns e apoiada pelos que lucravam
com ela. A CPT, hoje, tem a grandeza de continuar pondo o dedo numa das maiores
feridas, ainda aberta, que são multidões de seres humanos submetidos a situação
análoga à de escravidão. São milhares de denúncias de trabalho escravo, anualmente.
Uma equipe móvel do Ministério do Trabalho, com auxílio da Polícia Federal, vem
resgatando mais de 5 mil trabalhadores anualmente. Mas o triste é que as multas
raramente são pagas e os trabalhadores, sem condições mínimas para sobreviver,
acabam recaindo e são escravizados novamente. Isso é muito bem demonstrado nos
filmes-documentários “Nas
terras do bem virá”, “Tabuleiro da Cana: Xadrez de cativeiro” “Bagaço” e
“Terras de Quilombos”. Esse aviltamento da dignidade humana é um pecado que
clama aos céus. O Deus da vida conta conosco para que essa chaga seja curada, o
que só se resolverá com Reforma Agrária na perspectiva dos pequenos da terra.
Enquanto a prioridade for o agronegócio, os camponeses, a mãe terra e a irmã
água continuarão sendo profanados.
A iníqua estrutura fundiária brasileira continua
sendo uma ignomínia. Manter a concentração da propriedade da terra é uma
traição completa ao projeto do Deus da vida que se comoveu com o sofrimento do
povo e desceu para libertá-lo das garras do imperialismo dos faraós do Egito.
Assim como Moisés, Miriam e as parteiras que protagonizaram o processo de
libertação dos camponeses escravizados no Egito, milhares de lideranças
camponesas, movidas pelo espírito de Zumbi dos Palmares, de Antônio
Conselheiro, do monge José Maria - líder do Contestado -, de Francisco Julião, das
Ligas Camponesas, de Padre Josimo da CPT, vêm empreendendo uma luta titânica em
prol da reforma agrária tão necessária e sistematicamente “empurrada com a
barriga” pela classe política brasileira que “reza na cartilha” do lobby da
bancada ruralista no Congresso Nacional. Esta falseia o direito criando leis
que dificultam a realização da reforma agrária. “Os profetas gritavam: “Ai dos que ajuntam
casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais
lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!”
(Miqueias 2,2). Parodiando, devemos
bradar: Ai dos políticos profissionais, escória da política brasileira, e de
empresários latifundiários que não ouvem os clamores das mais de 200 mil
famílias de sem-terra abrigados debaixo de lonas pretas, insistindo no
elementar direito de ter um pedacinho de terra para criar com dignidade seus
filhos. Ai de quem não aprova Emenda Constitucional que determine a
expropriação de fazendas onde for encontrado trabalho escravo ou plantações de
droga.
Segundo a Bíblia, a terra pertence a Deus (Lev 25,23); deve repousar de sete em sete anos, deve alimentar
seus filhos, deve passar de pais para filhos. Na terra Brasil, infelizmente, a
terra é cobiçada como mercadoria, como fonte de poder, de coronelismo. Está concentrada
em poucas mãos gananciosas para garantir que uma multidão de “vidas secas”
continue migrando para as periferias das grandes cidades de modo a reforçar o
imenso exército de reserva. A concentração da propriedade tem a função de ser
uma espada de Dâmocles na cabeça dos trabalhadores, pois os patrões dizem
sempre assim: “Contente-se com seu salário e agrade à empresa, pois há uma
legião de desempregados que estão de olho no seu emprego”. O Deus da vida e
todos nós da CPT nos comovemos com a dor dos deserdados da terra e por isso
denunciamos a transformação da terra em mercadoria e o aniquilamento da
dignidade humana e o aviltamento da beleza e da riqueza espiritual existente em
toda a biodiversidade.
A CPT, nos conflitos pela terra, inspirada pelos ensinamentos
de Jesus de Nazaré e pela prática libertária dos profetas e profetisas da
Bíblia, e solidariza-se com os camponeses sem-terra e luta ao lado deles pela
partilha da mãe terra. Defende a vida ameaçada. Assim, percebemos que reforma
agrária é evangelho para os sem-terra, uma ótima notícia, mas é péssima notícia
para os latifundiários que insistem em sequestrar a terra em suas mãos e, como
Caim, seguir assassinando camponeses, que são outros Abeis (Gn 4,8). O sangue dos 27 camponeses assassinados em 2008
clamam por justiça. A pergunta de Deus dirigida a Caim, dirige-se também aos
jagunços e mandantes dos assassinatos: “Onde está teu irmão?” Acompanhando o
povo sem-terra podemos dizer que devemos amar todas as pessoas, mas não dá para
amar todo mundo do mesmo jeito. Devemos amar os sem-terra colocando-nos ao
lado deles para com eles lutar pelos seus direitos. Devemos amar os
latifundiários e os empresários do agronegócio, lutando para retirar das mãos
deles as armas de opressão: o latifúndio, o poder judiciário que impede o acesso
de todos à propriedade, a manutenção dos índices de produtividade defasados há
33 anos, a privatização da terra. Somente assim os milhões de camponeses
empobrecidos terão direito à vida.
Nos últimos anos, no campo brasileiro, temos
assistido a uma investida muito forte das grandes empresas transnacionais que
estão disseminando monoculturas que causam uma tremenda devastação ambiental,
expulsam o povo para as periferias das cidades, diminui a produção de alimentos.
Isso tudo dentro de uma política segundo a qual “importa exportar”. Assim, a
soberania sobre o território brasileiro fica cada vez mais vulnerável, pois um
território sem povo é um território sem soberania. Esse fato nos lembra as
primeiras comunidades cristãs que, oprimidas pelo império romano, denunciavam o
privilegio aos produtos para exportação. Relendo a história do povo e
analisando a conjuntura, o livro do Apocalipse denuncia a injustiça
institucionalizada que apregoava: “Um litro de trigo por um denario e três litros
de cevada por um denario! Quanto ao óleo e ao vinho, não causes prejuízo.” Quer
dizer, o preço dos alimentos básicos – trigo e cevada – para o povo estava
caríssimo, pois um trabalhador ganhava, normalmente, um denario por dia. Assim,
tinha que trabalhar um dia inteiro sob o sol escaldante para comprar um só
litro de trigo, “feijão e arroz” do povo daquela época. Mas, os produtos
direcionados à exportação – óleo e vinho - não podiam sofrer com as crises.
Logo, garantir superávit primário,
continuar pagando juros absurdos da dívida pública, repassar dinheiro público
para sustentar a engrenagem de empresas que interessam, via de regra, acumular
lucros e mais lucros, tudo isso é se enquadrar em um projeto imperialista que
desagrada profundamente o Deus da vida e seus filhos.
3.
Ocupação de terras, luta profética
Em inúmeras passagens bíblicas, os profetas e as
profetisas bradam, em nome do Deus da vida: “Queremos a justiça e o direito”. Isso
não se mendiga, conquista-se na luta.
As mulheres
parteiras do Egito – a Bíblia registra os nomes de duas: Séfora e Fuá (Êxodo
1,8-22) -, diante de uma “medida provisória” (=
“Decreto-Lei”) que mandava matar as crianças do sexo masculino, organizaram-se e
fizeram greve e desobediência civil. “Não vamos respeitar uma lei autoritária
do império dos faraós. O Deus da vida quer respeito à pessoa e não concorda com
a matança de crianças e com nenhuma opressão”, diziam em seus corações as
Mulheres do “sistema de saúde” do Egito. Diz a Bíblia: “Deus estava com as parteiras. O povo se tornou numeroso e muito
poderoso” (Ex 1,20), isto é, crescia em quantidade e em qualidade.
Os evangelhos da Bíblia[5]
relatam que Jesus, próximo à maior festa judaico-cristã, a Páscoa, impulsionado
por uma ira santa, ocupou o templo de Jerusalém, lugar mais sagrado do que o
laboratório e a sede da Aracruz que tem a cruz no seu nome, mas uma cruz de
sangue e dor que ela impõe aos pobres da terra e à terra dos pobres. Furioso
como todo profeta, ao descobrir que a instituição tinha transformado o templo
em uma espécie de Banco Central do país + sistema bancário + bolsa de valores,
Jesus “fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, bem como as ovelhas
e bois, destinados aos sacrifícios. Derramou pelo chão as moedas dos cambistas
e virou suas mesas. Aos que vendiam pombas (eram os que diretamente negociavam
com os mais pobres porque os pobres só conseguiam comprar pombos e não bois),
Jesus ordenou: ‘Tirem estas coisas daqui
e não façam da casa do meu Pai uma casa de negócio” (Jo 2,16; . Essa ação
de Jesus foi o estopim para sua condenação à pena de morte. Mas Jesus
ressuscitou e vive também em milhões de mulheres e homens camponeses Sem Terra
que não aceitam mais a opressão do latifúndio e da iniqua estrutura
fundiária brasileira.
Movidos pelo espírito de Jesus de Nazaré e de
todos os profetas e profetisas da Bíblia e mátires da luta pela Reforma
Agrária, os Sem Terra seguem na luta cobrando o cumprimento da Constituição
Federal de 1988. Para Isso, sabem que sem exercitar desobediência civil não terão
nenhuma conquista social e, pior, serão cada vez mais excluídos. Por isso
ocupam latifúndios como forma de realizar a tão sonhada e necessária reforma
agrária.
Ocupação
coletiva de terras é diferente de invasão com o fim de turbar a propriedade. A
jurisprudência atesta isso. Dyrceu Cintra Júnior, no livro Questões agrárias,
pondera: “O bem jurídico propriedade só existe enquanto bem constitucionalmente
garantido – um direito público subjetivo – se cumprir sua função social. Tanto
que não a cumprindo, fica autorizada sua negação máxima, a desapropriação”. O
Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro, do Superior Tribunal de Justiça, em 1997, afirmou que a postulação da reforma
agrária “não pode ser confundida, identificada com o esbulho possessório, ou a
alteração de limites”, é “expressão do direito de cidadania”. Evandro Lins e
Silva, no prefácio do livro A ação política do MST, reconheceu nas ações
de ocupação um direito fundamental: “Os conflitos no campo e as ocupações do
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST -, ocupando latifúndios, terras
devolutas, prédios públicos - são formas de pressão - o que querem os
trabalhadores é assegurar a almejada conquista da igualdade social.”
Ocupação de
terra é a forma mais eficiente e eficaz para forçar os governos a cumprir a
tarefa da política agrária e tornou-se necessária e legítima como meio para a
desapropriação, que é caminho para a reforma agrária. As desapropriações e os assentamentos se concentraram nas regiões de
conflitos mais intensos exatamente porque ali ocorreram ocupações de terra. A
luta pela terra só tem êxito quando há ocupação. Às ocupações o governo
responde com uma política de assentamentos nas áreas de conflito. Sem ocupação,
não sai reforma agrária.
A opção pela
ocupação de latifúndios improdutivos mostra que reforma agrária vai muito além
da questão da posse da terra. O processo de ocupação tem um significado
especial para os próprios sem-terra. A decisão de apoderar-se de uma
propriedade privada e nela estabelecer-se não é tarefa fácil, pois requer
maturidade, coesão, disciplina e luta que gera a esperança. O MST ocupa, porque
sabe que tipo de reforma agrária precisa: massiva, rápida e que mude a iníqua
estrutura fundiária do país e haja justiça social com sustentabilidade
ecológica.
“A ação
das Mulheres da Via Campesina, na sede da Aracruz Celulose, está em consonância
com as ações de Gandhi e Martin Luther King Jr., mártires dos oprimidos. Elas e
eles fizeram desobediência civil: desafio a leis injustas sem agredir pessoas.
Como gesto extremo, querem acordar consciências anestesiadas que são cúmplices
de sistemas opressivos. A não violência de Gandhi e Luther King não diz
respeito às coisas, mas, sim, às pessoas humanas”, pontua Plínio de Arruda
Sampaio[6]. O
boicote do sal e do tecido inglês na Índia, o dos ônibus segregacionistas no
Sul dos Estados Unidos e tantos outros movimentos de desobediência civil em
todo o mundo causaram grandes prejuízos materiais aos capitalistas, mas
trouxeram conquistas para a humanidade.
Para os
capitalistas, a terra, as águas, as sementes, o ar, as matas, a justiça e o
direito, também, são recursos que devem ser explorados conforme seus interesses
econômicos. Para os camponeses Sem Terra, esses elementos da natureza são
dádivas e base da vida, não têm preço e jamais podem ser mercantilizados.
O Deus da vida
e da esperança está nos camponeses Sem Terra em movimento e no Movimento dos
camponeses Sem Terra.
4. Resgatando a Teologia da Criação
Há tribos
indígenas que contam o seguinte mito para explicar o nascimento da lavoura na
roça: O pai ia pescar. Ao voltar, a filha sempre perguntava: “O que pescou,
papai?” O pai respondia assobiando. A filha disse à mãe: “Cave a terra e me
enterre até o pescoço.” Após sete dias, o pai, estranhando o fato de a filha
ter sido semienterrada, voltou ao local e, surpreso, constatou que a menina semienterrada
tinha se transformado em uma roça de todos os tipos de cereais, verduras e
frutas. Assim nasceu a roça, revelando a ligação umbilical entre a terra e a
mulher.
Uma índia, ao
arrancar a mandioca, conversa com a planta, um ser vivo. Não há separação entre
nós e o “meio ambiente”. A comunidade de vida, composta por humanos e não
humanos, forma um ambiente inteiro.
O movimento negro que luta contra o racismo diz: “Nosso início não está
nas senzalas, mas na liberdade da África”. O autor bíblico queria dizer: no
início está a criação, o espírito de Deus presente e envolvendo tudo. Não
começamos no pecado, mas na liberdade da maravilha da criação, que se dá na
evolução. Evolui-se criando e cria-se evoluindo.
“O Espírito (ruah, em hebraico) “pairava” sobre as águas”.
(Gen 1,2b). O sopro divino (ruah) “agitava, revolvia, sagazeava,
bailava, tocava, acariciava, abraçava, envolvia, chocava” as águas. Javé
respirava nas águas. Namorava as águas. Talvez possamos dizer: Ruah e
água não são duas realidades. Trata-se da mesma realidade sob ângulos
diferentes. São “carne e unha”, inseparáveis. Em Gênesis 1,2b “água” é símbolo
da realidade. Tudo é água, pois água está
A Criação é boa, é muito boa[7], é
beleza, é o ato primeiro. E Deus viu que a luz era boa, a terra, as águas, o
firmamento, plantas, verduras, árvores frutíferas. Tudo é uma beleza e irradia
a luz e a força divinas.
Sentindo a falta de terra que era sinal da bênção de Deus, o povo da
Bíblia resgata as origens revelando um grande encantamento e reverência pela
terra. Sente-se filho da terra.
Na teologia tradicional e na prática pastoral, por séculos e séculos,
enfatizou-se demasiadamente, quase de
forma absoluta, a exortação de Gen 1,26
Não é somente o ser humano que é “imagem e semelhança” de Deus. É
claro que há uma distinção e especificidade entre os seres humanos e os outros
seres vivos, mas há beleza, grandeza e graça divina em todos os seres criados
por Deus. Urge superarmos o antropocentrismo que tem feito tantos estragos à
história humana.
A exortação para que o ser humano “domine vários seres vivos” – não
todos - não pode também ser entendida no sentido de subjugar, dominar e
tiranizar sobre todos e tudo. A “dominação” é circunscrita, não é sobre tudo e
muito menos sobre todos os seres vivos.[8]
Além do mais, temos que recordar a ênfase dada na segunda versão sobre a
criação (Gen 2,4b-25) sobre o “cultivar, pastorear, ser jardineiro”. Olhando a
totalidade das duas versões da criação (Gen 1,1-2,4a e Gen 2,4b-25) temos que
concluir que o espírito de Deus pede cuidado, pastoreio e manuseio responsável socioecológico
e jamais incentiva a dominação e a depredação como, infelizmente, o modelo
capitalista de desenvolvimento vem fazendo.
Em Gênesis de
O primeiro relato da Criação (Gen 1,1-2,4a) mostra o ser humano
profundamente ligado, interconectado, a todas as criaturas do universo. De uma forma
poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre
todos os seres vivos que são uma beleza. Deus, ao criar, sempre se extasia
diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O poeta
cantor e compositor das Comunidades Eclesiais de Base, José Vicente, capta
muito bem a mística que envolve, permeia e perpassa todo o relato da Criação:
“Olha a glória de Deus brilhando ...”, em todos e em tudo.
O segundo
relato da Criação (Gen 2,4b-25) mostra o ser humano intimamente ligado com a
terra e com as águas. “Não havia nenhuma vegetação, porque Javé Deus não
tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar
o solo.” (Gen 2,5). Dois seres imprescindíveis e inter-dependentes para que
o mundo se transforme em um paraíso com sociobiodiversidade: água e ser humano.
A água, junto com a terra, é a mãe da vida. Sem ela, tudo morre. Assassinar uma
nascente, poluir um rio, deve ser considerado pecado grave e crime hediondo. O
ser humano é outro ser imprescindível, mas como cultivador, jamais como
explorador e depredador.
“Um
manancial brotava da terra” (Gen 2,6). Essa afirmação revela a íntima
relação entre terra e água que é como “carne e unha”. Uma não pode existir sem
a outra. A água é o sangue da terra: Gaia, grande ser vivo. “Javé Deus esculpiu
o ser humano com a argila do solo.” (Gen 2,7). Além de ser mãe das águas, a
terra, umedecida e fertilizada pela água, aparece também como mãe do ser
humano. No princípio era a água e a terra; e a água e a terra se tornaram
“carne”: criaturas todas do universo. Não somos apenas filhos e filhas da água
e da terra. Somos mais. Somos água e terra que sente, que canta, que pensa, que
ama, que deseja, que cria ... Deus cria a partir das águas e da terra. Só
podemos ser cocriadores a partir das águas e da terra. Quem não defende,
respeita e não tem uma relação de veneração e de encantamento para com as águas
e a terra não pode ser criativo. Estará jogando no time dos assassinos da nossa
mãe, irmã e nosso próprio ser: a água e a terra. Somos tão filhos/as das águas
e da terra quanto somos filhos/as de Deus.
Segundo o
relato bíblico de Gn 2,1-
Frei Gilvander Luís Moreira, e-mail:
gilvander@igrejadocarmo.com.br
- www.gilvander.org.br
Belo Horizonte, 07/04/2009.
[1] Frei Carmelita, mestre
[2] Cf. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Ciência, edição de 25/10/2006.
[3] Cf. www.unisinos.br/_ihu/
- ipcc.ch/meet/meet.html - http://ipcc-ddc.cptec.inpe.br/ipccddcbr/html
[4] Cf. BOFF, Leonardo, Do iceberg à Arca de Noé, O nascimento de uma ética planetária, Rio de Janeiro, Ed. Garamond Ltda, 2002.
[5] Mateus 21,12-13; Marcos 11,15-19; Lucas 19,45-46 e João 2,13-17.
[6] Cf. FSP, 24/03/2006, p. A3.
[7] Cf. Gênesis 1,1-31, especialmente Gen 1,10.12.18.21.25.31.
[8] Estão na lista de seres a serem “dominados” peixes do
mar, aves do céu, animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que
rastejam sobre a terra. Somente esses! Não estão na lista os peixes dos rios,
não todo tipo de ave, nem os animais selvagens. O texto explicita que a
dominação seja sobre todas as feras e répteis.
[9] Cf. Gênesis 1,11.12 (duas vezes).21.24
(duas vezes).25(três vezes); Gen 6,19.20 (quatro vezes); Gen 7,3.14 (quatro
vezes).