Faíscas de Espiritualidade da Terra e das Águas

a partir das Romarias da Terra e das Águas

Frei Gilvander Luís Moreira[1]

 

1.     Introdução

Dias 14 e 15 de outubro de 2008, em Xique-Xique, no sertão baiano, às margens do Rio São Francisco, aconteceu mais um Encontro de Padres e Bispos do Sub-Regional Nordeste III: dioceses de Barra, Barreiras, Irecê e Bom Jesus da Lapa. Com a participação de Dom Luiz Flávio Cappio (bispo da Barra, BA), Dom Ricardo Werneberg (bispo de Barreiras, BA), Dom Tommaso Cascianelli (bispo de Irecê, BA) e uns 40 sacerdotes das quatro dioceses do Sub-Regional, o dia 14 foi dia de reflexão sobre Espiritualidade e Teologia da Terra e das Águas a partir da Romaria da Terra e das Águas de Bom Jesus da Lapa, BA, que já está na sua 33ª edição. Os freis Luciano Bernardi, da Comissão Pastoral da Terra da Bahia, e Gilvander ajudaram na assessoria.

Frei Luciano, resgatando a história da 1a Romaria da Terra e das Águas, a de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, recordou:

“Em 1977, um grupo de 112 lavradores e lavradoras de Itaetê, Nova Redenção e Andaraí, municípios baianos onde marcavam presença várias Comunidades Eclesiais de Base da Diocese de Ruy Barbosa, BA, viajaram em dois caminhões “pau de arara”. Foram  até o santuário de Bom Jesus da Lapa, na beira do rio São Francisco.

Era uma Romaria diferente: os romeiros pediam forças ao Bom Jesus e expunham publicamente sua luta quase desesperada: suas terras eram griladas, as roças invadidas pelo gado do fazendeiro, casas eram queimadas para intimidar e forçar a saída de posseiros, as autoridades coniventes, o valor e a dignidade de homens e mulheres do campo eram pisoteados.

Neste chão e neste contexto brotou, pelo nosso conhecimento, a “primeira” Romaria da terra em nosso país. Ela, por ser somente de um grupo local, não foi contabilizada entre as 31 romarias até o presente momento (2008). Nela, porém, havia todos os elementos que vimos depois se expressarem, de forma clara e propagada, pelo Brasil inteiro.

- Chamava-se, no início de “missão da terra”. Só em 1988, começou a ser chamada de “Romaria da terra”. Esta primeira missão/romaria  tinha bem clara a autoconsciência que não podia ser um ato meramente devocional, mas sim devia resgatar as fontes mais profundas da fé e uma motivação que se baseasse na prática do Bom Jesus do evangelho e da Lapa.

- O evento nasceu de três vertentes principais que se unificaram:  a) a realidade vivida que era “quase desesperada”; b) a religião popular que sempre foi fonte de identidade e de resistência em todas as circunstancias; c) a nova sensibilidade dos agentes de pastoral (animadores/as leigos/as, padres, irmãs, bispos...). Na  trajetória do Concilio Ecumênico Vaticano II e da profunda atualização  de Medellín que apontava, entre outros aspectos, para a Opção Preferencial  pelos Pobres.

- A consciência de que precisava estudar e aprofundar, a nível popular, as causas desta situação de quase desespero: desde esta primeira romaria havia pessoas que se colocaram solidariamente a serviço para contribuir com os lavradores e lavradoras a fim de descobrir juntos  “a raiz deste mal” (letra de música cantada). Havia entre os romeiros uma advogada para desvendar a legislação, sociólogo e outros peritos que realizaram encontros específicos para ajudar a compreender “como funciona a sociedade” para produzir tanto sofrimento e insegurança.

- Houve também, nesta primeira romaria, a caminhada da Via sacra em que o rosto de Jesus sofredor se identificava com o sofrimento dos trabalhadores e trabalhadoras presentes, condenados, açoitados, coroados de espinhos e assassinados...

- No final dos 3 dias de missão/romaria, surgiu uma determinação e um compromisso assumidos  por todos. “Para nós ressuscitar,  precisamos nos organizar”.  Como instrumental para esta organização, foi decidida na Lapa do Bom Jesus, a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itaetê, BA.

- Foi uma viagem de mais de 700 km em caminhão “pau de arara” e todos tinham consciência  de que este sacrifício por estradas de chão valia a pena por motivações que popularmente eram assim expressadas, com uma síntese genial que, como sempre releva nosso Carlos Mesters não está na Bíblia mas é o melhor e mais real  resumo dela:  “Deus disse: faz por ti que eu te ajudarei”

Redigi estas linhas após ter conversado pessoalmente e longamente   com os protagonistas desta “história’ feita de fé e luta, com ternura e vigor,  típicos dos meios populares baianos.”

 

Romaria, palavra que lembra “ir a Roma”, normalmente significa peregrinação rumo a um santuário, lugar sagrado, em busca do encontro com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com todas as criaturas. De forma tradicional, há vários centros de romarias no Brasil: Aparecida do Norte, em São Paulo, onde a padroeira do Brasil é venerada; Belém, no Pará, com o Sírio de Nazaré, recebe anualmente mais de dois milhões de devotos de N. Sra. de Nazaré.  Canindé (São Francisco de Assis), Juazeiro do Norte (Padre Cícero), no Ceará. Bom Jesus da Lapa, na Bahia, com um santuário dentro da Gruta, espaço que abriga mais de quatro mil romeiros que sentem ali um verdadeiro refrigério para o corpo e para o espírito. Há vários outros santuários no Brasil que são palcos de romarias.

Alma peregrina são todos os seres humanos, uns mais outros menos. Sede de Deus e fome de pão são uma das marcas do povo brasileiro. Parece que quanto mais aperta a fome de pão mais irrompe a sede de Deus. Assim como nos santuários descritos na Bíblia, em todos os santuários a religiosidade se mescla com comércio e expressões de fé que, muitas vezes, alimentam uma relação libertadora com o Deus, mistério de amor que nos envolve, mas, outras vezes, desviam a fé do povo para expressões religiosas que ofuscam a relação umbilical que existe entre Divino e Humano.

Nos santuários, é possível viver duas experiências:

a) Experiência de Deus, que nos humaniza, nos faz mais solidários, ternos, éticos, altruístas, comprometidos com a luta em prol do bem comum e da construção de uma sociedade sustentável que seja um pouco expressão do reino de Deus;

b) Experiência religiosa, que, muitas vezes, envereda por promessas, devoções, ritos, celebrações desvinculadas da realidade, louvores, que nos afundam em “água benta”, mas desvincula nossa relação com Deus das relações humanas e ecológicas.

As romarias tradicionais, muitas vezes,  limitam-se a uma experiência religiosa. As Romarias da Terra e das Águas, realizadas em quase todos os estados do Brasil, contribuem muito para que os romeiros e romeiras façam não apenas uma experiência religiosa, mas que façam uma verdadeira experiência de Deus, o que passa por uma experiência de fraternidade, de convivência com o irmão, de abraçar os desafios da realidade e, de forma encarnada, de assumir compromissos de luta contra tantas injustiças.  Fortalecem as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, as Pastorais Sociais e os Movimentos Populares que são instrumentos para a construção de um mundo justo economicamente, democrático politicamente, sustentável ecologicamente e ecumenicamente plural.

Desconhecendo a Romaria da terra e das águas de Bom Jesus da Lapa, há quem diga que as Romarias da Terra nasceram no Sul do Brasil, na esteira do Concílio Vaticano II colocando Igreja como Povo de Deus, da Conferência de Medellin, assumindo a Opção pelos Pobres, com a nascente Comissão Pastoral da Terra – CPT - e com as CEBs. Os camponeses passaram a entender a Bíblia como o maior e mais antigo manifesto a favor de uma autêntica Reforma Agrária. Começaram a perceber que lugar sagrado não é só os santuários com um santo a ser cultuado, mas a terra é sagrada, viva e mãe do povo sem terra. Ainda mais onde o sangue humano banhou a mãe terra.

As primeiras Romarias da Terra foram regionais e começaram com a participação de poucas dezenas de pessoas, sedentas de Deus e famintas de terra, pois a estrutura iníqua da propriedade da terra, sob a forma de latifúndio e, agora, sendo ela arrendada ou vendida para empresas transnacionais, está impedindo-a de alimentar seus filhos e filhas -  o povo camponês.

No Nordeste Brasileiro, com o agravamento da devastação ambiental e o seqüestro da terra em latifúndio nas mãos dos coronéis, sob o influxo das Comunidades Eclesiais de Base, nascem as Romarias das Águas. “O espírito de Deus paira sobre as águas”, diz o segundo versículo da Bíblia. A melhor tradução seria: “O espírito de Deus choca as águas, namora as águas, acaricia as águas, está na águas, envolve as águas”. Águas são mais que águas. Águas, em Gênesis 1,2, são símbolo de toda a realidade. Os autores e autoras bíblicos queriam dizer: o divino permeia, envolve e perpassa toda a realidade, todas as criaturas. A luz e a força divina contagiam tudo. A partir do Semi-Árido e do povo sertanejo, ano a ano, nas Romarias das Águas ecoam uma libertadora espiritualidade das águas que nos convidam a crescer em encantamento, veneração e respeito pela água, fonte de vida, hálito que irradia vida.

Pouco a pouco, em Minas Gerais, Bahia e em outros estados foram surgindo as Romarias da Terra e das Águas, combinando dois clamores: terra e água, dignidade para todos e tudo.

Padre José Comblin, estrela humano-divina da Teologia da Libertação, testemunho vivo da Opção pelos Pobres, nos ensina que o povo de Deus, na caminhada, deve de vez em quando fazer a experiência da grandeza e da força da fé no Deus da vida. As Romarias da Terra e das Águas têm cumprido esse papel. Movidos pela fé em Jesus de Nazaré e no Evangelho que anuncia vida e liberdade para todos e para tudo, o povo das comunidades cristãs se organiza, se reúne em um local predeterminado e celebra durante um dia inteiro (às vezes, a noite inteira, como em Sergipe) sua fé no Deus solidário e libertador. Em Bom Jesus da Lapa, a Romaria da Terra e das Águas dura três dias, de sexta-feira à noite até a madrugada do domingo de ressurreição, quando se celebra a ressurreição – vida irrompendo - acontecendo no meio das investidas do sistema de morte.

Numa sinfonia de acolhida da comunidade local, muita cantoria, missões, caminhada, almoço comunitário e celebração eucarística ou ecumênica, são denunciadas as agressões à Mãe e sagrada Terra e à Irmã Água. Projetos sustentáveis ecologicamente e justos eticamente são anunciados. Normalmente se fazem missões em preparação para o dia da Romaria. Missionários e missionárias em duplas ou trios vão até às comunidades rurais, onde convivem um pouco com os pobres da terra, celebram, refletem, confirmam as organizações comunitárias existentes e anunciam projetos libertadores. “Devemos confirmar todas as iniciativas comunitárias e coletivas, desde o time de futebol, de arte, até os maiores movimentos populares”, afirma Pe. Alírio, que é missionário na transamazônica.

 

2. Faíscas de Espiritualidade da terra e das águas

 

2.1 - Onde estamos? Onde está nosso irmão? O que estamos fazendo?

As perguntas de Javé, o Deus solidário e libertador, continuam ecoando e nos interpelando. A primeira pergunta Deus dirigiu a Adão (= humanidade): “Onde tu estás?” (Gn 3,9). A segunda, Javé dirigiu a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” (Caim havia assassinado seu irmão (Gn 4,8)). A terceira pergunta, o Deus que não aceita idolatria fez ao Profeta Elias: “O que fazes aqui?” (I Rs 19,9.13).

Adão, Caim e Elias se viram em apuros existenciais. Essas perguntas nos incomodam. Ao respondê-las com sensatez, vemos que a auto-suficiência pessoal e de alguns sistemas totalitários estão levando a humanidade à loucura.

Onde estamos? Estamos em uma das maiores encruzilhadas da história humana. A crise é tão grande, que não há precedentes na história. Medo, instabilidade e insegurança generalizados e contagiantes nos encurralam em becos sem saída. Quais são as "motivações profundas e sólidas" para alimentar a nossa vida cristã? Como viver segundo o Espírito (Rm 8,4)? Qual é o Espírito que nos anima em tudo que somos e fazemos? É possível perseverar? Nossa luta tem sentido? Não está sendo em vão? E os resultados? É melhor desistir? Mudar de luta?!!! Perguntas e mais perguntas povoam nossas mentes. Para quem está na luta, faz bem recordar que Jeremias lutou vinte e três anos sem resultados. Paulo apóstolo teve os três primeiros anos de ação missionária sem nenhum fruto, sem formar nenhuma comunidade. Jesus tinha, no início da missão pública, um grande apoio popular, mas no final só algumas pessoas permaneceram firmes ao seu lado: sua mãe Maria, o discípulo amado, Madalena... Jesus terminou como um aparentemente fracassado. Antes da experiência da Ressurreição tudo parecia ser um grande fracasso (Lc 24,13-24): "Nós esperávamos..., mas ...”. Onde arrumar forças para não desanimar, apesar de tudo? Urge ser como o poeta que afirma: “Faz escuro, mas eu canto”.

 

2.2 - Faíscas de Espiritualidade da terra e da água

O Brasil, nas últimas duas décadas, tem priorizado a agricultura agroindustrial mecanizada, com modelo de produção em grande escala, principalmente para o mercado externo, o que implicou a apropriação de grandes extensões de terra, aumentando mais ainda a “latifundiarização” do nosso país. Adubos, calcário e máquinas, cada vez mais sofisticadas, imperam no campo brasileiro.

No Semi-Árido brasileiro encontramos rastros da presença humana há 48.000 anos. Entre 400 milhões de anos atrás e 200 milhões de anos o Semi-Árido brasileiro era mar. Depois com uma grande mudança climática virou terra e se transformou em uma imensa floresta tropical, com grandes animais. Há 10 mil anos, com outra mudança climática fortíssima, transformou-se em semi-árido. Sobreviveram somente o ser humano e o Rio São Francisco. Ambos agora estão ameaçados de extinção, com o seqüestro da Mãe Terra em poucas mãos gananciosas e com a devastação ecológica em progressão geométrica. A cena mais satânica é passar com um caminhão-pipa cheio de água, ver todo o povo chegar correndo, ofegando com as latas nas mãos, sedentos de água, e escutar: "Só vamos distribuir água para quem vota em fulano de tal. Os outros que morram de sede".

É urgente descobrir que "somos mais filhos da Terra do que do céu", dizia Teilhard di Chardin. Hoje, devemos acrescentar: “Somos mais filhos e filhas da Terra e das Águas do que do céu”.Tudo que acontece à Terra e às Águas acontece aos seus filhos. Não podemos ficar só nas lutas urgentes, na luta pela sobrevivência, senão estaremos enterrando o nosso futuro. Aliás, só teremos futuro se este for diferente do nosso passado e do nosso presente opressor e devastador. Já estão acontecendo centenas de guerras pelo mundo afora pela disputa de água, como já acontece, em parte, em Israel e Palestina.

Precisamos alterar a concepção tradicional segundo a qual "chuva é Deus quem manda". É preciso descobrir que a monocultura da cana no Nordeste, as plantações de eucalipto no Sudeste, os desmatamentos, as queimadas, roçar as nascentes e as beiras dos rios, tudo isso contribui muito para afugentar a chuva. Se dependesse só de Deus, a chuva seria regular e na medida justa e cairia sobre bons e maus, indistintamente.

É hora de descobrirmos que somos 70% água e 30% terra; uma criança é 90% água e somente 10% terra. Logo, somos Terra e Água, melhor dizendo, somos mais água do que terra. Pertencemos à terra. Nós somos propriedade da terra. Somos da terra e da água. Como pode um filho se rebelar contra o pai e querer ser pai do pai?! Como pode uma filha se rebelar e querer ser mãe da mãe?!

Maldita seja a teologia da prosperidade pessoal, pois tranqüiliza a consciência de quem está furtando e acumulando riquezas que poderiam estar sendo partilhadas com todo o povo. Gera uma depredação da natureza. Lembremo-nos de que os grandes opressores são, muitas vezes, pessoas aparentemente muito religiosas. O general Duque de Caxias era um grande devoto de N. Sra. da Conceição. Jorge Bush usa a Bíblia para invadir países e destroçar populações civis. Na capital de São Paulo há crianças que são levadas à escola de helicóptero, enquanto milhares de crianças não têm as condições mínimas de sobrevivência. Nos Shoppings Centers há joalherias vendendo muitas jóias por 150, 200 e até 300 mil reais. As compradoras são, muitas vezes,  mulheres que se dizem devotas de Nossa Senhora.

 

2.3 - Romarias na Bíblia

O povo da Bíblia, povo sem terra e sem água, participou de muitas romarias. O povo bíblico conviveu com escassez de terra e de água. Talvez possamos dizer, a partir da Bíblia, que a 1ª Romaria da Terra foi liderada por um casal de Sem Terra que entrou para a história como pai e mãe das três maiores religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Trata-se de Sara e Abraão, nome hebraico que significa “pai dos povos”. A 2ª Romaria da Terra pode ser considerada a migração dos filhos de Jacó para o Egito, na época visto como um Eldorado possuidor de terras férteis e água do grande rio Nilo que viabilizava a produção de alimentos para matar a sede do povo. Uma 3ª Romaria do povo da Bíblia durou cerca de 40 anos, do Egito à Palestina, atravessando o deserto em ziguezague, após a travessia do Mar Vermelho. Uma 4ª Romaria foi das tribos do Norte da Palestina para o Exílio promovido pelo império Assírio, no ano de 722 a.C. Uma 5ª Romaria foi o exílio para a Babilônia, melhor dizendo, os exílios. O profeta Ezequiel participou da romaria forçada para a Babilônia. A volta do exílio foi outra romaria animada pelos discípulos e discípulas do grande profeta Isaías, coordenada por Neemias e Esdras.

A sede de poder de Salomão capitalizando a sede de Deus do povo do interior acabou criando as condições materiais necessárias para a construção do Templo de Jerusalém, que pouco a pouco se transformou em um centro de peregrinação, mas eminentemente em um centro de poder religioso, econômico, cultural e político. Na época de Jesus, o Galileu perdeu a paciência com a exploração dos romeiros no Templo de Jerusalém: arrumou um chicote, “chutou o pau da barraca” e expulsou os adeptos do deus mercado. “Esta aqui é a casa de Deus. Não pode ser transformada em um mercado”, bradou Jesus de Nazaré, possuído por uma ira santa. Jeremias, Jesus, Estevão, Leonardo Boff e todos os que, ao longo da História, ousaram questionar os Templos privatizadores da fé libertadora pagaram muito caro. Foram exilados, crucificados, linchados ou silenciados! As Romarias da Terra e das Águas bebem da seiva dessa profecia. Questionam as romarias tradicionais. Alargam a noção do que é sagrado. E, pelo testemunho, gritam: “A terra é sagrada. As águas são fontes de vida. Retomemos o encanto, a veneração, o respeito e a defesa intransigente da mãe terra, da irmã água e de todos os seus filhos e filhas”.

 

2.4 - Águas na Bíblia

Na Bíblia se fala de Água em mais de 1.600 versículos. A água está relacionada com os principais eventos fundantes do povo de Deus: na Criação, no dilúvio, na saída do Egito, na entrada da terra prometida, etc. Qualquer projeto bíblico só se sustenta perto de fontes de água, nas cisternas. (Cf. fonte de Siloé, túneis que portam água para a cidade e Jesus nos dizendo: "Eu sou a Água da vida":)

Lamentavelmente, uma interpretação antropocêntrica da Bíblia contribuiu, e muito, para o desastre ecológico que estamos vivendo. O mandato de Deus "dominai a terra" foi, infelizmente, entendido no sentido de subjugar a terra, escravizando-a. "Dominar" a Terra deve ser entendido no sentido de cuidar dela, pastorear, cultivar, preservar. O que precisa ser dominado são as trevas, os sistemas de idolatria do capital e do mercado que tratam a terra e as águas como mercadoria; dessacralizam o que é sagrado.

Quando se diz na Criação "e Deus viu que era muito bom", isso não se refere somente ao ser humano, mas ao humano dentro da comunidade de vida maior. Separado da comunidade de vida maior os seres humanos não são  bons,  são péssimos. A Mãe Terra está ferida à margem da estrada da vida e clama para que sejamos bons samaritanos e boas samaritanas.

No segundo relato da Criação (Gn 2) o mandato de Deus é Cultivar a terra e não dominá-la e subjugá-la. É bom recordar que em hebraico o verbo "dominar" não tem o sentido ocidental moderno de dominar, mas significa "trabalhar" (= saber cuidar, com sabor e compaixão) transformando as trevas em luz, os caos em cosmos. "Dominar" significa continuar lutando permanentemente contra desertos e trevas. Deus cria juntamente com o ser humano: suor, amor, fadiga e paixão.

A teologia do “sacrificialismo”, que incentiva o sofrimento, o massacre da semente para a ressurreição, não é do Deus vivo, mas é de um ídolo. É necessário abandonar a interpretação fundamentalista e literalista que tenta se ancorar em “Abraão sacrificando seu filho Isaac” (Cf. Gn 22,1-22) e tecer o seguinte sofisma: Assim como Abraão sacrificou seu único filho, Isaac, Deus sacrificou seu único filho, Jesus Cristo, para a salvação da humanidade; logo, devemos aceitar passivamente as cruzes que os sistemas de morte colocam nas costas do povo empobrecido. Maldito seja esse tipo de interpretação bíblica. Trai completamente o sentido libertador dos textos bíblicos.

Abraão, tentado por um ídolo, falso deus, empreendeu uma caminhada de três dias para sacrificar seu filho. Mas, no caminho, conseguiu se desvencilhar do ídolo que guiava sua vida e abraçou a fé em Javé, Deus solidário e libertador. O anjo deste gritou: Abraão, não sacrifique seu filho. Logo, Gn 22,1-22 condena todo e qualquer “sacrificialismo”. Jesus de Nazaré não morreu na cruz por vontade de seu Pai, nosso Deus de amor. O Galileu foi condenado à pena de morte por um complô dos três maiores poderes: político, econômico e religioso. Se o deus Moloc que é o atual sistema capitalista, neoliberal, continua sacrificando nos altares da volúpia empresarial mais de 40 mil jovens por ano, fulminados pela crescente guerra civil não declarada - a violência social - isso entristece muito o coração do Deus da vida que nos interpela: “O único poder que tenho é o poder do amor. Conto com a voz de vocês, as mãos de vocês, os corpos de vocês para interromper esta espiral de violência, pois desejo vida e liberdade para todos e tudo. Quero que a vida seja uma festa, um banquete, sem exclusão de ninguém”. Eis o sonho de Deus para nós!

É tempo de recriarmos o paraíso terrestre com seus quatro rios irrigando toda a terra que é um jardim. (Cf. Gn 2,8-15).

 

2.5 - Como as culturas negras vêem a erra e as águas?

Joaquim Nabuco, filho de mãe negra com pai branco, lutou contra a escravidão. Ele dizia que o acesso a terra era imprescindível para uma verdadeira abolição. Nabuco disse: "Se os padres tivessem feito do púlpito uma trincheira contra a escravidão, o cristianismo no Brasil teria outra fisionomia". Nabuco percebeu que com a Abolição os negros foram mais marginalizados e excluídos. Isto aconteceu porque libertaram os negros, mas aprisionaram a terra em poucas mãos gananciosas.

Para os negros (que cultivam suas raízes) a terra é sagrada. Não é possível ser proprietário da terra. Somente é possível ter título de uso da terra. Propriedade individual, jamais.

Muitos mitos sobre as nossas origens dizem que Deus cria a coletividade (o homem, a mulher e filhos) de dentro do ventre da terra. Para os negros Bantos a morte deve ter tanta dignidade quanto a vida, pois na terra só se coloca o que está vivo. Por isso o que é colocado na terra nasce. A terra é vida, pois tem axé. Para o povo negro Nagô o centro de tudo é o axé, a energia (divina) de vida. Um mito nagô diz que o axé foi jogado na terra e essa força vital está presente em tudo: na terra, na água, no ar, nas plantas. (Um chá cura, porque o axé está presente nele.) Mas o axé está presente, por excelência, na mulher. Esta é fonte de vida, por excelência.

 

2.6 - Urge inculturação

A libertação e a democratização da Terra têm que passar pelo negro, pelos parentes indígenas e pelas mulheres. É preciso inculturação, isto é, ação dos pobres, que entende o gênio próprio de cada povo e de cada cultura. Somente quem é inculturado consegue ouvir o inaudível, o que é imprescindível para quem quer guiar um povo. Apenas quando se aprende a ouvir o coração (e estômago, pés, mãos e.. ) das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, um líder pode inspirar confiança em um povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar a fundo na lama das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e opiniões reais.

Trabalhar para o resgate da auto-estima dos excluídos é fundamental. Quanto mais se recupera a identidade, mais livre vai ficando uma pessoa ou grupo. A identidade está para a vida, como o sangue está para o corpo. O dia em que um pastor negro ajudou os negros a descobrir que a origem do povo negro era a liberdade na África e não a escravidão nas Américas estava começando o Êxodo do povo negro rumo à sua libertação. A origem do negro não está na escravidão, mas na liberdade. Por isso esta deve ser resgatada. Quando a gente “re-encontra” nossas origens uma alegria invade todo o nosso ser. Assim posso entender a alegria que toma conta de mim quando chego a um acampamento ou assentamento de Sem Terra, pois sou filho de sem terra, criado no cabo de enxada. Por isso, quando vejo alguém com as mãos calejadas, em um instante se apresenta em mim todo o meu passado de capinar debaixo do sol quente, com formiga mordendo-me os pés, mosquito mordendo-me as orelhas, espinhos arranhando-me as pernas. Eu sou quase  transportado para o passado das minhas origens.

 

2.7 - Terra e Água, uma espiritualidade que liberta

O que é sagrado? Uma catedral? Um santuário ecológico? A Terra e as águas? Os filhos e filhas da terra e das águas? Somos donos da Terra ou pertencemos à Terra? Estamos em comunhão amorosa com a Mãe Terra e com a Irmã Água?

Faz bem insistir em  místicas de conversão pessoal, social e estrutural, entendidas de forma dialética, ou seja, uma animando e levando às outras e vice-versa. Para que se tornasse possível o Êxodo até o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó teve que se converter no Deus de todos os hebreus, os marginalizados e excluídos. Resgatar, integrar, unificar, harmonizar todos com tudo numa relação de inter-retrodependência é vital para termos um futuro com vida em plenitude. Sentir-se terra e água; sentir que somos terra, que somos água. Terra e água são inseparáveis como corpo e sangue. As águas são o sangue da Terra, como nos ensinam os nossos parentes indígenas.

 

2.8 - Teologia Ecofeminista

Terra e Água, um binômio desafiador. Precisamos criar uma nova dinâmica para o nosso corpo, um corpo que escute mais e fale menos, que contemple mais o outro. O que temos a aprender com a Terra e as Águas? Não devemos considerar-nos OS HUMANOS e pensar que o resto faz parte da natureza. Não somos melhores do que as outras criaturas. Todos e tudo somos Criaturas participantes da grande rede da vida que é a Criação. Estamos em relação com todos e tudo. Um tossido nosso é sentido pela mais distante galáxia. Pertencemos a um ecossistema vivo.

Resgatar uma relação amorosa com a terra e com as águas implica reconstituir uma relação libertadora entre homem-mulher; passa pela superação do machismo e do patriarcalismo. Enquanto os homens não forem capazes de carregar uma lata d'água, cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, cuidar do lar, trocar as fraldas de uma criança, não entenderão as mulheres. Já começa errado na educação infantil quando a menina deve aprender a organizar e a cuidar e o menino ganha brinquedos para montar, correr, matar, etc.

A relação destruidora com a Terra deve ser denunciada, mas contemplar o movimento de organização da criação pode nos ensinar muita coisa também. Com a nossa racionalidade não seremos capazes de redimir a Mãe Terra, pois o opressor jamais redime o oprimido. Por que não encarar a Terra e as Águas como herança de Deus, lugar de prazer e de trabalho, de descanso dos corpos? Terra deve ser considerada chão para o povo viver, trabalhar e poder conquistar dignidade.

Einstein nos alertava: "Os seres humanos são parte do universo. Se considerar como seres a parte, separados, é uma grande limitação. É aconselhável irradiar nossa compaixão a tudo".

Leonardo Boff profetiza dizendo: "Ou o ser humano se torna o anjo protetor da Mãe Terra e da Irmã Água ou ele será o anjo exterminador da nossa única casa comum, o planeta terra". Ou recriamos a vida com relações de fraternidade ou vai acontecer a extinção da raça humana. Uma piada diz que dois planetas se encontraram e um planeta disse ao outro: " - Estou muito preocupado, porque peguei um vírus". O outro planeta perguntou: "- Qual?" O outro respondeu: " - Vírus humano." O planeta mais entendido em humanidade respondeu serenamente: " - Não se preocupe. Ele passa rápido". Não podemos mais tratar a Mãe Terra como prostituta.

Roberto Malvezzi, sob inspiração, no seminário sobre Teologia da Terra e da Água, em Goiânia/ GO, cantou assim: "É Deus quem fala pelo vento, é Deus quem lava pela água, é Deus quem gera pela Terra; e ilumina pelo fogo / o povo que quer caminhar".

Dom Tomás Balduíno fez a abertura do seminário sobre Teologia da Terra e das Águas afirmando: "Vivemos uma hora perigosa, não tanto para nós, mas para o povo sem terra e sem água. A CPT, neste momento, tem uma responsabilidade ímpar: ela pode ser o equilíbrio para costurar saídas para recriarmos relações de justiça e de fraternidade".

Há 15 anos  não se falava de águas, mas somente de Teologia da Terra. Mas mudou muito a conjuntura. Hoje, os clamores da água suja, contaminada e agonizante chegam aos céus. Como também os clamores dos que estão morrendo de sede, antes do tempo, sem terra também.

Terra é o “nosso corpo” e as águas são o “nosso sangue”. Terra e água não se mendigam, conquistam-se! Terra e água seqüestradas clamam para serem libertadas e partilhadas para exercerem o direito de alimentar e saciar a sede de seus filhos: 190 milhões de seres humanos, só no Brasil. Se contarmos todas as criaturas habitantes na terra Brasil, a população ultrapassará trilhões de seres vivos.

No 10º Intereclesial das CEBs, em Ilhéus, na Bahia, em julho de 2000, uma indígena Maxacali fez muita gente chorar quando clamou pelos direitos dos povos indígenas e recordou o massacre ao qual continuam submetidos os povos indígenas. Ela disse em alto e bom som: “Roubaram nossas terras e nos pregaram na cruz. Somente agora, com muita luta estamos conseguindo recuperar um pouco das grandes extensões de terra que os brancos nos roubaram, mas terra devastada e com nossos rios agredidos”. Lembrou-nos basicamente, em outras palavras, o Cacique Seattle da tribo Squamish, em um discurso ao “Grande Chefe de Washington”, quando profetizava com palavras de fogo, em 1854: “Para o meu povo, cada parte desta terra é sagrada. Cada árvore, cada rio, cada inseto que voa e ronca, tudo o que está aqui é sagrado para a memória e a esperança do meu povo... Como poderíamos vender a terra ou a água, se ela é sagrada? Vocês devem ensinar a seus filhos que a terra é sagrada e que cada sombra que se reflete na água clara do lago fala da história e das recordações do meu povo... Os rios são nossos irmãos. Digam a seus filhos que os rios são irmãos nossos e também de vocês. Tratem os rios com a gentileza com a qual tratariam a um irmão”.

 

2.9 - Simbolismo nas Romarias da Terra e das Águas

Em uma grande celebração religiosa o visual é muito mais eloqüente do que o verbal. Símbolos vistos ficam gravados para sempre na memória dos romeiros e romeiras Por exemplo, na 6ª Romaria da Terra e das Águas, de Minas Gerais, na cidade de Salinas, foi inesquecível ver centenas de crianças “sem terrinhas”, do MST, despejarem no rio Pampam, de cima da ponte, mais de mil flores, colhidas com muito carinho e trazidas em bonés vermelhos. Isso enquanto a imagem de São Francisco chegava de barco, trazida por ex-pescadores, e se encontrava com a imagem de N. Sra. Aparecida que já acompanhava a Romaria junto com uma grande cruz de madeira, carregada pelo povo de mãos calejadas. Na ternura das crianças e na beleza das flores, celamos o nosso pacto para sermos firmes defensores dos rios, das águas, das nascentes e dos ribeirinhos. O rio Pampam, ofegante, pedia água limpa. Os romeiros da beira do nosso irmão Rio São Francisco trouxeram litros de água do Velho Chico e despejaram no rio Pampam que está clamando por vida.

 

2.10 - A glória de Deus brilha nas Romarias da Terra e das Águas

"Estivemos no céu por um dia. Ou: céu e terra se encontraram e se abraçaram.” Assim grita meu coração ecoando cenas inesquecíveis que vivemos em mais de dez Romarias da Terra e das Águas no estado de Minas. O coração da gente vibra de alegria ao ver a GLÓRIA DE DEUS BRILHANDO de inúmeros modos, como, por exemplo:

1. Na presença de milhares de romeiros e romeiras, vindos das mais diversas partes do Estado, até de estados vizinhos e visitantes estrangeiros. Um grande entusiasmo e fé libertadora contagia a todos na romaria.

2. Na presença de bispos caminhando o dia inteiro, com chapéu de palha, a pé, no meio do povo sofrido, sob um sol, muitas vezes, coberto por algumas nuvens ligeiras.

3. Nos missionários e missionárias que fazem uma semana de missões nas comunidades de vários municípios. Deus visita o povo sofrido da zona rural através dos missionários. Estes voltam interpelados, pois vêem: a) muitas casas abandonadas, "pela falta de água e ..."; b) pequenas fábricas abandonadas, por "falta de água"; c) muitos rios secos; d) as comunidades matando a sede em poços artesianos, um para cada comunidade; e) falta de estradas entre as comunidades (só existem trilhas no meio das serras); f) que as comunidades são visitadas por um padre somente uma vez por semestre.

4. Na hospitalidade e solidariedade do povo do lugar e das caravanas vindas de muitos lugares.

5. Na caminhada de reconciliação com várias paradas, onde é celebrada a memória de Mártires. "O sangue dos mártires clama por justiça! Ai de um povo que esquece os seus mártires”, profetisa Dom Pedro Casaldáliga. 

6. No beijo à Mãe Terra dado pela multidão de romeiros que se abaixam em uma profunda reverência para beijar a terra que nos alimenta.

7. No Abraço ao rio, ofegante pedindo água limpa. Romeiros da beira do nosso irmão Rio São Francisco trazem litros de água do Velho Chico e despejam no rio que está clamando por vida.

8. No almoço comunitário feito em clima de muita partilha, como uma das partes da "celebração eucarística" que dura um dia inteiro.

9. Na tribuna do povo, depois do almoço, quando representantes da sociedade organizada denunciam as injustiças e conclamam todos para a continuação da luta de libertação do nosso povo.

10. Na conclusão da celebração eucarística com ofertório de frutos da Mãe Terra e do suor do povo; nas falas condenando o coronelismo que está assassinando o povo da zona rural e conclamando a cultivar ações de resgate da Mãe Terra e da Irmã Água.

11. Na noite cultural realizada em uma das noites da romaria, com o brilho de muitos poetas, cantores, peças teatrais, etc.

12. No meio da multidão se encontram trabalhadores rurais que abraçam as lideranças e dizem com firmeza: "Continue lutando por nós, ao nosso lado, pois a gente está sofrendo demais".

13. Na distribuição da hóstia consagrada colocando-a nas mãos calejadas do povo da roça. Isso causa uma emoção inesquecível. Aí acontece o encontro de dois corpos de Deus: Jesus e o povo sofredor, ambos corpos de Deus, templo do Espírito de Deus.

 

3 . A Romaria da Terra e das Águas convida a repensar ...

 

3.1 - O núcleo da espiritualidade de Jesus

Para poder viver e conviver comprometido com os pobres, Jesus era íntimo de Deus, a quem tratava com muito carinho. Deus era, Nele, uma experiência de amor, não um conceito doutrinário ou teológico. Deus era em Jesus, uma experiência afetiva, afetuosa. A intimidade de Jesus com Deus se dava na oração e Ele orava em meio aos conflitos da vida pública. Uma característica básica da vida de Jesus é transitar da montanha para a planície, ou seja, dos “infernos da vida” para a intimidade com Deus. Jesus se preocupava em dedicar tempo à comunhão com Deus e conciliava militância com momentos de oração. Militância e Oração: uma alimenta a outra. Para Jesus ação não é oração - Ele pára para orar. Há quem considere que "a ação já é oração", o que é muito relativo. Na experiência de Jesus, era muito freqüente ele retirar-se para estar a sós com Deus. Casaldáliga nos alerta: “Militante cristão precisa rezar pelo menos trinta minutos por dia”.

Na espiritualidade farisaica o centro da santidade está na capacidade de ser virtuoso. No modelo de Jesus, quanto mais na fossa estou, mais Deus me ama e mais devo me abrir para Ele. Não há montanha a subir, não há virtude a servir de critério para o encontro com Deus. Há apenas uma coisa: Deus nos ama irremediavelmente, apaixonadamente. E quanto pior estivermos, mais nos devemos abrir a esse amor de Mãe. Porque a Mãe se preocupa mais com o filho doente, fraco, que está metido em uma porção de  “rolos”. É com esse que ela mais sofre, é a esse que ela mais quer. É preciso deixar-se acolher, na linha do acolhimento que Jesus faz à prostituta, ao ladrão, ao sujeito condenado pelos fariseus, a todos os excluídos.

Enfim, Jesus foi um grande místico, na linha dos profetas. Viveu e cultivou uma relação amorosa e íntima (não intimista) com o Pai, Deus da Vida, mistério de infinito amor.

 

3.2 - O Deus de Jesus de Nazaré

          Para Jesus e para o cristianismo, o Deus verdadeiro está no outro, preferencialmente. Está em cada um/a de nós, mas está, por excelência, no outro. Deus não pede nada para si mesmo, não quer ser objeto do nosso amor. Deus é sujeito de amor. A quem diz a Deus: “quero te amar!”, Ele responde: “ficarei muito feliz se você amar o seu próximo, o outro, seu irmão”. “Não se preocupe comigo; ame meus filhos e filhas que são todas as criaturas”, poderia continuar Deus dizendo.

O Artista maior das nossas vidas não é "onipotente", porque não age como ditador impondo a sua vontade. Deus não é padrasto; não é paternalista; não é assistencialista. Ele não atropela as nossas liberdades. Deus é 100% amor: é pai e mãe. Por isso não impõe nada, mas se limita a propor ternamente. Podemos dizer sim ou não ao seu projeto libertador e humanizador e temos que assumir as conseqüências. Por ser amor, Deus é eminentemente "frágil", pois nos deixa livres, respeita o nosso direito de ser diferente, muitas vezes tem "uma paciência danada" conosco, e sabe que mais cedo ou mais tarde daremos a nossa adesão ao seu projeto de amor e de libertação que se realiza em tempos de exclusão. A ação de Deus é como fogo no capim seco ou como água morro abaixo: ninguém segura.

 

3.3 - Elementos constitutivos da Mística de Jesus

Além da grande intimidade com Deus, manifestada na Oração, o que era espírito-espiritualidade para Jesus viver sua missão no compromisso com os pobres? Destacamos os aspectos que se seguem.

A paixão de Jesus pelo Reino se tornou paixão (com-paixão) pelos marginalizados e excluídos (Lc 9,1-6). A raiz dessa paixão e dessa prática solidária e libertadora foi sempre a comunhão íntima e amorosa com o Deus da Vida, Pai e Mãe de Amor.
A profunda amizade com Madalena, Lázaro, Maria, o discípulo amado, outros discípulos e outras discípulas.

A noção de que era Filho dos profetas. Jesus era descendente de Abraão (no início, um “sem-terra”, sem futuro e sem bênção), de Moisés (líder da libertação dos escravos frente ao imperialismo egípcio), de Elias (ardoroso defensor de Javé e dos preferidos de Deus, implacável lutador contra toda e qualquer idolatria), de Amós (camponês vaqueiro que chamou os “latifundiários” de vacas de basã), de João Batista (líder de um grande movimento popular que queria construir um mundo social mais justo e igualitário). (Somos filhos/filhas não apenas de nossos pais.)

Jesus cultivava no coração e na mente a mais profunda convicção expressa no Sl 72,15: "Não posso trair quem está na luta...! " Ai do líder que trai o seu povo. Eis um exemplo: Allende, presidente constitucionalmente eleito pelo povo do Chile, foi morto em 11 de setembro de 1973, dentro do palácio do governo. Forças militares apoiadas pelos EUA deram um golpe militar e impuseram Pinochet no poder para liderar uma ditadura, que foi responsável pelo desaparecimento de trinta mil pessoas no Chile. Allende legou exemplo raro: preferiu a morte à infâmia. "Pagarei com minha vida a lealdade do povo", disse em sua última mensagem, pela rádio Magallanes, quando qualquer resistência era inútil. E terminou pondo a esperança no horizonte, contra o vento e a maré: "Superarão outros homens este momento cinzento e amargo, no qual a traição pretende impor-se,... continuem sabendo que antes cedo do que tarde, se abrirão as grandes alamedas pelas quais passará o homem livre para construir uma sociedade melhor”.

Jesus de Nazaré tinha a intuição de que devia honrar o sangue dos mártires: João Batista, as crianças assassinadas por Herodes, o sitiante Nabot (I Rs 21), os camponeses, vítimas da pesada tributação do Império Romano. O sangue do camponês galileu ferveu e Ele ficou indignado ao saber que seu grande amigo João Batista havia sido preso por Herodes (Mc 1,14-15). O profeta João Batista gerou subversão e incomodou os poderosos. Era preciso eliminá-lo. Jesus leu os fatos da Vida e concluiu: "Chegou a minha hora, agora tenho que continuar a missão de João Batista".

O fato de ser filho de José, o justo, (lavrador e carpinteiro) e de Maria, uma mulher do Deus dos excluídos e dos excluídos de Deus.

 

3.4 - Jesus se encontra com os pobres e com eles se compromete

A vida de JESUS, que conhecemos também por suas posturas e ensinamentos, se caracteriza por ENCONTROS com pessoas do seu círculo de amizade e principalmente com pessoas do mundo dos excluídos. Ele

a) teve, esporadicamente, “encontros” com pessoas do Poder dominação, que foram mais “desencontros” do que encontros, pois marcados por atritos;

b) mergulhou na conflitividade da Vida: foi a Jerusalém (centro do poder assassino), cidade em que pisou raríssimas vezes, no exato momento em que era mais procurado pela repressão;

c) inseriu-se na História; assumiu a história com suas potencialidades e limitações; encarnou-se; não foi um fantasma, nem um mágico;

d) foi um inconformado com as injustiças e com os sistemas injustos; foi um sonhador, uma pessoa que cultivava a utopia bonita do Reino de Deus no nosso meio, tinha os pés no chão, mas o coração nos céus;

e) foi um profeta: alguém muito sensível, capaz de captar os sussurros e os cochichos de Deus através das entranhas dos fatos históricos;

f) foi, acima de tudo, uma testemunha, um mártir; não apenas disse verdades, mas doou a vida pelas verdades que defendia.

 

JESUS, e seu movimento, em uma postura altamente irreverente, se deixa envolver, se apaixona, se compadece do povo sofrido, o que se revela num esforço de transformação:

a) desmistifica o que é mistificado pelo senso comum;

b) “des-idolatra” deuses e ídolos que concorrem em uma imensa gritaria tentando seduzir as pessoas para projetos escravizadores;

c) dessacraliza o Poder, desmascarando os poderes religioso, cultural, político e econômico que, endeusados, promovem grandes atrocidades;

d) “des-dualiza” a forma de encarar a realidade - com Jesus, “o véu do templo se rasga” (Lc 23,45) e “ninguém deve chamar de impuro aquilo que Deus criou”. (At 10,15) Não há mais separação entre puro e o impuro, entre santo e pecador, entre transcendência e imanência, entre dentro e fora, etc. Tudo e todos são banhados pela dimensão divina e transcendente da vida. Em cada um/a de nós estão o feminino e o masculino, o bem e o mal, o sagrado e o profano.

 

JESUS se tornou tão humano que acabou se divinizando. Pelo seu relacionamento íntimo com o Pai, ao qual chamava de papai, paizinho (abbáh, em hebraico), Ele nos revela uma característica fundamental que perpassa toda a experiência do povo de Deus da Bíblia: o Deus comprometido com os pobres é um Deus transdescendente, não apenas transcendente - sua transcendência se esconde na imanência. A partir do Êxodo, constatamos como Javé é um Deus que ouve os clamores dos oprimidos e desce para libertá-los (Ex 3,7-9). No início do Gênesis, o Espírito desce e “paira” sobre as águas. Em Jesus de Nazaré, Deus se encarna, descendo e assumindo a condição humana, tendo “nascido de mulher” (Gl 4,4). No Apocalipse, Deus larga o céu, desce, arma sua tenda (não uma casa fixa e muito menos uma mansão) entre nós e vem morar conosco definitivamente. Logo, um movimento de transdescendência perpassa toda a Bíblia. Essa característica se reflete em Jesus.

Por sua prática e por seus ensinamentos, com audácia, JESUS propõe uma revisão do núcleo da Religião:

a) Deus não mais está fora, nem acima, nem distante; nem é “onipotente”. O Deus de Jesus co-participa dos processos de libertação;

b) os meios tradicionais de relacionamento com Deus - oração, jejum e esmola – se relativizam;

c) o jeito de viver a Religião se “des-hierarquiza”. Jesus faz uma “revolução copernicana” ao colocar Deus dentro da Pessoa Humana, da História e das Relações;

d) aponta para a Comunhão de tudo com todos, da qual devemos participar, tomar parte como membros da teia da vida com vocação para o infinito.

 

Como discípulos e discípulas de Jesus Cristo somos convidados a ser sal onde há podridão e luz onde há trevas. As Igrejas devem estar dentro do mundo, com o mundo e para o mundo. Esta é a História conduzida pela humanidade. O Espírito de Deus, dentro de tudo, age de baixo para cima e de dentro para fora - irrompe como água da fonte.

JESUS se comprometeu com os pobres. Quem são os pobres de Jesus? Pobre é quem sabe que, para além das coisas, o que existe são relações. Pobre não confia no poder centralizado, confia no projeto da partilha (Cf. Jo 6,1-14). A Mística de Jesus nos faz perceber que, em uma visita familiar, por trás de um café com pão de queijo oferecidos, estão sendo oferecidos muito mais do que coisas. Oferecem-se amizade, afeto, acolhida, atenção, reverência, gratidão, etc.

JESUS se fez mediação, porque reconheceu em todos e em tudo uma fonte: cada pessoa é uma fonte inesgotável de riquezas, de belezas e de dignidade. A luz e a força divina brilham em todos e em tudo e quer brilhar cada vez mais.

JESUS se engaja na luta ao lado dos pobres de um modo relacional. Ele não substitui os pobres, não os carrega nas costas, não os tutela. Quem recebe um presente de braços cruzados é como porco que recebe uma pérola: não valoriza a dádiva recebida. Jesus não “des-responsabiliza” ninguém; pelo contrário, responsabiliza a todos pela participação na vida,  relacionando-se de uma forma bonita, gratuita e libertadora (Cf. Lc 10,25-37).

 

4. E agora, José?[2]

 

4.1 - Um desafio quase imperceptível: o poder da mídia, essa cortina de fumaça sobre a realidade

As Comunidades Eclesiais de Base, as Pastorais Sociais e os movimentos sociais não podem mais lutar como se lutava nas décadas anteriores. A conjuntura mudou ao ser mudada a forma como se dá visibilidade aos fatos. Não basta fazer uma grande manifestação se a notícia não chegar ao povo. O excesso de informações não corresponde à eficiência na comunicação. O filtro do que vai ser mostrado na mídia não passa pela vontade dos atores dos fatos. Dessa forma, novos desafios se colocam. Vencer a força da mídia é um deles.

A mídia é hoje, na prática, o principal e mais forte “partido político” do Brasil. Faz o ídolo e o destrói no dia seguinte. Serve aos brasileiros, todos os dias, um cardápio de violência, entretenimento e consumismo. Ao divulgar fatos violentos, injeta no tecido social o medo que, como fogo no capim seco, alastra, deixando a população temerosa. Esse temor “sem razão” faz diminuir a participação popular nas iniciativas e dificulta as ações dos movimentos sociais que poderiam alterar a correlação de forças existentes na sociedade. Lembremo-nos de Maquiavel: “Se queres imperar, divide!” Hoje, as poucas famílias proprietárias de mais de 90% dos grandes meios de comunicação sabem que a melhor forma de domínio é injetar medo na população, anestesiar o povo com programas de entretenimento e trombetear aos quatro ventos o “economicismo”, que se constitui em é reduzir as várias dimensões da vida humana à dimensão econômica. Ganhar dinheiro é mostrado como se fosse o caminho para a felicidade.

O medo e a insegurança são motivos para a construção de mais e mais penitenciárias. Vinte  anos atrás havia 20 mil presos no Brasil. Hoje, já são cerca de 500 mil. E há mandado de prisão contra outros 500 mil. Enquanto cresce o Estado penitenciário, os pobres, maiores vítimas da violência social crescente, não são considerados nas políticas de segurança do Estado. Muitas crianças são vítimas de violência, exploração sexual e educação inadequada, o que acarretará uma juventude sem esperança e esquecida. Quando ocorrem os crimes bárbaros e as vítimas são de classe média há um alarde.[3] Quando as vítimas são os pobres, o que é maioria, ninguém fica sequer sabendo.[4] As propostas que surgem vêm na contramão dos ditames constitucionais como é o caso dos projetos de lei que visam à redução da maioridade penal.

Para não enlouquecer as pessoas com tanto “sangue”, a mídia faz a política do “pão e circo” em sua forma moderna. Transforma todo o País em um imenso picadeiro, onde os apresentadores são os palhaços e a população, sentada no sofá, anestesiada, aplaude o besteirol dos programas de auditório, as novelas envenenadas pela propaganda intermitente e os programas tipo reality show, como o Big Brother, no qual desocupados cavam o precioso espaço da televisão e são chamados de heróis pelo apresentador do programa, em uma afronta sem tamanho aos que efetivamente sustentam o País com seu trabalho e vivência ética.

 Além disso, a dimensão do consumo é absolutizada. O discurso econômico, incompreensível para a maioria da população, centra-se em informações como “o dólar subiu...” o dólar desceu...” “vendeu tanto”; “cresceu tanto...” “a inflação foi de ...” o que induz a população à perspectiva meramente econômica da vida e embota a inteligência ao atrofiar outras dimensões da vida humana: o social, o cultural, o ecológico, o espiritual, etc.

Não se pode mais aceitar que os movimentos sociais e suas lideranças, muitas delas oriundas das CEBs e das Pastorais Sociais, que conquistaram muitos dos nossos avanços democráticos, sejam sistematicamente criminalizados, sem condições de defesa, pela quase totalidade dos grupos midiáticos comerciais. E que tais movimentos não tenham condições de informar suas posições com as mesmas possibilidades e com o mesmo alcance à disposição dos que os condenam. Um Estado democrático precisa criar um amplo e diversificado sistema público de comunicação, no sentido de produzido pelo público, para o público, com o público. Tal sistema deve oferecer à sociedade notícias e programação cultural para além da lógica do mercado. Um Estado democrático precisa defender a verdadeira liberdade de imprensa e de acesso à informação, em toda sua dimensão política e pública. E ela só se dá quando cidadãos e grupos sociais podem ter condições de expressar idéias e pensamentos de forma livre, e de alcançar de modo equânime toda a variedade de pontos de vista que compõe o universo ideológico de uma sociedade.

Superar o poder midiático e democratizar o acesso à informação é um dos novos desafios que se colocam paras as CEBs, Pastorais Sociais e para a igreja que faz opção pelos pobres. É condição sine qua non para garantir o respeito aos direitos humanos e a realização de um projeto popular que possa construir, de fato, o regime democrático no Brasil. Por enquanto, esse espaço tem sido conquistado a duras penas por jornais alternativos, listas de e-mails, rádios comunitárias, TVs comunitárias, etc. Somente conquistando a ampliação desses espaços de comunicação poderemos romper as barreiras das diversas formas de poder no nosso país. A despeito da avalanche de informações jogada sobre as pessoas, diariamente, vivemos em uma sociedade da desinformação.

 

4.2 - Articulação entre Pastorais Sociais e os Movimentos Populares cria unidade na luta

 

Outro desafio que se apresenta aos promotores das Romarias da Terra e das Águas – CPT, CEBs, Pastorais Sociais e Movimentos Populares - é articular as diversas lutas para somar forças, em vista do sistema hegemônico opressor assentado em premissas econômicas. Para isso, é vital entrosar, organizar e encaminhar lutas conjuntas entre os diversos movimentos e a rede de comunidades cristãs.  Entre os camponeses, por exemplo, é preciso unificar as lutas dos Sem Terra com o movimento indígena e o movimento negro quilombola.  Se olharmos bem, a pressão sobre os territórios da agricultura familiar ocorre da mesma maneira sobre as comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, vazanteiros, caatingueiros, sertanejos e seringueiros.

Para ampliar massivamente a consciência de um sistema opressor e depredador faz-se necessária a formação de uma rede de Comunidades de Base, movimentos populares do campo e os movimentos sociais urbanos, tais como: os movimentos que lutam por moradia, os catadores de material reciclável, o movimento estudantil, os movimentos ambientalistas, etc.

Essa articulação de comunidades e movimentos sociais do campo e das cidades em luta terá mais fôlego para enfrentar o poder econômico que domina os espaços da política e cria a impressão de fechamento de todas as saídas possíveis.

 

4.3 Desafios às lideranças das Pastorais Sociais e dos Movimentos Sociais

 

4.3.1 - Ser coerente e não se deslumbrar com o poder

Eis um novo desafio para as lideranças das comunidades cristãs, das Pastorais e dos movimentos sociais: a encarnação da ética e da honestidade, o que passa pela coerência entre discurso e prática. Às vezes, o discurso inflamado nas tribunas não corresponde à prática nas ações, na coerência entre grandes lutas e testemunho pessoal.

A coerência não deve ser apenas ética. O militante cristão conhece bem o desafio que é defender um projeto ao longo de toda a sua história. A coerência deve ser também política, moral e espiritual. Muitas vezes para ser coerente temos que mudar, pois a realidade é dinâmica. Todavia, mudar valores não significa abandonar princípios, pois estes permanecem válidos.

Atualmente, no Brasil, estamos vivenciando a experiência dos comportamentos estranhos de antigas lideranças históricas. A chegada ao governo central contaminou muita gente com o deslumbramento, o desrespeito e o distanciamento da base. Lutar pelo poder para que seja serviço e não dominação sem perder o sentimento de povo é talvez o maior desafio. Os movimentos sociais no Brasil, de repente se viram isolados, levantando bandeiras anteriormente defendidas pelos atuais ministros, senadores, deputados, ou até mesmo pelo Presidente da República - todos ex-integrantes de CEBs, Pastorais Sociais e movimentos sociais.

Acreditamos que para ser um verdadeiro líder, democrático, popular e ecumênico é preciso não se afastar do meio dos pobres que lutam de forma organizada. É preciso conviver, partilhar as agruras e as lutas, o dia-a-dia. Esse o antídoto, a vacina que evita a cooptação e a traição dos projetos populares.

 

4.3. 2 - Mudança estrutural e pessoal conjuntamente

Não podemos ignorar o seguinte princípio: se o problema é estrutural, a solução não pode ser só pessoal. Para problema estrutural, solução estrutural. Para problema pessoal, solução pessoal. Para problema pessoal e estrutural, mudança estrutural e pessoal. Não podemos também ficar amarrados no dualismo estrutura versus pessoa, como cachorro correndo atrás do próprio rabo. É falso o dilema: mudar primeiro a pessoa para obter mudança estrutural ou transformar as estruturas para conseguirmos mudança pessoal. O grande e saudoso profeta Dom Hélder Câmara, no filme “O Santo Rebelde” diz em alto e bom som: “Há estruturas externas e estruturas internas. O mais difícil de mudar são as estruturas internas”. A luta socioambiental indica que as duas lutas são uma luta só. Uma estimula a outra, são duas faces da mesma moeda, não podem ser separadas. Gandhi nos alerta: “Comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”. Devemos acrescentar: “mas não pare em você mesmo/mesma. Envolva-se, gradativamente, nas lutas por mudanças no mundo”.

 

4.3. 3 - Atuar com os pobres e não para os pobres

Para que aconteça transformação social com dimensão ecológica não basta trabalhar para os pobres. É imprescindível atuar com os pobres de forma que se tornem protagonistas de sua própria história e das lutas. Como exemplo, podemos citar a atuação do MST e da ASMARE - Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reciclável - de Belo Horizonte. Os líderes do MST têm força e são respeitados porque há um grande movimento popular que os respalda e do qual eles são porta-vozes. “A força vem da luta coletiva”, aprendemos com os Sem Terra do MST.

Os catadores de papelão, em Belo Horizonte e em tantas cidades do Brasil, eram como que “ossos ressequidos”, conforme descrito em Ez 37,1-14. Foi só alguém começar a uni-los e colocá-los em relação que, pouco a pouco, irrompeu uma força espiritual que os transformou de marginalizados em protagonistas da ASMARE, hoje uma associação pioneira e referência em diversos aspectos. A ASMARE faz um trabalho libertador em Belo Horizonte, com cerca de 250 associados, e beneficia, indiretamente, mais de 1500 pessoas. Vem irradiando ação e exemplo para dezenas de outras cidades brasileiras. Além de limpar a cidade e cuidar dela vai construindo novas pessoas, inovando na arte, abrindo espaços e oportunidades para a população urbana pobre e excluída, da capital mineira.[5]

 

4.3.4 – É preciso “dar nome aos bois”

Presas em limites pessoais, comprometimentos com pessoas ligadas ao sistema opressor-depredador, aspirações político-partidárias, incoerências, amarras, desejo de “agradar a gregos e troianos”, muitas pessoas que militam nas comunidades cristãs, em Pastorais e/ou nos movimentos sociais não querem chamar para si antipatia, incompreensões e perseguições. Assim se comportando, restringem em muito a radicalidade das lutas, na medida em que se recusam a “dar nomes aos bois”. Por exemplo, critica-se a monocultura do eucalipto, mas não se diz quem são os principais responsáveis por isso. Ações recentes das mulheres camponesas da Via Campesina deram um passo importante mostrando, no caso, que as transnacionais Aracruz Celulose e Stora Enzo são causadoras de prejuízos de diversa ordem no Sul do Brasil. Em Minas Gerais, as mineradoras, em especial a Vale, são as responsáveis pelos piores impactos causados ao meio ambiente.

É óbvio que não se podem atribuir responsabilidades sem a compreensão de que esses fatos estão interligados a um sistema muito mais amplo que tem respaldo nas políticas do governo. Mas é preciso lutar contra o “poder dominação” e essa luta não se faz apenas com palavras e discursos. É preciso, muitas vezes, desarrumar o que está “em ordem” nesse sistema opressor-depredador, pois se olharmos bem ele se funda na desordem e na insegurança.

 

4.3.5 - Estar bem-informado e adquirir conhecimento profundo

Segundo Alain Touraine, com os primórdios do desenvolvimento industrial, a empresa capitalista e o proletariado são de fato os elementos centrais na transformação social e política. Logo, a organização da classe proletária tornou-se condição essencial para a conquistas sociais em face das empresas capitalistas. Porém, na sociedade pós-industrial, essa centralidade da indústria - e, portanto, do fator econômico produtivo - se perde. Nessa nova sociedade, o conhecimento e a informação passam a constituir elementos-chaves na produção. Quem conhece pode. Quem está bem-informado tem em mãos uma grande arma. Por exemplo, o presidente Lula não abre um franco e transparente debate sobre o projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco porque sabe que se o povo tiver acesso ao projeto real de transposição, se revoltará e a obra será inviabilizada politicamente.

Hoje, os conflitos sociais, da mesma maneira, não se concentram somente no elemento econômico. Apesar de os conflitos de classe não desaparecerem (a indústria não desaparece), a relação trabalhador-patronato não detém mais a proeminência de outrora. Isso, principalmente, pelo fato de esses conflitos de classes terem, de uma forma geral, se institucionalizado, abrindo espaço para outras reivindicações sociais, agora não só econômicas, mas destacadamente culturais, ecológicas, de gênero. Surgem os movimentos feministas, os dos homossexuais, estudantis, etc.

Os laços que unem esses novos movimentos são mais comunitários e localizados, apesar de uma abrangência socialmente ampla. Se permanecerem reivindicações localizadas e restritas não se constituem, segundo Touraine, em movimentos sociais propriamente ditos. Para tanto, devem adquirir um destaque mais amplo e nacional. A direção para a qual devem caminhar tais movimentos são as instituições e, portanto, o âmbito das decisões políticas. A sociedade, segundo Touraine, deve lutar para democratizar o acesso aos mecanismos decisórios da política, não só da política partidária, que está em uma gravíssima crise, mas também da Política no seu sentido mais amplo: participativa, direta e em todas as esferas de exercício de poder.

 

4.4 - As CEBs e os movimentos sociais estão vivos e atuantes

No dia 8 de março de 2006, Dia Internacional da Mulher, quase duas mil mulheres da Via Campesina ocuparam um laboratório da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul. Destruíram em torno de 1 milhão de mudas de eucalipto e interromperam estudos que fortaleceriam a monocultura do eucalipto, pau reto que entorta a vida do povo.

A mídia, o intocado latifúndio da comunicação, esbravejou contra as mulheres condenando-as. Mostrou dezenas de vezes uma “pesquisadora” da Aracruz chorando. Lideranças se posicionaram. Vandalismo? Violência? Arruaça? Atentado à democracia? Que tipo de democracia? Antipetismo? Petismo do início do PT ou o Petismo de agora? As expressões acima foram bombardeadas contras as mulheres. Mas é necessário perguntar: Quem, de fato, praticou vandalismo, violência, arruaça? Quem atentou contra a democracia? As Mulheres ou a Aracruz? Diz o que tu fazes, que direi quem tu és.

A Transnacional Aracruz Celulose, proprietária de 250 mil hectares de eucalipto no Brasil, com a monocultura do eucalipto, já transformou o estado do Espírito Santo em um “deserto verde”. Já na década de 1980, intuiu Augusto Ruschi, ecologista e naturalista brasileiro, que o Espírito Santo seria o “laboratório” para treinar os 300 mil homens que, com 300 mil motosserras, destruirão a Floresta Amazônica, caso não seja interrompido o modelo econômico ancorado no agronegócio a partir de monoculturas. Até 2050 há previsão de que 40% da Amazônia já estarão desmatados; 76% do Mato Grosso e 97% do Maranhão.[6]

Mais de 90% da celulose produzida pela Aracruz é exportada, principalmente para os Estados Unidos, cuja população consome nove vezes mais papel do que os brasileiros. Já são cinco milhões de hectares de monocultura de eucalipto no Brasil, 52,6% só em Minas Gerais.[7] O eucalipto, originário da Austrália, é um vampiro das águas. 

A expansão da produção de celulose inviabiliza a reforma agrária e agrícola no Brasil. Não produz alimento. Ninguém come eucalipto. Não gera emprego proporcional à extensão de terra utilizada. Não garante uma relação responsável com o ambiente inteiro. Não distribui riqueza. Faz do Brasil um ponto subordinado - também na área da pesquisa - no quadro internacional do capital papeleiro. As necessidades infindáveis e insustentáveis de consumo de papel e derivados têm como referência os padrões de uma burguesia mundial que precisa demais do papel, porque escreve o desnecessário demais! Embrulha demais! Empacota demais! Compra demais! Gasta demais! Faz propaganda demais! E esse modelo absurdo de consumo é imposto ao campesinato mundial.

  A ação das Mulheres da Via Campesina, na Aracruz, está em consonância com as ações de Gandhi e Martin Luther King Jr., mártires dos oprimidos. Elas e eles fizeram desobediência civil: desafiaram as leis injustas sem agredir pessoas. Como gesto extremo, querem acordar consciências anestesiadas que são cúmplices de sistemas opressivos. A não-violência de Gandhi e de Luther King não diz respeito às coisas, mas, sim, às pessoas humanas, pontua Plínio de Arruda Sampaio.[8] O boicote do sal e do tecido inglês na Índia, o dos ônibus segregacionistas no Sul dos Estados Unidos e tantos outros movimentos de desobediência civil em todo o mundo causaram grandes prejuízos materiais aos capitalistas, mas trouxeram conquistas para a humanidade.

As mulheres camponesas foram compelidas a realizar um gesto extremo, pois os camponeses não estão sendo ouvidos. Se a Reforma Agrária fosse feita para valer e o ambiente estivesse sendo preservado, se as cartas e os documentos, por elas cuidadosamente elaborados e apresentados, tivessem sido acolhidos, não existiria a Aracruz destruindo como está. Não seria necessário às mulheres destruírem um milhão de mudas de eucalipto. Todo o povo brasileiro viveria mais feliz.

Para os capitalistas, a terra, as águas, as sementes, o ar, as matas, a Justiça e o Direito são, também, recursos que devem ser explorados conforme seus interesses econômicos. A modernidade é latente no modo de apropriação dos recursos públicos pelos interesses privados nacionais e transnacionais. Como bem advertiram Marx e Engels no Manifesto Comunista: “Com o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial a burguesia conquistou finalmente o domínio exclusivo do Estado representativo moderno. O poder do Estado Moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns da classe burguesa como um todo.[9]

Para as Mulheres Camponesas, esses elementos da natureza são dádivas e base da vida, não têm preço e jamais podem ser mercantilizados. Para elas a terra deve cumprir função social, deve alimentar a vida, não os lucros. Por isso, defendem a agricultura familiar que produz 70% dos alimentos da mesa do povo brasileiro. É o modo de produção rural que mais emprega no campo. Estabiliza a população sobre o território e desenvolve formas ecológicas de produção com a preservação da biodiversidade. Ademais, respeita a diversidade cultural das populações e gera dignidade para as comunidades mesmo pobres. Herança bendita da cultura indígena!

O que fascina no gesto simbólico das Mulheres da Via Campesina é a lição de que não precisamos e não devemos tolerar o desterro produzido em nosso próprio país. É preciso olhar toda a criação como um bem comum e do qual a humanidade é apenas um dos parceiros, não sua proprietária. As Mulheres nos dão o impressionante recado de que a sobrevivência da espécie não pode ocorrer à custa de tantas vidas e tanta destruição. As camponesas estão defendendo a gênese da vida, pois sabem e sentem que a vida deve ser venerada e respeitada em todas as suas matrizes.

 

4.5 - Ouvir o inaudível é imprescindível

Um amigo me confidenciou, na cidade de São Paulo: “Outro dia eu estava parado no semáforo. Chegou um mendigo para pedir dinheiro. Eu disse para ele todo cheio de moral: “- Se você não fosse beber pinga, eu te daria dinheiro”.

O mendigo, sorrindo e de braços abertos, me disse: “- Você disse que não me dá dinheiro, porque sou um vagabundo cachaceiro. Se você viesse dormir comigo umas duas noites aqui na calçada, neste frio lascado, você veria que a pinga é o meu cobertor. Bebo para esquentar meu corpo. Senão não agüento o frio e morro, como muitos outros colegas já morreram. Mas como você dorme no seu quarto quentinho, com ar condicionado, com 2 ou 3 cobertores, é muito fácil para você me chamar de cachaceiro”.

Bem dizia meu amigo: “Vemos o mundo a partir de onde estão os nossos pés”. Os seus pés estão num bom apartamento e de lá você contempla o mundo.

Um dia eu estava visitando os barracos na favela Massari, no Parque Novo Mundo, em São Paulo. Entrei num barraco, onde Adriana estava lavando roupa e …com o som ligado nu último volume. Achei muito alto e perguntei: “- Adriana, por que você gosta do som assim tão alto?” Ela baixou o Som um pouquinho e me respondeu: “- Gosto do som muito alto, porque se abaixo o Som, eu penso e se eu penso, choro, porque a vida para nós favelados é muito dura. Escutar música, no último volume, foi um jeito que encontrei para driblar o monte de problemas que a vida nos oferece; um jeito para sobreviver, já que não temos o direito de viver”.

Adriana e aquele mendigo lá de São Paulo despertaram em mim a seguinte reflexão: Ouvir o inaudível é imprescindível para quem quer guiar o povo. Apenas quando se aprende a ouvir o coração (e estômago, pés, mãos e.. ) das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, um líder pode inspirar confiança em um povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar a fundo na lama das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e opiniões reais.

 

5 - Considerações finais

Aprendemos que direitos só são conquistados com a organização e lutas protagonizadas pelas comunidades e pelos movimentos populares, ao lado de todas as entidades comunitárias e sociais que aglutinam a classe trabalhadora. Daí, apontarmos caminhos, mesmo conscientes de que não temos a total compreensão da realidade, mas certos de que é melhor estarmos em movimento do que ficarmos de braços cruzados, esperando sermos devorados pela voracidade de um sistema em expansão, sem precedentes. Por enquanto estamos apenas resistindo. A mudança radical, ou seja, desde a raiz, só poderá ocorrer com muita luta que é o que gera a esperança.

Diante da avalanche de injustiças sociais e de devastação ecológica em progressão geométrica sentimos, muitas vezes, uma grande impotência. Parece que estamos caminhando para um apocalipse da vida sobre nossa única casa comum, o planeta Água, erroneamente chamado de planeta Terra. Mas a fina flor da experiência bíblica indica-nos que os momentos de crise são profundamente férteis. “O deserto é fértil”, dizia dom Hélder Câmara. Há potencialidades que precisam ser desenvolvidas.

É fundamental reconhecer que estamos participando de processos, de uma caminhada constituída de uma infinidade de passos que devem ser articulados entre si. Se ficarmos contemplando apenas o tamanho do Golias, não perceberemos a força e a grandeza presentes no pequeno Davi. O sistema opressor e depredador é um gigante, mas tem pés de barro. A história demonstra que, quando menos se espera, guinadas  são dadas e os ventos começam a soprar em outra direção. 

 

Frei Gilvander Luis Moreira

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[1] Mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica; em Minas Gerais, assessor da CPT, CEBs, SAB, CEBI e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br e www.gilvander.org.br

[2] O texto abaixo é um extrato, com algumas modificações, do artigo “Novos desafios dos Movimentos Sociais” de Delze dos Santos Laureano e Gilvander Luís Moreira, publicado em UNES PEREIRA, Flávio Henrique; FONSECA DIAS, Maria Tereza; Cidadania e Inclusão social - Estudos em Homenagem à Professora Miracy Barbosa de Souza Gustin -, Ed. Fórum, Belo Horizonte, 2008, pp. 155-168.

[3] Dois exemplos recentes são o caso do menino João Hélio, arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro após um assalto e o da menina Isabella, jogada do 6º andar de um prédio, ato este que tem como suspeitos o próprio pai e a madrasta. A mídia explorou com sensacionalismo esses crimes violando, inclusive, princípios fundamentais.

[4] Por exemplo, Reginaldo Gomes, 19 anos, negro. Durante o dia trabalhava como ajudante de pedreiro e, à noite, era vigilante da Rua Raul Pompéia, Bairro São Pedro (ao lado da Savassi) em Belo Horizonte. Seu sonho foi interrompido barbaramente na madrugada do dia 25/8/2007, por volta das três horas da manhã, foi abordado por alguém (ou grupo), que jogou nele combustível e ateou-lhe fogo. Com 60% do corpo queimado, com queimaduras de 2o e 3o graus, mesmo tendo passado por cirurgias, após 12 dias, Reginaldo faleceu na noite do dia 5/9/2007. Cf. “Onde está teu irmão Reginaldo?”, MOREIRA, Gilvander Luís, em www.ecodebate.com.br em 8/9/2007.

[6] Cf. MEDEIROS, Rogério, Ruschi, o agitador ecológico, Ed. Record, Rio de Janeiro, 1995; e FSP, 23/3/2006, p. A17.

[7] Cf. Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais - INDI - (2003).

[8] FSP, 24/3/2006, p. A3.

[9] Cf. MARX, Karl, ENGELS, Friedrich, O Manifesto Comunista, Rio de Janeiro: Contraponto, 1998.