Rio São Francisco: “O
movimento contra o projeto da Transposição tem que ser politicamente ampliado e
nacionalizado”.
Entrevista especial
com João Abner – 17/01/2008
Conhecido como um dos maiores
estudiosos da situação do semi-árido brasileiro, João
Abner já manifesta há anos que o problema da região não é a falta de água,
mas, antes de tudo, a má qualidade da gestão em relação a ela. “O balanço
hídrico global do semi-árido brasileiro é superavitário quando se leva em
consideração as vazões regularizadas pelos grandes açudes frente às demandas
hídricas atuais e futuras da região. Os próprios números levantados nos Estudos
de Impacto Ambiental (EIA) do Projeto de Transposição
do Rio São Francisco comprovam essa tese”, afirma Abner, em
entrevista concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line.
Marcada
por inúmeras polêmicas, as obras de transposição
do Rio São Francisco continuam. O governo insiste em dizer que o projeto
finalmente levará água para aqueles que sofrem com a escassez deste recurso.
Mas, então, por que com a transposição o rio ficará cada vez mais próximo dos
produtores de frutas, flores e camarões para exportação? “No momento atual em
que os movimentos sociais que atuam na região se tornam reféns do processo
político, surge D.
Cappio como uma liderança, sem vínculo partidário e projeto hegemônico,
respaldado pela sua vivência e pelo conhecimento da realidade”, acredita Abner.
Doutor
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O senhor
afirma que o problema do semi-árido não é a escassez de água, mas sim a má
gestão da água. Desde quando esse problema está instituído na região?
João Abner - O balanço hídrico global do semi-árido
brasileiro é superavitário quando se leva em
consideração as vazões regularizadas
pelos grandes açudes frente às demandas hídricas atuais e futuras da região. Os
próprios números levantados nos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) do Projeto
de Transposição
do Rio São Francisco comprovam essa tese, mostrando um comprometimento com
as demandas prioritárias de consumo humano, animal e industrial. As demandas
urbanas e rurais apuradas para 2025 são de apenas 40% da vazão garantida
regional, avaliada a partir de um cenário bastante pessimista, quando comparado
com estudos e planos dos próprios estados receptores que, em conjunto,
apresenta valor três vezes maior. A disponibilidade hídrica apurada no EIA
refere-se a 85% das vazões regularizadas em 99% dos anos nos maiores
reservatórios, de ponta, das bacias receptoras das águas do velho
Chico.
Isto é: foram desconsideradas, por
orientação da ANA (Agência Nacional de Águas), as
contribuições de centenas de grandes reservatórios intermediários, assim como
das águas subterrâneas largamente utilizadas na região. Além do mais, a demanda
potencial de irrigação apurada no EIA do projeto não representa a realidade da
Região, dado que foram incorporados no cálculo inúmeros projetos de irrigação
inviáveis, planejados sem a devida sustentabilidade local, gerando um déficit
hídrico irreal. Portanto, o hipotético déficit hídrico global largamente
divulgado pelo Governo
como justificativa do projeto de transposição é falso, tendo em vista que as
águas da transposição irão aumentar os estoques de água dos maiores
reservatório ociosos da região, sem alterar o quadro das secas que é uma
realidade secular terrível para o povo do sertão, principalmente para a
população difusa do campo, que não tem acesso à água dos maiores reservatórios
e convive permanentemente com um elevado risco de insucessos nas atividades
agropecuárias de sequeiro e de colapso no abastecimento hídrico humano e
animal, quadro esse que se reproduz em todo o semi-árido
brasileiro.
IHU On-Line - Como o senhor
analisa o governo Lula no aspecto ambiental?
João Abner - A política ambiental reproduz o caráter
conservador do governo Lula, que se revelou na estratégia de rolo compressor do
licenciamento ambiental e hídrico do projeto de transposição do Rio São
Francisco, maior obra do governo Lula. Nesses casos, o governo, com todo o
aparato do Estado e sem a devida isenção, atuou em bloco, atropelando os
processos de mobilização popular do licenciamento ambiental e da formulação do
plano da bacia conduzido pelo Comitê da Bacia do Rio São Francisco, que foi
desautorizado pelo Conselho Federal com a participação ativa da ANA na questão
da outorga de água da transposição
do Rio São Francisco.
IHU On-Line - O senhor pode
nos explicitar como se dá a sua proposta de reforma hídrica em alternativa à
transposição do Rio São Francisco?
João Abner - A reforma hídrica tem como princípio a
democratização do acesso à água e dos benefícios da infra-estrutura hídrica
pública da região, com ênfase na questão do abastecimento humano e animal,
prioritário. A água do semi-árido deveria ser encarada menos como um insumo
econômico e cada vez mais como um fator de sustentabilidade socioeconômico e
ambiental para o campo e cidades, ao contrário da transposição
do Rio São Francisco, que reproduz a política hidráulica de ampliação dos
estoques de água da região, na lógica capitalista de crescer o bolo para depois
dividir. A política de pólos de irrigação deveria ser entendida como exceção e
não regra, tendo em vista que o semi-árido só tem água para irrigar
permanentemente 2% do seu território. Portanto, no geral, deveriam ser
fortalecidas as atividades econômicas urbanas, envolvendo 75% da população, e a
agropecuária de sequeiro no restante da região dentro de uma política
sustentável de convivência com o semi-árido.
Dado as incertezas no clima da região, o grande desafio consiste no
desenvolvimento de um planejamento governamental dinâmico e otimizado para a
região, diferenciado para os períodos chuvosos e secos. Nesse caso, a solução
dos períodos secos passaria pelo bom aproveitamento dos excedentes dos períodos
chuvosos, tal como nos ensina a Bíblia com a história de José do Egito. Um bom
exemplo dessa estratégia é a cisterna que assegura água de boa qualidade durante
os períodos normais. O projeto de transposição encontra-se na contramão da
história, e os seus idealizadores não enxergam as profundas transformações
vivenciadas no Brasil e no Mundo que tornaram a água um insumo globalizado.
Nesse contexto, o NE exporta água
pelo hidronegócio e importa muito mais via produtos de várias regiões do
Brasil num contexto de viabilidade econômica, ao contrário do projeto de transposição
que contará com um enorme subsídio cruzado do setor urbano politicamente
incerto.
IHU On-Line - Como o senhor
analisa o papel que Dom Luiz Cappio tem desempenhado em relação às obras de
transposição?
João
Abner - No momento atual
em que os movimentos sociais que atuam na região se tornam reféns do processo
político (em relação aos governadores dos estados), surge D.
Cappio como uma liderança, sem vínculo partidário e projeto hegemônico,
respaldado pela sua vivência e pelo conhecimento da realidade e a experiência
das pastorais da igreja com grande atuação na região há bastante tempo. É
importante destacar que há algum tempo esse importante movimento
extrapolou a problemática da transposição do Rio São Francisco tendo como alvo
um projeto de desenvolvimento regional efetivo e pleno.
IHU
On-Line - Qual é a importância da luta contra a transposição para o povo do
semi-árido? E para aqueles que, como o senhor, estudam essa região?
João Abner - A transposição será um verdadeiro
presente de grego para todos os nordestinos: irá
inviabilizar o frágil pacto da bacia do Rio
São Francisco com reflexos terríveis para o seu povo que também vive no
semi-árido; provocar a cizânia da região mais pobre do Brasil; encarecer
bastante o custa da água da região e induzir o subsídio cruzado do setor urbano
para o agronegócio exportador de frutas tropicais; e perpetuar as políticas
emergências de combate aos efeitos das secas no Brasil. O projeto irá chover no
molhado, as águas escoarão no leito dos maiores rios já perenizados pelas
maiores barragens da Região e passarão distantes dos locais mais secos. O
projeto irá paralisar as ações governamentais na região durante muito tempo
pela força do lobby alimentado pelos grandes investimentos da obra de
transposição, fortalecendo, dessa forma, o paradigma da obra como um fim em si
mesmo - a verdadeira indústria das secas no Brasil.
IHU On-Line - De que forma
a transposição do Rio São Francisco irá alterar a matriz energética da região?
João Abner - A obra será uma grande consumidora de
energia do sistema CHESF (Companhia Hidroelétrica do São
Francisco), que se encontra no limite de operação, devendo, por isso,
aumentar significativamente a freqüência de apagão do sistema, e, em
conseqüência, alterar a matriz energética da Região, requerendo o uso freqüente
de usinas termoelétricas, encarecendo o custo de energia do sistema elétrico
nacional unificado.
IHU On-Line - Quais são
suas perspectivas para a região agora que a obra foi retomada, mesmo depois das
fortes manifestações contrárias a ela?
João Abner -
O movimento contra o projeto tem que ser politicamente ampliado e
nacionalizado. A estratégia do lobby da transposição que se encontra
encastelado no poder é tornar a obra irreversível qualquer que seja o governo
em vigor, e daí viabilizar o acesso permanente de recursos via orçamento da
união, disputando com todos os programas governamentais durante muitos anos.
Talvez esteja aí o calcanhar de Aquiles da transposição.